15 de junho, de 2008 | 00:00
Ameaça escondida
Mesmo em meio a incertezas, cresce a oferta de transgênicos no mercado
IPATINGA Os alimentos transgênicos a cada dia são mais encontrados nas prateleiras dos supermercados. Um exemplo é o óleo de soja. A maioria das marcas disponíveis é originária da soja transgênica. A utilização dos produtos modificados pode ser identificada nas embalagens por um T dentro de um triângulo com fundo amarelo. No Brasil, a rotulagem é obrigatória por lei. Os transgênicos, ou Organismos Geneticamente Modificados (OGMs), são produtos que possuem materiais genéticos de outros organismos, inseridos em pesquisas de laboratório. O plantio e o comércio desse tipo de produto modificado estão no meio de uma polêmica mundial, pois não se sabe ao certo as reações do seu consumo nos humanos e na natureza. Os países ricos, como os da Europa ocidental e o Japão, rejeitam fortemente os transgênicos. O Brasil é o terceiro maior produtor de transgênicos do mundo. Perde só para Estados Unidos e Argentina.As sementes transgênicas apresentam como vantagens a resistência a insetos e pragas, adaptação aos diferentes climas e alta produtividade. Mas isso é insuficiente para convencer a população e os protestos surgem em várias partes do mundo. Há suspeitas que os OGMs causem câncer, alergia e aumentem a resistência aos agrotóxicos e antibióticos. Ambientalistas afirmam ainda que os transgênicos empobrecem a biodiversidade e eliminam abelhas, minhocas e outros animais, além de espécies de plantas. O Greenpeace, maior ONG ambiental do planeta, garante que as reações da natureza diante dos transgênicos geram aberrações, como ervas daninhas super-resistentes e podem gerar superpragas capazes de sobreviver aos transgênicos. Também pesam as acusações da predominância de quatro transnacionais no agronegócio dos OGMs: Monsanto, Bayer, Dow AgroScience e DuPont. As empresas querem inserir o gene terminator”, que torna estéril a segunda geração de sementes. Assim, toda vez que for plantar, o produtor terá que comprar novas sementes das multinacionais. No Brasil, a questão dos transgênicos é discutida pela CTNBio, comissão de 27 técnicos que prestam apoio consultivo e de assessoramento ao governo federal na formulação, atualização e implementação da Política Nacional de Biossegurança em relação aos OGMs.PreocupanteEm Ipatinga, o engenheiro agrônomo da Emater José Luís admite que a situação dos transgênicos é preocupante, embora ressalte que não é contra os OGMs. Segundo ele, essa discussão é complexa e isso dificulta o entendimento da população, que fica à mercê dos formadores de opinião. Mesmo sem saber as conseqüências, a população já consume esses produtos diretamente, quando consome alimentos à base de soja ou milho transgênicos. Indiretamente, quando consome carne de animais alimentados com produtos transgênicos”, explica.Embora o debate dos OGMs esteja muito focalizado na questão das sementes, José Luís lembra que já se modifica também a genética animal. Acrescenta que a reação da população contra os transgênicos abre espaço para a produção orgânica. No Vale do Aço há pelo menos três grandes produtores orgânicos certificados: a Associação dos Apicultores em Ipatinga; a Cooperhorta, em Caratinga, responsável pelo abastecimento de grandes supermercados em Ipatinga, e um grupo de agricultores em Água Limpa dos Vieiras, em Ipaba. A produção orgânica é o contraponto aos transgênicos. As pessoas vão preferir pagar mais caro por um orgânico para se livrar do transgênico”, conclui José Luís. Questão de bioéticaPara o doutor em comunicação e cientista político Paulo da Rocha Dias, a proliferação dos Organismos Geneticamente Modificados é uma questão que ultrapassa as questões econômicas e chega à bioética. O estudioso afirma que modificar o que existe na natureza é um risco para o qual todos devem se atentar. Para evitar gastos com adubos e agrotóxicos, a soja Roundap Red já tem esses produtos em sua cadeia genética e isso será ingerido pelo ser humano, pelos outros animais. E qual será o resultado disso? Não existe controle científico do resultado até hoje”, alerta.Segundo Paulo Rocha, foi providencial uma decisão recente da CNTBio, que pediu prazo de cinco anos na liberação de novos transgênicos, justamente para saber o resultado dos OGMs. Paulo Rocha observa que no momento há incapacidade de controle dos resultados, no seu entendimento uma característica da pesquisa científica contemporânea. Na pesquisa tradicional você pode controlar os resultados. Mas a pesquisa avançou de tal forma que a ilustração mais adequada para ela é o Frankstein, monstro que, no cinema, fugiu ao controle de seu criador”, compara.O professor também considera absurda a afirmação que os transgênicos vão resolver a fome no mundo, pois os grãos sobram no mundo todo. Essa produção só não é colocada no mercado para manter os preços elevados. Há um mecanismo de controle do mercado”, conclui Paulo Rocha. Alex Ferreira
Encontrou um erro, ou quer sugerir uma notícia? Fale com o editor: [email protected]















