29 de julho, de 2008 | 00:00

Princípio da prevenção

Pesquisa traça perfil das famílias de adolescentes infratores

Polliane Torres


Fernanda acredita que a maior dificuldade encontrada pelos pais é saber a melhor forma de conduzir a educação dos filhos
IPATINGA – No período de formação da personalidade, a família tem um papel fundamental em nossas vidas. É no ambiente familiar que recebemos as referências que vão permear as nossas atitudes. Com base nesses argumentos, a psicóloga Fernanda Martins dos Santos realizou uma pesquisa junto às famílias de adolescentes em conflito com a lei para compreender de maneira mais ampla o cotidiano dessas pessoas. Intitulada “Caracterização da Organização Familiar de Adolescentes em Conflito com a Lei no Município de Ipatinga”, a monografia da psicóloga tentou traçar um perfil dessas famílias. A idéia de realizar o trabalho veio durante o estágio de Fernanda ao Centro de Referência Especializado da Assistência Social (Cras). “Lá, eu vi de perto muitas famílias com problemas de adolescentes em conflito com a lei. Daí surgiu o interesse pela família, como ela interfere no desenvolvimento do indivíduo. Além disso, é comum vermos adolescentes envolvidos em contravenção. É um mito pensar que a maioria dos crimes são cometidos por adolescentes, mas os números estão aumentando”, justificou.Com orientação da professora Eva Maria dos Reis Gomes, a psicóloga entrevistou durante três meses dez adolescentes e suas respectivas famílias do programa Medidas Sócio-Educativas, que recebe adolescentes infratores encaminhados por um juiz. Dos entrevistados, apenas uma era menina. O objetivo da pesquisa era fazer uma caracterização das famílias, mas a proposta foi além, relata a pesquisadora. “O objetivo da pesquisa era caracterizar a organização das famílias, mas extrapolou um pouco, não só caracterizou como começou a formar um perfil da família”, explicou. LimitaçõesFernanda Martins contou que teve algumas limitações, como a falta de tempo. “Fiz uma pesquisa de campo. Infelizmente não foi possível falar com pai e a mãe juntos, por falta de disponibilidade, devido ao tempo curto. Falei com eles em momentos separados”, disse. Durante a conversa com as famílias, Fernanda fez 17 perguntas. De acordo com ela, pelo menos na amostragem de dez famílias que sua pesquisa utilizou, o mito de que adolescentes em conflito estão inseridos em contexto de pobreza caiu por terra. “Esse não é o caso do grupo de adolescentes que participou da pesquisa”, revelou.Caracterização Uma das principais conclusões feitas na pesquisa é que o maior problema das famílias entrevistadas não é a desorganização, e sim a falta de instrumento para direcionar melhor a educação do filho. “Muitos pensam que o adolescente em conflito com a lei tem a família desorganizada, cheia de problemas, mas a gente viu que não. Esse estereótipo caiu por terra também. Eles têm desentendimentos em casa, mas a família está procurando ajudar o adolescente, exercendo função de proteção. No entanto, ela sente dificuldade de encontrar a maneira certa de fazer isso”, detalhou. Por outro lado, a pesquisa confirmou que a evasão escolar desses adolescentes é fato concreto. “Os adolescentes não estão estudando, 90% estão fora da escola. Para mim, chamou atenção o fato de eles pararem de estudar na 5ª ou 6ª série do ensino fundamental, exatamente na época em que ocorre a entrada na adolescência, um período conturbado, de conflito. Ele pára de estudar exatamente nessa fase. Seria interessante se as escolas observassem isso, dessem atenção a esse adolescente”, observou Fernanda.De acordo com a psicóloga, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que completou 18 anos no último dia 13, trouxe avanços, mas a família precisa de mais atenção. “O ECA foi um marco para o desenvolvimento de políticas públicas para adolescentes. Mas está faltando treinamento para os pais, alguma coisa voltada para famílias com adolescentes em conflito com a lei. Eles estão buscando alternativa, mas não sabem fazer, como reforçar comportamento bom, ou punir na hora certa. Coloco no final da pesquisa que seriam interessantes políticas públicas voltadas para a família”, esclareceu Fernanda.Estatísticas ajudam a entender adolescentesA pesquisa levantou dados que ajudam a compreender melhor o contexto em que esses adolescentes estão inseridos. Um deles é o número de membros da família. “A literatura mostra que a tendência é que as famílias tenham um número menor de filhos. Isso foi constatado na pesquisa. As famílias possuem no máximo cinco membros. Outra coisa que a pesquisa constatou foi um modelo contemporâneo de família, como o caso de uma adolescente que mora com o namorado e avós”, informou. Outro ponto levantado pelo trabalho de Fernanda foi o contexto de trabalho da família. “Constatamos que 70% das mães não trabalham e, por estarem mais presentes em casa, os adolescentes estão mais ligados afetivamente a elas. A literatura mostra que esses adolescentes infratores trabalham pouco. Mas a pesquisa revela que 30% trabalham ou já trabalharam e o restante tem muita vontade de trabalhar”, disse. Sobre violência familiar, a pesquisadora constatou que 90% dos adolescentes não têm esse tipo de problema. “Mas todos eles afirmaram que já sofreram violência extrafamiliar”, completou. Na amostragem analisada por Fernanda, 90% dos entrevistados contaram que não têm momentos de lazer. “Nem ao menos sentar-se na mesa com a família para um almoço no fim de semana. Os momentos de lazer são importantes. A felicidade do adolescente é fundamental para prevenir o comportamento reprovado. E eles têm condições financeiras para oferecer esses momentos de lazer”, explicou.Quando o assunto é comunicação entre pais e filhos, a monografia de Fernanda encontrou discrepâncias no discurso de ambas as partes. “Percebi que a maior parte do diálogo acontece quando eles têm problemas. Os pais falaram que a comunicação com o adolescente é boa, mas os filhos disseram que não dão satisfação quando estão saindo, por exemplo, dizendo para onde vão e com quem”, pontuou. Fernanda Martins pretende continuar estudando o assunto, e provavelmente irá elaborar uma tese de mestrado para se aprofundar mais no tema. “A pesquisa é importante porque começou a formar o perfil dessas famílias, que pode ser usado na prevenção de problemas. O comportamento familiar é fundamental. É na família que se dá o princípio da prevenção”, concluiu a psicóloga Fernanda Martins dos Santos.   Polliane Torres
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