07 de fevereiro, de 2008 | 00:00
Caixão cotado nos EUA a US$ 7 mil
Denúncia do furto de urna tira o sossego de familiares de pedreiro
Wôlmer Ezequiel
Sem poder abrir a cova onde o pai foi sepultado, Rogério convive com dúvidas sobre o furto de caixão
TIMÓTEO - Depois de enfrentar a dor da notícia do falecimento, do traslado do corpo e do sepultamento do corpo do pedreiro José Soares, de 59 anos, fulminado por um enfarte quando trabalhava em uma construção em Massachussets, Estados Unidos, a sua família, residente no distrito de Cachoeira do Vale, Timóteo, agora passa por outro constrangimento. Após denúncia, teve de exigir a apuração do furto do caixão em que estava o corpo de José Soares. A urna mortuária, confeccionada em bronze, veio dos Estados Unidos, no traslado pago pelos amigos do pedreiro, que há oito anos morava fora do Brasil. José Soares morreu no trabalho, dia 29 de novembro, e foi deixado pela direção da empresa em que trabalhava em uma unidade de urgência médica. Foram os amigos que assumiram o acompanhamento do caso e fizeram uma arrecadação para garantir o traslado para o Brasil. O corpo chegou a Timóteo no dia 8 de dezembro e o sepultamento de José Soares, no Cemitério Jardim da Saudade, bairro Santa Maria, ocorreu no mesmo dia. O filho de José Soares, o também pedreiro Rogério de Freitas Soares, conta que o mais novo tormento da família começou cinco dias depois do sepultamento. Segundo ele, um rapaz que se identificou como funcionário da Prefeitura de Timóteo, telefonou para a residência da família, na rua Ceará, em Cachoeira do Vale, para pedir a certidão original do óbito. No mesmo dia, fui alertado por um amigo que havia a possibilidade de a urna ter sido furtada”, conta. BurocraciaDesde que a família foi alertada sobre essa violação, o filho, Rogério de Freitas, anda de lado a outro na tentativa frustrada de tirar a limpo essa situação. O primeiro passo, conta o pedreiro, foi procurar a Divisão de Serviços Urbanos do Município, responsável pela manutenção do cemitério. Lá, foi informado que só poderiam reabrir a cova onde estava o corpo de José Soares mediante determinação judicial. Apesar dessa justificativa, Rogério entregou um ofício em que relatava a denúncia recebida pela família. No Fórum Geraldo Perlingeiro de Abreu, o pedreiro também não conseguiu um atendimento satisfatório. Lá, a recepcionista me disse para arrumar um advogado porque o juiz não conversa com qualquer um assim, não. A família não tem como pagar advogado e eu também estou endividado. O meu pai morava há muitos anos nos Estados Unidos, mas mandava dinheiro apenas para cobrir despesas de minha mãe”, argumenta. A última saída, segundo Rogério, foi levar o caso para a delegacia de Polícia Civil. Apresentou queixa, mas o delegado Nivaldo Antônio da Conceição entrou de férias e o caso permanece sem respostas até agora. Rogério afirma que a família tem suspeitos, mas evita fazer acusações, à espera da apuração. ConstrangimentosPior do que a dúvida se alguém foi capaz de furtar a urna usada no sepultamento, o pedreiro Rogério de Freitas conta que é enfrentar o constrangimento de falar com freqüência sobre o caso. A toda hora as pessoas chegam e perguntam se o furto aconteceu, se o caso está esclarecido. Enfim, o que a família quer é ter a certeza se o túmulo foi violado ou não. Temos que conviver com essa dúvida até que consigamos a exumação. Pensei que, pelo fato de a Prefeitura ser responsável pela segurança e manutenção do cemitério, esse esclarecimento pudesse sair mais rápido. Em vez disso, está essa confusão, essa demora”, lamenta.Rogério reclama dos 30 dias sem esclarecimento do caso e acrescenta que o valor da urna mortuária, estimado em 7 mil dólares, reforça a suspeita de que houve o furto. Segundo a denúncia que chegou à família, eles retiraram o caixão, pegaram o corpo e jogaram em meio à terra de qualquer jeito, sem ao menos colocar em outra urna. Isso é muito revoltante e tira o sossego da família. É uma total falta de respeito”, afirma. Município se isenta de responsabilidadeNo setor responsável pela manutenção dos cemitérios em Timóteo, a informação é que nenhum comunicado oficial chegou até agora. O chefe da Divisão de Serviços Urbanos e Limpeza Pública, Sebastião de Fátima Gomes, confirma que recebeu uma correspondência assinada por Rogério de Freitas. Mas não podemos deixar a família ir ao local e revirar tudo. Esse procedimento certamente configuraria violação de túmulo ou de cova. A família tem que ir ao Judiciário primeiro, conseguir uma ordem expressa determinando a exumação. É o que prevê o Código de Posturas do município”, explica. Sebastião de Fátima também informa que, após a reclamação da família, teve o cuidado de visitar o local onde houve o sepultamento do pedreiro. Segundo ele, além de à primeira vista não existir qualquer sinal de irregularidade na cova, ainda conversou com todos os vigilantes lotados no cemitério, inclusive os que trabalharam na semana em que teria sido furtado o caixão onde estava o corpo de José Soares. Nenhum deles confirmou tal irregularidade. Até pensei que esse caso estava encerrado e estou surpreso que a família ainda tenha essa dúvida. Nós não acreditamos que o caixão tenha sido furtado”, conclui o chefe da Divisão. Sebastião de Fátima admite que, até a família conseguir a ordem judicial para a exumação, ficará com a dúvida sobre o caso, mas reforça que nada será feito sem uma determinação legal. Segundo ele, em cova normal caso do corpo do pedreiro morto nos EUA , a urna fica enterrada a uma profundidade média de 1 metro e 20 centímetros.Alex Ferreira
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