18 de março, de 2008 | 00:00
Escola formal na berlinda
Casal processado por educar os filhos em casa quer ampliar debate
TIMÓTEO Das páginas do DIÁRIO DO AÇO para o Fantástico. Essa é a trajetória do casal Cléber de Andrade Nunes e Bernadeth de Amorim Nunes que, insatisfeito com o sistema formal de ensino, há dois anos tirou dois filhos da escola pública e decidiu assumir o desafio de ensinar os adolescentes em casa, dentro de padrões que consideram mais adequados. No dia 27 de janeiro último, a saga do casal foi tema de reportagem nas páginas do jornal. Indicada por leitores, a reportagem virou pauta para emissoras regionais, foi parar no jornal Folha de S. Paulo, na revista Época e, na noite de domingo, no programa Fantástico. No entendimento de Cléber de Andrade Nunes, essa repercussão é positiva, pois expõe a iniciativa para driblar os desacertos da escola formal. O problema é que ao tirar da escola regular os filhos Davi Andrade Amorim Nunes, 14 anos, e Jônatas de Andrade Amorim Nunes, 13, o casal arrumou problemas com a Justiça brasileira, que não reconhece o método de estudo em casa, conhecido nos Estados Unidos como homeschooling e utilizado em vários países.O pai, Cléber de Andrade Nunes, enfrenta os questionamentos provocados com a divulgação do projeto que envolve sua família. A maioria das pessoas imagina que é só na escola que acontece a convivência social de uma criança ou adolescente. Escola não é a única convergência das relações sociais nessa fase da vida. Há vários outros lugares onde os meninos convivem com pessoas de suas idades”, protesta.A observação de Cléber se dá porque os debatedores do assunto até agora se limitaram a tratar desse fator na decisão da família: isolamento social. Quem nega isso são os próprios meninos. Quando a reportagem do DIÁRIO DO AÇO os entrevistou, em janeiro, deixaram bem claro que praticam as atividades comuns à faixa etária de 13 a 14 anos. Fora a concentração na hora do estudo, é normal a vida de Davi e Jônatas, do skate ao computador.Cléber esclarece que quando chegarem à época da faculdade os filhos já estarão preparados. A eficácia do ensino já foi testada por meio da aprovação dos dois meninos no vestibular para uma faculdade de Direito em Ipatinga. O pai acrescenta que não é contra a instituição escola”, mas sim contra a dependência que ela cria nos indivíduos. É preciso buscar a liberdade, estimular a criatividade e o interesse em estudar sem um professor que lhes diga o que já está escrito em um livro”, explica. Números oficiais são assustadoresComo resultado da divulgação, a família tem recebido correspondências do mundo todo. A maioria das publicações é favorável à iniciativa dos pais. No site estadunidense www.lifesitenews.com, o caso da família de Timóteo é publicado junto à experiência de outro casal brasileiro, que precisou deixar o país para não perder a guarda dos filhos. Essa, a propósito, é uma ameaça que preocupa o casal Cléber e Bernadeth de Amorim. Após a condenação cível em que o juiz Ronaldo Batista sentenciou o casal a retornar com os meninos para a escola e ao pagamento de multa no valor de 12 salários mínimos, os advogados Adilson de Castro e Gesiney Campos, que defendem o casal, impetraram embargos declaratórios, que foram rejeitados. Entraram com novo recurso e aguardam resultados. Como a fase recursal nesse tipo de ação não provoca efeito suspensivo, a ameaça da perda da guarda paira sobre o casal. Mas não estou disposto a retornar com os meninos para a escola antes de esgotar todos os recursos jurídicos. Como posso aceitar isso diante de um sistema de ensino onde o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) tem uma média de 3,8% de aproveitamento?”, questiona. FalênciaA julgar pelos números, a qualidade de ensino é desanimadora. A estatística deveria ser um incentivo à exigência de melhorias, até mesmo porque poucos pais poderiam parar seus projetos profissionais para dar educação aos filhos, como fez o casal em Timóteo. Cléber cita que os órgãos do próprio governo têm divulgado que 90% dos alunos da quarta série saem analfabetos da rede pública e mais de 70% saem analfabetos da quarta série na rede privada. Então, pagar escola em muitos casos não resolve”, conclui. O pai cita ainda os resultados do Sistema de Avaliação do Ensino Básico (Saeb), segundo os quais 97,2% dos alunos da 4ª série estão abaixo do mínimo necessário em língua portuguesa e 96,4% abaixo do mínimo em matemática. Na rede privada esses índices são 74,8% em português e 66,8% em matemática. Não alcançaram a pontuação mínima que o próprio governo estabeleceu como o necessário ao fim de quatro anos. Isso prova que o Estado não tem condição de dar nem de fiscalizar o ensino de qualidade”, observa.No entendimento de Cléber, esse deve ser o debate que o caso de sua família deve fomentar de agora em diante. Esses números precisam ser divulgados e o assunto entrar em debate, porque ficar só na questão da minha família não resolve”, conclui.Alex Ferreira
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