09/01/2017 17:27:00

Dois caminhos



Divulgação

A tragédia com o avião da Chapecoense continua sendo uma chaga aberta, e talvez nem se feche, mas é preciso ao menos tentar uma forma conciliatória, a fim de que o futebol brasileiro supere, dê a volta por cima, depois deste drama mundial. A pergunta que não quer calar é a seguinte: o que fazer do que sobrou do futebol em 2016?

De tudo que vi, ouvi e li, me chamou a atenção dois argumentos opostos, porém bastante respeitáveis. Uma parte da crítica, que é maioria, defende que o caminho para superar a tragédia será manter viva a atividade do futebol para reerguê-lo, juntar forças imediatas para preservar a estabilidade do esporte no país, ou seja, vida que segue, porque o show deve continuar.

O outro argumento é reconhecer que não existe um prazo definido para acabar com o luto das pessoas, sobretudo aquelas diretamente atingidas pela morte de jogadores e do técnico, ou seja, de amigos e companheiros de profissão.

O maior exemplo é o de dona Ilaíde Padilha, mãe do goleiro Danilo, um dos ídolos da Chapecoense cuja vida foi ceifada na queda do avião, que vem dando seguidos exemplos de como se deve encarar a situação, mesmo diante de tanto sofrimento.

A cena onde ela consolou o repórter Guido Nunes (Sportv), que, compreensivelmente comovido, começou a chorar quando a entrevistava, continua rodando o mundo e serve de exemplo para muita gente. E não foi só o jornalista, dona Ilaíde consolou muitos outros presentes ao velório coletivo no Estádio Arena Condá, mostrando a força de quem optou por encarar o problema de frente e lutar pela superação de todos os dramas, familiares ou não.

Enquanto isso, vimos muitos jogadores e colegas da mídia manifestarem claramente o sentimento de que não queriam mais saber de futebol naquele final de ano etc e coisa e tal. Ou seja: duas reações diferentes, e ambas justificáveis. Mas, e agora? O que fazer assim que a nova temporada do futebol começar, daqui há alguns dias?

Volta-se imediatamente à atividade, à competição, ao campo, sem olhar para trás, sem murmurar, ou continua com o luto em respeito também à dor absolutamente compreensível de quem ainda está abalado?

Há também outra dúvida: como estabelecer um prazo para o fim de um sofrimento tão profundo, tão marcante? Antes de tudo, de qualquer crítica a um ou outro comportamento, é necessário reconhecer as razões dos dois lados, que são mais do que justas.

• As imagens do velório coletivo das vítimas do avião da Chapecoense foram, sem dúvida, o que presenciei de mais emocionante em quatro décadas como profissional do jornalismo esportivo. Antes, o povo colombiano já havia dado uma demonstração de solidariedade no Estádio Atanasio Girardot, que foi celebrada no mundo inteiro.

• Foi impossível não me emocionar quando os corpos das vítimas do desastre aéreo foram levados ao local onde os esperavam os parentes, amigos, torcedores da Chapecoense e moradores de Chapecó, além de autoridades esportivas internacionais como o presidente da Fifa, Gianni Infantino, acompanhado dos ex-jogadores Seedorf e Puyol.

• Mas nada foi mais comovente do que ver parentes das vítimas, tantos e tantos, passarem o tempo da cerimônia acariciando caixões fechados, sem poder ver ou tocar os rostos dos familiares trazidos da Colômbia. No entanto, foi em outro velório, no Rio de Janeiro, mais precisamente na sede do Botafogo, que recebia os corpos de jornalistas torcedores do clube, onde ouvi uma frase que talvez me tenha soado como a mais significativa, aquela que, de forma simples e concisa, retratou o sentimento de todo o povo brasileiro naquele momento.

• Disse o jovem treinador Jair Ventura, do Botafogo, a revelação do último Campeonato Brasileiro, que vem a ser nada menos que o filho do grande Jairzinho, o “Furacão” da Copa de 70: ”Parece até que cada um de nós tinha um parente dentro daquele avião".

• Vale registrar também aquilo que o técnico Caio Júnior, que morreu junto com seus jogadores, afirmara pouco antes do acidente, emocionado com o sucesso do seu trabalho na Chapecoense: “Se eu morresse agora, morreria feliz”. Caio Júnior, muitas outras pessoas também, ao que tudo indica por culpa da irresponsabilidade do piloto e dono da empresa aérea boliviana Lamia - que também morreu no acidente — e não há mais ninguém feliz. (Fecha o pano!)




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