09 de dezembro, de 2016 | 14:42

O múltiplo Dom Lara

João Senna


Debilitado, mas lutando pela vida, desde 29 de novembro, o bispo emérito da Diocese de Itabira-Coronel Fabriciano, Dom Lélis Lara, teve a sua “morte” anunciada aos quatro ventos pelas redes sociais nos últimos dias. Tivesse a felicidade de driblar a mulher da foice, certamente daria boas risadas dessa afobação dos muy amigos internautas. Depois da melhora inicial de uma pneumonia, o quadro de saúde voltou a se agravar e o religioso veio a óbito na noite dessa quinta-feira, 8. Morreu a poucos dias de completar 91 anos, no próximo dia 19.

Mais que prantear o passamento de uma liderança com vasta folha de serviços prestados a Coronel Fabriciano e ao Vale do Aço, o momento é de reflexão. Há muito, no Brasil e no mundo, a preocupação é crescente. A morte de estadistas e ícones, dos mais variados campos de atividade, abre uma lacuna ainda maior quando se olha para os lados e não se vislumbram substitutos com a mesma têmpera.

Por ocasião do falecimento do pioneiro Narciso Drummond Torres, liderança inconteste no processo de desenvolvimento de Fabriciano, o pioneiro foi comparado, por Maurício Guerra, a um jacarandá. A imponente árvore domina a paisagem por uma questão natural: cabe a ela garantir proteção ao crescimento de várias outras espécies de menor porte ao seu redor.

Antes, era fácil encontrar pessoas com essas características, sempre motivadas a agir em nome da cidadania para conquistar benefícios e, assim, tornar mais harmônica a vida em sociedade, sobretudo levando alento às camadas mais humildes. As chamadas forças vivas, determinadas a fazer e acontecer, além das realizações materiais, encaravam outras situações mais delicadas quando pressentiam, nos bastidores, iniciativas que resultariam em prejuízos às suas comunidades.

Dom Lara jogava nesse time. Sem se descuidar das suas atividades pastorais, nunca media esforços para viabilizar obras perenes. Exemplo disso foi a garra demonstrada ao assumir, em 1991, a direção do Colégio Técnico Padre De Man e, posteriormente, o Instituto Católico de Minas Gerais – ICMG, sucessor da PUC – Campus de Coronel Fabriciano. Em momento crítico, a obra do benfeitor holandês, que tanto lutou para materializar a Universidade do Trabalho, corria o risco de desaparecer. O vigor e a pujança do Centro Universitário do Leste de Minas Gerais (Unileste), atestam a qualidade do trabalho empreendido.

Ao encarar esse desafio, o religioso deu continuidade a uma vocação para se dedicar às causas sociais, uma marca da sua atuação desde a sua chegada a Coronel Fabriciano. Na prática, o cumprimento de uma filosofia de vida anunciada ao ser sagrado, em 1977, Bispo Diocesano. Na ocasião, defendeu o lema “Caritas omnia credit” (A caridade tudo crê – 1Cor. 13,7).

Em nome desse compromisso, uma das suas primeiras iniciativas foi dar um lar e educação a crianças e adolescentes sem referências familiares e abandonados, com a criação da Fundação Comunitária Fabricianense – Funcelfa, embrião da “Cidade do Menor”.

Na sua caminhada como Bispo Auxiliar de Itabira-Coronel Fabriciano, Dom Lara se destacou ainda pela ativa participação nas questões mais urgentes e conflitantes da região, sempre a partir das perspectivas dos direitos humanos. Como reconhecimento a esse destemor, era sempre uma das vozes mais ouvidas pela cúpula da CNBB (Confederação Nacional dos Bispos do Brasil).

Com base na sua invejável cultura, Dom Lara desenvolveu a dádiva de promover o entendimento e assim quebrar barreiras seculares. Uma palestra muito concorrida, na Loja Maçônica União de Ipatinga, resume esse modo de pensar do bispo-emérito, ao transmitir uma mensagem de união aos presentes: “O desejo ardente de Jesus Cristo é que todos sejam UM. E que todas as pessoas da Terra se enlacem num grande abraço. Este sonho de Jesus Cristo deve encontrar eco e ressonância no coração de todos nós, seus seguidores. Ao longo da História, sempre surgiram pessoas sensíveis ao projeto de Deus ao criar o homem e a mulher à sua imagem e semelhança”, resumiu.

Apesar de sempre atuar com o pensamento voltado a objetivos maiores, Dom Lara não conseguiu êxito em todas as suas missões em prol do interesse comum. Uma de suas maiores frustrações foi a insensibilidade dos gestores públicos que, contrariando todas as expectativas, botaram abaixo a bela estação ferroviária de Coronel Fabriciano, quando o leito da Vitória-Minas foi transferido para a outra margem do Rio Piracicaba. Mas vai baixar à sepultura com o sabor da vitória na defesa da construção do Parque Linear. A exemplo de outras lideranças que o ajudaram a convencer os vereadores da importância social da obra, no entanto, esperava por uma execução mais célere do projeto.

Dom Lara, há alguns anos, trocou o hábito de escrever artigos para os jornais. “Se quiserem, podem pegar o que posto no Facebook”, brincava. Muitos dos seus amigos torciam por sua recuperação, para ajudá-lo a rir daqueles que o despacharam antes da hora nas redes sociais. O mais importante é que, por sua obra, o religioso há muito garantiu seu lugar no panteão da História do Vale do Aço.

* Jornalista. Editor do Jornal Diário do Aço.
Encontrou um erro, ou quer sugerir uma notícia? Fale com o editor: [email protected]

Comentários

Aviso - Os comentários não representam a opinião do Portal Diário do Aço e são de responsabilidade de seus autores. Não serão aprovados comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes. O Diário do Aço modera todas as mensagens e resguarda o direito de reprovar textos ofensivos que não respeitem os critérios estabelecidos.

Envie seu Comentário