03 de fevereiro, de 2008 | 00:00

Boa vontade para ajudar

De latinha em latinha se chega a cadeiras de rodas para pessoas carentes

Alex Ferreira


Antes de chegar à cadeira de rodas, cada latinha precisa ser amassada
IPATINGA - Uma ação voluntária, que foi iniciada há oito anos em Ipatinga, beneficia pessoas carentes que hoje precisam de amparo em momentos delicados após acidentes, cirurgias e outras situações que demandam uma cadeira de rodas, muletas e outros equipamentos. Os recursos para as doações são arrecadados por meio da venda de latinhas recicláveis de alumínio. Por trás dessa ação há muita persistência, planejamento, boa vontade e interesse em ajudar a quem precisa. Aposentado do cargo de Supervisor de Transportes na Usiminas, Otoni Vicente Ferreira, 68 anos, conta que, certa vez, enquanto caminhava pelas ruas com o amigo Valdivino Jaime Agnelo, os dois especulavam sobre o destino a ser dado às latas de alumínio, encontradas jogadas pelos cantos. O material reciclável passou a ser juntado e, com os recursos arrecadados, foi adquirida uma cadeira de rodas. Dessa primeira iniciativa vieram outras doações e, em 2006, chegaram a 21 cadeiras, além de outros equipamentos como muletas, andadores e colchões d´água. O mesmo se repetiu em 2007. “A maioria dos beneficiados é de pessoas carentes. Temos aqui a relação de todos os beneficiados”, relata o aposentado, que conta com a ajuda da mulher, Neli Morato Ferreira. Para aqueles que vão utilizar os equipamentos cedidos apenas temporariamente, há a solicitação para que devolvam o equipamento, que poderá ser reencaminhado a outra pessoa necessitada. “A maioria atende ao pedido e devolve mesmo a cadeira, a muleta ou seja lá o que tenha usado”, explica Neli Morato.Trabalho suadoNo mercado uma cadeira de rodas, as mais simples custam cerca de R$ 220. Como uma latinha pesa 15 gramas e são necessárias 67 unidades para se chegar a um quilo, já se sabe que não será fácil juntar latas suficientes para  comprar uma cadeira. Além disso, com o dólar em baixa, o alumínio para reciclagem ficou mais barato, avaliado hoje a um preço médio de R$ 3,20 o quilo. A esse valor, serão necessários quase 69 quilos de latinhas para chegar à quantia suficiente para adquirir a cadeira. Para complicar, nos anos anteriores aumentou a procura pela lata. “Hoje a gente anda pelas ruas e não vê uma latinha jogada mais. Então, contamos com os amigos, que nos trazem doações”, conta Otoni, que mostra a garagem onde ficam estocadas as latas prensadas, para não ocuparem muito espaço. Nos períodos próximos ao Natal, Ano Novo e Carnaval, a venda é suspensa porque há mais oferta do material reciclável e o preço cai mais ainda, explica Otoni. “Às vezes não há recursos suficientes e chega alguém  à procura de uma cadeira de rodas. Então, o Valdivino e eu enfiamos a mão no bolso e completamos a compra para a doação”, explica. Otoni faz questão de explicar que, além das doações das latas feitas por amigos que conhecem o trabalho, não há arrecadação de dinheiro de qualquer espécie, não existe campanha e não há envolvimento de ONG ou associação. “Tampouco sou político. Gostaria que deixasse bem claro na sua reportagem que não tenho pretensões partidárias ou coisa parecida”, ressalta o aposentado, que também atua como voluntário na fábrica de fraldas geriátricas da Associação dos Aposentados. A produção é destinada a atender aos próprios associados.Satisfação e terapiaDe tanto ajudar, Otoni Vicente Ferreira e a mulher, Neli Morato, foram destaque no noticiário de uma rede nacional de televisão, quando em 2003 destinaram parte da arrecadação da venda de latas recicláveis para famílias nordestinas. “Na época, ficamos emocionados com o caso de uma família que passava fome em Alagoas. Como tinha sido boa a arrecadação com a venda de latinhas, decidimos fazer a doação para a compra de alimentos. Com base nessa ação nossa, eles fizeram uma grande campanha e arrecadaram 16 toneladas de alimentos que beneficiaram outras famílias necessitadas daquela região”, diz Otoni. Por causa desse feito, Otoni foi homenageado com um título de Cidadania Honorária de Ipatinga em 27 de maio de 2004. O título, ele guarda orgulhoso na estante da sala de visitas. Questionado sobre o resultado do ato de ajudar, Otoni pára por um rápido momento, pensa e diz, de forma contundente. “É uma gratificação sem tamanho. Penso que o trabalho de ajudar é uma terapia para a alma. É gratificante quando entregamos uma cadeira de rodas, um andador ou outro equipamento para quem precisa”, explica o voluntário. Aposentado desde 1988, Otoni afirma que vai continuar com o trabalho até quando Deus lhe der forças.   Alex Ferreira
Encontrou um erro, ou quer sugerir uma notícia? Fale com o editor: [email protected]

Comentários

Aviso - Os comentários não representam a opinião do Portal Diário do Aço e são de responsabilidade de seus autores. Não serão aprovados comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes. O Diário do Aço modera todas as mensagens e resguarda o direito de reprovar textos ofensivos que não respeitem os critérios estabelecidos.

Envie seu Comentário