30 de novembro, de 2016 | 16:14
Sobre Tragédia e Tragédias
Jonair Cordeiro *
Alguém, em algum tempo, disse que se jogarmos um sapo em água muito quente, ele pulará e sairá da água quente, ao passo que se o colocarmos em água morna e formos aquecendo lentamente ele morrerá ali, cozido. Não sei se é científico isso, nem tampouco se é verdade. Entretanto, a metáfora é boa.
O acidente aéreo que vitimou mais de setenta pessoas, que estamos chamando de acidente com a Chapecoense” é um exemplo claro disso: Todo o país está consternado; fotos provisórias de perfil são mudadas! Força Chape!” é a palavra de ordem.
Não sou senhor dos sentimentos de ninguém. Nem me atrevo a dizer por quem qualquer pessoa deve chorar. Não é isso. Nem quero mensurar a dor de ninguém
Dos 70 mortos, apenas 22 são jogadores. Mas, havia mais gente lá. Havia dirigentes, havia repórteres, havia advogado, havia uma tripulação.
Desculpem minha reflexão, mas o foco está na Tragédia do Time” que despontava no cenário nacional” ou na interrupção do sonho destes jovens.
Sei que a morte de jovens, em condições assim mexe com a gente. Tivemos média de 143 assassinatos por dia em 2014 (fonte: G1) .
Há, pois, por dia, duas tragédias como a da chapecoense. E se o prantear é pela perda de jovens vidas, vamos chorar ainda mais.
Pesquisas ainda revelam que jovens negros e com baixa escolaridade são as principais vítimas. No mundo, os homicídios representam cerca de 10% de todas as mortes no mundo, e, em números absolutos, o Brasil lidera a lista desse tipo de crime. (Atlas da violência 2016).
A tragédia da Chape ficará marcada para sempre. Teremos programas e mais programas discutindo as causas do acidente. Teremos homenagens das mais diversas a cada aniversário desta catástrofe. Justa e merecida.
Entretanto, os 143 corpos que caem diariamente, vítimas não de um desastre aéreo, mas pela bala de uma arma ilegal, ou de uma faca, ou de um machado, estes não serão lembrados porque nosso cotidiano se acostumou a eles.
Vemos cair um menino de quinze anos e isso não nos causa comoção.
Na mesma noite em que essa tragédia ocorreu, em Timóteo/MG, um adolescente de quinze anos foi morto a tiros. Raisson Henrique Nestor. E ninguém disse: Força Familia Nestor!” nas redes sociais. Outros tantos jovens foram mortos naquela noite. Outras 140 famílias, aproximadamente, estão pranteando suas perdas.
Quero prantear os Chapecoenses. Mas quero prantear os mortos diariamente. A tragédia dos Chapecoenses está na conta dos infortúnios. Os eventos externos, súbitos.
As mortes diárias não! São favas contadas”. A violência no país sabidamente fabrica estes óbitos. A insana política antidrogas gera mais óbitos e presos que qualquer resultado prático nos afunda ainda mais na violência.
Não há mais valor na vida do goleiro Danilo, morto no avião, que na vida do Raisson de Timóteo. Eles estão unidos pelo dia do óbito. Unidos pela desgraça da morte prematura. Unidos pelo laço da pátria. Um morto numa tragédia inesperada. Outro morto como a síndrome da tragédia anunciada.
Precisamos é fugir do ciclo de tragédias diárias. E precisamos urgentemente. Força Chape! Força Familia Nestor! Força meu Brasil!
* Jonair Cordeiro é advogado e diretor geral da Rádio Itatiaia Vale do Aço.
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Jaeder Teixeira Gomes
02 de dezembro, 2016 | 16:14Sua reflexão bate com a minha e posso provar com um texto que escrevi em 2006 e consta no livro PELO BURACO DA FECHADURA. Ei-lo:
PERDÃO, JULINHA
Em maio de 2006, pai e mãe morreram esmagados em seu carro, sob uma carreta. Sua filhinha escapou ilesa no carro totalmente destruído. Esse acidente comoveu o Brasil, noticiado insistentemente por pessoas preparadas para fazê-lo.
Atribuiu-se a sobreviência da garota a fatores espirituais, como proteção privilegiada de Deus e seus anjos. Não discuto. Primeiro porque também tenho minhas crenças em um poder criador e, segundo, porque já me custa dissertar sobre o óbvio e não me atrevo a me inserir nas questôs Maiores. Também porque as leis físicas são autônomas para poupar um corpo pequeno em espaço exíguo.
Júlia,
Não posso e não quero subestimar sua vitória. Seria trair as lágrimas que me rolaram, premidas pela emoção causada pela sua façanha. Ferros retorcidos sob muitas toneladas de progresso não foram mais fortes que você. Cumpre-me, porém, o dever de externar, com racional e antipática sinceridade, a constatação de que a nossa emoção é curta como vôo de galinha. Ela não sobreviverá à próxima, ainda que heterogênea como a Copa do Mundo de futebol, que se aproxima.
Não estaremos presentes nos seus inúmeros embates pela vida plena, que por certo virão como para qualquer de nós. Nem mesmo servirão para que tenhamos olhos para os seus amiguinhos que estão sendo prensados, não por uma carreta, mas pela desnutrição continuada, bem perto de nós.
Pude perceber que você é querida, em uma família bem estruturada e amorosa. Portanto, queira Deus, sua vida será de pleno êxito e alegrias. Para seus amiguinhos que não têm um destaque sequer para figurarem na imprensa, não sei se alguma voz se levantará em seu favor.
Jaeder Teixeira Gomes”