25 de maio, de 2008 | 00:00
Demanda acima do limite
Procura excessiva prejudica atendimento no Hospital Márcio Cunha
Alex Ferreira
Referência regional: entrada do Pronto-Socorro do HMC
IPATINGA Na entrada do Pronto-Socorro, a chegada e a partida de ambulâncias são constantes. Bastam alguns minutos de observação à porta do maior estabelecimento de saúde do Vale do Aço para verificar o trânsito de ambulâncias e carros que chegam com pacientes da Zona da Mata, Médio Piracicaba e, é claro, da própria região, de Antônio Dias a Açucena. Dentro do Pronto-Socorro, no entanto, começa a aparecer o lado negativo dessa procura acentuada. As filas de espera aumentam. Seja da rede privada conveniada ou da rede pública, o paciente em busca de pronto atendimento tem que esperar. Levantamentos do HMC mostram que, entre procedimentos clínicos e pediátricos, nos meses de março e abril de 2007 a média foi de 3.720 atendimentos. No mesmo período de 2008, a média mensal saltou para 4.806 atendimentos, um aumento de 30%. Esse salto é atribuído principalmente ao crescimento dos casos de dengue e outras viroses. O HMC tem, na Unidade I, 473 leitos, sempre ocupados e com fila de espera. Já a Unidade II, no Bom Retiro, dispõe de 132 leitos, basicamente voltados ao atendimento de pacientes do SUS.O diretor do Hospital Márcio Cunha, José Carlos de Carvalho Gallinari, confirma que a superlotação provocada pelo excesso de demanda é um fenômeno antigo. O médico observa que não há, por parte dos municípios do entorno, ações básicas de saúde e unidades de atenção primária com o funcionamento da forma ideal. Muitos avançaram na prestação do serviço básico, mas ainda não funcionam como deveriam e isso gera um excesso de demanda para Ipatinga, sobrecarregando o HMC e também o Pronto-Socorro Municipal de Ipatinga. No que diz respeito ao Márcio Cunha, esse excesso de demanda tem trazido algumas dificuldades para nós, para os prestadores de serviços, médicos, enfermeiras, auxiliares de enfermagem, laboratório, unidades de apoio ao diagnóstico. Sem dúvida, há serviço além capacidade física nossa”, admite.O diretor estima que, nos últimos doze meses, houve aumento entre 25% e 30% na demanda do HMC. Gallinari garante que tem feito o possível para melhorar os recursos, os fluxos internos, mas, apesar desse empenho, a capacidade física é finita. E isso gera às vezes um atendimento mais lento por absoluta insuficiência de recursos físicos. Às vezes falta até maca para o atendimento. O Estado, através do poder público, precisa cumprir o que prevê a Constituição Federal e investir recursos, não só em Ipatinga, mas também nos demais municípios próximos, para que melhore essa assistência básica, melhore a estrutura da urgência e emergência, para esse atendimento se dar de maneira mais diluída e não tão concentrada como ocorre hoje”, afirma.
Érica Pascoal
Gallinari: “investimentos na saúde não acompanharam o desenvolvimento da região”
Porta únicaQuem procura o Pronto-Socorro do hospital mais bem equipado do Leste do Estado entra por uma única porta, seja o paciente amparado por um plano privado de saúde ou não. A estimativa do diretor José Carlos de Carvalho Gallinari é que sejam prestados 8 mil atendimentos no Pronto-Socorro, acrescentando que 40% desse movimento são originados de outros municípios situados no entorno de Ipatinga. É um número muito elevado e, no nosso entendimento, se melhorasse a assistência à saúde nas áreas básicas dos municípios limítrofes, certamente diminuiria essa pressão de demanda sobre o HMC”, argumenta.Segundo Gallinari, ainda é uma realidade a afirmação de um ex-diretor regional de saúde, segundo o qual os municípios privam pela adoção da ambulcioterapia”. Na prática, esse comportamento nada mais é do que a comodidade de comprar ambulâncias, em vez de montar unidades de saúde. É louvável que sejam oferecidas condições para um transporte digno de pacientes, mas às vezes recebemos casos típicos de uma unidade básica de saúde, de uma atenção básica”, pontua.Distorções e urgência de investimentosNa avaliação do diretor do HMC, o Vale do Aço cresceu muito economicamente e na densidade demográfica, alcançou avanços sociais e na infra-estrutura urbana. No entanto, esse avanço não ocorreu na mesma proporção no campo da saúde, que ficou aquém do crescimento médio de outras áreas, e isso agora deságua na dificuldade para atender a população. O grande investimento na saúde aqui foi desempenhado pela Fundação São Francisco Xavier. Nos últimos cinco anos foram R$ 55 milhões. Construiu um outro hospital, no bairro Bom Retiro, e incorporou muita tecnologia antes inexistente na região. Isso trouxe maior atratividade também para o hospital. No entanto, por parte do Estado e da União, a gente não viu uma força de investimento. O que nos foi confirmado é que o Pronto-Socorro Municipal vai inaugurar agora uma outra ala de atendimentos de urgência. Isso é muito bom, mas não é o suficiente”, afirma. O médico defende que outros municípios também façam investimentos, a fim de evitar o risco de agravamento da situação regional. Enquanto isso, defende a conscientização da população no uso dos recursos: Pronto-Socorro é voltado para atendimento de urgência. Na medida em que atende a casos de baixa complexidade, situações que podem ser resolvidas na unidade básica de saúde, isso contribui para desorientação de todo um sistema integrado e hierarquizado”, adverte.
Divulgação
Projetada para 400 partos/mês, unidade neonatal opera com 40% acima da capacidade
Capacidade de internação é baixaSegundo recomendação da Organização Mundial de Saúde, o desejável é que se disponha de uma estrutura que ofereça 3 leitos por mil habitantes. O Brasil tem, segundo informações do Data SUS, 2,78 leitos por mil habitantes. Em Minas Gerais, essa relação é de 2,55 leitos por mil habitantes. Enquanto isso, o Vale do Aço está com 1,51 leito por mil habitantes. Então, a região tem uma capacidade de internação muito menor do que o mínimo necessário. A demanda do SUS é atendida por três hospitais: o HMC, um pouco pelo Vital Brazil, em Timóteo, e um pouco pelo Siderúrgica, em Coronel Fabriciano. Há alguns anos, contávamos com o Nossa Senhora do Carmo, que atendia ao SUS, em Fabriciano mas que foi transferido para o sistema Unimed. O usuário do SUS deixou de ter acesso e isso também causou mais uma dificuldade”, argumenta. o diretor do HMC. Para exemplificar o quadro atual, Gallinari explica que a maternidade do HMC, estruturada para realizar em torno de 400 partos/mês, geralmente atende em média 40% acima dessa capacidade. ReformaA proposta de reforma do Pronto-Socorro do Hospital Márcio Cunha está em análise na Fundação São Francisco Xavier, mantenedora do HMC. Também é feito um estudo para comprovar que o maior número de usuários do serviço é da rede pública. O projeto vai buscar recursos públicos, pois nossa obrigação é atendermos a 60% de pacientes do SUS e já atendemos 70%”, explica o diretor do HMC, José Carlos de Carvalho Gallinari.Questionado sobre reclamações de pacientes que, mesmo com o plano de saúde tiveram que esperar até seis horas no pronto-atendimento, Gallinari garantiu que não é usual esse tempo de espera. No entanto, o médico chama a atenção para a classificação de risco. É um sistema que seleciona o paciente para ser atendido, com a observância do nível de gravidade, estabelecido conforme normas do Ministério da Saúde”, explica.O sistema prevê que, ao chegar ao hospital, o paciente seja avaliado de imediato. O vermelho indica emergência; o amarelo, emergência menos grave, quando a vida não corre risco imediato. Já o verde indica que o paciente pode aguardar. O médico admite, porém, que o limite de duas horas de espera pode ser ultrapassado. Trabalhávamos com o tempo de 30 a 37 minutos, mas a partir do fim do ano passado tivemos uma sobrecarga”, explicou.Alex Ferreira
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