27 de abril, de 2008 | 00:00
Retrato do abandono no Centro
Moradores de prédio antigo reivindicam transferência para casas populares
Fotos: Wôlmer Ezequiel
Precariedade: 16 famílias ocupam os cômodos do prédio abandonado há quase três décadas
IPATINGA - Infiltração, mofo, rede de esgoto precária e rachaduras. Estes são alguns dos problemas de infra-estrutura que fazem parte do cotidiano dos moradores de um prédio localizado na esquina das ruas Diamantina com a Nossa Senhora das Graças, no Centro. Um dos imóveis mais antigos da área central do município, o prédio hoje é habitado por cerca de 16 famílias que o invadiram no princípio da década de 1980. Por se tratar de uma invasão, os ocupantes não pagam aluguel, mas reclamam das precárias condições do lugar.Conforme a Associação de Moradores do Centro, a situação das famílias é motivo de preocupação há vários anos, assim como as cobranças para que o poder público tome providências de remanejar os habitantes para moradias populares, em outra área do município. Numa tentativa de intensificar a busca por soluções, foi formada uma comissão integrada pelos residentes do imóvel e representantes do Legislativo para pleitear medidas efetivas da Administração Municipal.InvasãoEsta construção está em ruínas e o nosso maior medo é que o prédio caia a qualquer momento. Não podemos sair daqui para outro lugar, porque não temos condição de pagar aluguel. Aqui só mora gente humilde”, disse à reportagem do DIÁRIO DO AÇO a lavadeira Maria Aparecida Martins, que reside há 22 anos no imóvel. A exemplo da maioria dos outros moradores, a sua família invadiu o prédio por não possuir condições financeiras de construir ou adquirir casa própria. Os problemas que os moradores do prédio de dois andares enfrentam hoje, segundo a lavadeira, sempre existiram. Qualquer precariedade de infra-estrutura que se possa imaginar a gente já enfrentou ou enfrenta aqui no prédio. Durante o período de chuvas fortes, por exemplo, todos os cômodos ficam molhados por causa das infiltrações. Aliás, este é um dos motivos que mais nos preocupam, uma vez que a infiltração vai corroendo a estrutura do imóvel. Com um prédio repleto de rachaduras e mofo, a sensação é de que ele pode despencar a qualquer momento”, revelou a moradora.Visitantes”Outra queixa dos moradores é quanto aos animais peçonhentos que são visitantes freqüentes”. Ratos, cobras e aranhas, aqui aparece o que você pensar de bichos que habitam lugares malcuidados. Apesar de os moradores manterem seus cômodos limpos, o prédio sempre foi deixado de lado pelos agentes sanitários. Tanto é que o povo daqui vive com dengue. Vivemos em completa situação de abandono”, reclamou a moradora do lugar.
Maria Aparecida Martins: “a sensação é de que o prédio pode desabar a qualquer hora”
Preconceito contribui para ampliar carênciaAlém da precariedade, as famílias que habitam o prédio entre as ruas Diamantina e Nossa Senhora das Graças reclamam do preconceito que sofrem pelo fato de morarem numa região apelidada de Cracolândia”. Quando a reportagem esteve no local, vários moradores se manifestaram contra a abordagem da imprensa, da polícia e da sociedade em geral, em relação à área. Quem nunca esteve aqui, acredita que só vivem drogados ou traficantes nessa parte. A imprensa em geral acaba passando uma imagem errada daqui”, reclamou um morador, que preferiu não se identificar.Para Rosa Maria Pereira, que vive no prédio há quase três décadas, a denominação de Cracolândia” acaba acentuando certos incômodos. Aqui moram famílias, crianças e trabalhadores. Não somos bandidos”, defendeu-se, com indignação.Conforme a lavadeira Maria Aparecida Martins, o preconceito também prejudica os moradores na hora de arranjar trabalho. Por conta dessa imagem negativa em torno da área, os moradores daqui enfrentam diversas barreiras para conseguir emprego. Quando o patrão toma conhecimento de que o candidato a um emprego mora aqui, quase sempre esse trabalhador é dispensado. A maioria de nós vive de bico e não arranja nada fixo, justamente pelo fato de sermos malvistos pelo restante da sociedade”, afirmou.Administração admite problema e vai agirConforme o secretário de Assistência Social, Paulo Sérgio Julião, a situação das famílias que habitam o prédio entre as ruas Diamantina e Nossa Senhora das Graças já é de conhecimento da Administração Municipal. Ele explicou que um projeto de revitalização daquela área já foi elaborado, mas o governo está pleiteando a liberação de recursos para promover as mudanças. Infelizmente, Ipatinga possui outros problemas de habitação e demandas gigantescas de moradia. Também sabemos que existem famílias vivendo nas mesmas condições em outros bairros do município. Como se trata de uma área particular, ainda estamos tentando localizar o proprietário do imóvel. No entanto, estamos cientes da precariedade daquele prédio, inclusive o próprio prefeito Sebastião Quintão já visitou o local. Esperamos que os recursos para revitalização daquela região sejam liberados ainda este ano”, adiantou o secretário.VistoriaConforme informações da Associação de Moradores do Centro, em 2002, na Administração passada, já havia sido feita uma avaliação das condições do prédio, condenando a estrutura do imóvel. Também o Ministério Público já requisitou, do Corpo de Bombeiros e do Conselho Tutelar, uma vistoria no prédio, e a previsão é que as visitas aconteçam nos próximos dias.
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