22 de agosto, de 2008 | 00:00

Garotos aliviados com o término de provas

Fotos: Wôlmer Ezequiel


Apoio: Davi, Jônatas e Cléber se encontram em intervalo de provas
TIMÓTEO – Um ar de alívio estava estampado no rosto de Davi Andrade Amorim Nunes, 15 anos, que ao lado do irmão, Jônatas Andrade Amorim Nunes, 14, encerrou ontem uma série de testes determinados pela Justiça. O objetivo do rumoroso processo criminal é provar se os garotos têm ou não um bom aproveitamento no ensino em casa, adotado pela família há dois anos e meio. Davi foi o primeiro a fechar a prova de matemática. Antes da prova teórica de educação física, mostrava-se aliviado. Jônatas, um pouco mais preocupado, gastou mais tempo para responder às questões relativas ao ensino de matemática (até a 7ª série para Jônatas e 8ª série para Davi). Segundo Cléber Andrade Nunes, pai dos jovens, na prova de Jônatas caiu pelo menos uma questão de trigonometria que ele não sabia, por se tratar de matéria da 8ª série. Ao todo, foram quatro dias de provas, duas por dia. A analista educacional da 9ª Superintendência Regional de Ensino, Margarida Loures de Assis Silveira, coordenou os trabalhos do lado de fora, enquanto o professor da área de cada prova acompanhava a avaliação dos alunos em sala de sala. Os exames foram aplicados no antigo Colégio Dom Bosco, no Centro. A partir de hoje, a equipe pedagógica da 9ª SRE vai fazer a correção das provas. Acredita-se que, até segunda-feira, os resultados sejam encaminhados à Justiça em Timóteo. A pedagoga evitou comentar o conteúdo das provas, agora cercadas de expectativas em torno dos resultados. Os alunos deverão atingir acima de 60% de acertos, conforme a média dos estudantes da rede pública de ensino. DefesaConforme Cléber Andrade, as provas foram válidas porque o resultado vai determinar se há crime ou não na decisão de tirar os filhos da escola convencional. “Pelo menos temos a chance de provar tecnicamente que os meninos não estão abandonados intelectualmente”, resume. Mas o pai discorda da formulação das provas. Afirma que esperava uma avaliação dentro do modelo que sintetiza a realidade do ensino público. “Eu, sinceramente, duvido se um aluno da escola convencional se sairia bem nos testes aplicados aos meus filhos”, acrescenta. Além das disciplinas normais, os alunos tiveram que fazer relatos sobre cultura japonesa, técnicas esportivas, questões ligadas aos jogos olímpicos e pintores famosos. Cléber também lembra que, durante audiência de instrução no Fórum Geraldo Perlingeiro de Abreu, em Timóteo, ficou claro que Davi e Jônatas estudam português, informática, inglês e hebraico, mas a avaliação foi além. “Tiveram 60 dias para aprender sobre o conteúdo que cairia nas provas, com questões de matemática, história, ciências e geografia”, explica. À espera da data das provas, no fim de julho a família ainda foi surpreendida pela Superintendência Regional de Ensino, que pediu a prorrogação da data e apresentou novo conteúdo programático ampliado em mais quatro matérias. “Além disso, algumas situações não coincidiam com os assuntos que os meninos já vinham estudando. Eles tiveram que se desdobrar para assimilar esse conteúdo todo, com aulas intensivas”, explicou.

Pedagoga prevê divulgação do resultado das provas dos irmãos Nunes na semana que vem
Legislação Sobre a atuação da equipe de professores responsável pela elaboração e aplicação das provas, Cléber Andrade nega que esteja a ocorrer um “massacre”, conforme pontuou um leitor via e-mail. “Acredito que os professores sejam tão vítimas quanto nós somos de um sistema e têm que trabalhar dentro daquilo que lhes é imposto. A pressão maior vem mesmo é do Estado, que considera o aspecto da lei em detrimento da particularidade dos meus filhos”, questiona.Na discussão legal, levantada com o caso da família Nunes, Cléber lembra que a legislação fala em crime de abandono intelectual quando a família deixa a criança fora da escola. No entanto, a lei não trata do caso em que a criança vai para a escola e não aprende nada. “O crime, de fato, é não ser educado. Mas está sendo tratado como se fosse não ser escolarizado. Uma pessoa pode ser escolarizada, mas permanecer sem a educação adequada por falta de condições do ambiente”, observa.Sem arrependimentos por adotar ensino em casaCléber Andrade Nunes está convicto de que tomou o caminho certo. Não considera a possibilidade de voltar com os filhos para a escola pública e acredita que, na época do vestibular para o ensino superior, já terão aprendido a estudar sozinhos e poderão se preparar. “Não pretendo desistir e levarei essa luta até o fim”, afirmou, acrescentando que sua esposa, Bernadeth Amorim, manifesta idêntica disposição. Esse posicionamento tem razão de ser, reforçado pela aprovação dos dois jovens no vestibular da Faculdade de Direito de Ipatinga (Fadipa).   Caso venha a ser condenado no processo que responde no Juizado Especial, por abandono intelectual, Cléber já adianta que irá recorrer até à instância final do Judiciário. Também tem expectativas de que, em breve, seja aprovado um projeto de lei, em tramitação no Congresso Nacional, que legaliza o método do ensino em casa. O projeto é de autoria dos deputados Henrique Afonso (PT-AC) e Miguel Martini (PHS-MG). Se aprovado, o projeto colocará fim à polêmica da família de Timóteo e de muitas outras que lutam na Justiça pelo direito de ensinar aos filhos em casa. “Esse caso nosso fomenta um debate nacional, que reflete até na tramitação desse projeto. Espero que seja aprovado”, conclui Cléber Andrade.Alex Ferreira
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