22 de outubro, de 2008 | 00:00
Gagueira tem tratamento
Fonoaudiólogos reforçam a necessidade da prevenção
IPATINGA Além de famosos pela inteligência, descobertas científicas, talento musical ou ícones de beleza feminina, sabe o que Aristóteles, Charles Darwin, Isaac Newton, Nelson Gonçalves e Marilyn Monroe tinham em comum? Todos eram gagos. No Brasil, segundo o Instituto Brasileiro de Fluência (IBF), cerca de 1 milhão e 800 mil pessoas sofrem dessa disfunção na fala. Em todo o mundo, são cerca de 60 milhões. No intuito de combater o preconceito e ajudar no tratamento, há dez anos comemora-se, no dia 22 de outubro, o Dia Internacional de Atenção à Gagueira. Neste ano, o tema adotado pela campanha nacional é Intervenção Precoce”. Para esclarecer o assunto, o DIÁRIO DO AÇO conversou com a fonoaudióloga Renata Matos Pereira, que acumula 11 anos de experiência no atendimento a crianças e adultos. A profissional, que é mestre em Fonoaudiologia pela PUC São Paulo, ainda ministra a disciplina Distúrbios da Linguagem, no curso de Fonoaudiologia da Unipac, em Ipatinga. Segundo Renata, a literatura científica é unânime na definição de gagueira. Trata-se de um distúrbio na fluência da fala, que se caracteriza por interrupções atípicas e involuntárias no fluxo de fala, tais como repetições, hesitações, bloqueios, prolongamentos, tensões faciais e corporais.” No entanto, não existe um consenso sobre a causa da gagueira. Existem três linhas de pensamento. Estudiosos da teoria da psicogênese afirmam que o distúrbio tem um fundo emocional, em decorrência de um trauma vivido, por exemplo. Para aqueles que defendem a linha orgânica, a gagueira é causada por alguma alteração neurológica, prejudicando a temporalização da fala. Adeptos da terceira vertente, psicossocial, acreditam que o problema está ligado à imagem que o próprio sujeito tem de si, enquanto falante”, pontuou. Assim, Renata Matos ponderou que a gagueira deve ser entendida como um distúrbio que pode estar relacionado a várias origens: aspectos motores da fala, emocionais, afetivos, cognitivos e/ou lingüísticos.Tratamento precoceA profissional ainda discorreu sobre um processo pelo qual todo ser humano passa e que deve ser lidado com atenção. Trata-se da gagueira do desenvolvimento, percebida dos dois aos quatro anos de idade, quando a criança está em processo de construção da fala. Neste período, ocorre uma disfluência, que é considerada normal. São as hesitações, colocações entre as palavras, prolongamento e algumas repetições.” A questão é que nem todas as crianças passam por esta fase de uma forma tranqüila. Muitas vezes, a ansiedade excessiva dos pais, que inclusive completam palavras para o filho, prejudica a fluência da fala infantil, criando um bloqueio. Assim, a criança já cresce acreditando que é um mau falante, que não é capaz de falar direito”, alertou Renata.Ainda que esta fase tenha que ser transcorrida de forma natural, a fonoaudióloga chama a atenção para que os pais observem bem esse processo. Se, além dessas repetições e prolongamentos, a criança também apresentar outros sintomas, como por exemplo, apertar os olhos, bater os pés, apertar as mãos e se mostrar muito tensa ao falar, é hora de buscar um auxílio profissional, até mesmo antes dos quatro anos. Esse acompanhamento, além de eliminar essas disfluências, contribuirá para que a criança adquira maior confiança em si própria e se perceba como um bom falante”, reiterou Renata. Ainda segundo ela, quando a intervenção é feita na infância o sucesso é praticamente total. É exatamente por isso que é fundamental que se comece o tratamento o mais cedo possível. Quanto mais rápida for a intervenção, melhores serão os resultados. Daí também a importância da campanha deste ano sensibilizar as pessoas para o tratamento precoce, que, na verdade, de precoce não tem nada. A infância é a idade certa, porque a imagem falante da criança ainda não foi totalmente afetada”. A informação de Renata Matos também pode ser respaldada pelos dados do IBF: o início do tratamento, próximo do momento em que a criança inicia a gaguejar, permite de 98% a 100% de recuperação total. A fonoaudióloga ainda descreveu as atribuições do profissional. Ele tem competência para avaliar, fazer o diagnóstico diferencial, traçar um planejamento adequado e ajudar o paciente a eliminar a gagueira ou a falar de maneira mais suave e natural, sem tanta dificuldade, minimizando, assim, os efeitos da gagueira instalada.” E ressaltou que o sucesso do quadro da gagueira depende também da sua origem. O tempo de intervenção varia de acordo com o modo como cada pessoa lida com a situação. Mesmo adultos que já têm a gagueira podem apresentar melhoras significativas, otimizando suas relações de comunicação.” Conforme Renata, um dos principais motivos que levam adultos a recorrerem ao auxílio profissional é a inserção no mercado de trabalho. Clínica-EscolaPessoas de baixa renda podem contar com o serviço gratuito oferecido pelo curso de Fonoaudiologia da Unipac, por meio da Clínica-Escola (rua Argel, 171, Bethânia). O atendimento é disponibilizado de segunda a sexta-feira (8h às 21h), e aos sábados (8h às 18h). Mais informações: 3827-7741.Os cadastrados serão submetidos a triagem socioeconômica. Por mês, temos realizado uma média de 160 atendimentos. Os serviços são prestados por graduandos, com total supervisão e acompanhamento de professores. No local, os pacientes contam com excelente estrutura, que somada à qualidade do atendimento resulta em ótima prestação de serviços”, afirmou Flávia Guimarães Ribeiro.Homem é mais suscetível devido à pressão socialDados do IBF indicam que a gagueira incide em uma proporção de quatro homens para uma mulher. Estudiosos levantam a hipótese de que isto se deve à maior pressão social sofrida pelo homem, desde a infância. O menino já cresce com uma carga de cobrança maior, exige-se dele uma postura de chefe, líder. É como se ele não pudesse errar, a começar pela fala. A menina é educada com mais delicadeza, com menos tensões, o que contribui para que seu processo de construção da fala flua com mais naturalidade”, esclareceu Renata Matos, admitindo que o estado nervoso afeta ainda mais a gagueira.Gagos não gaguejam ao cantar, ao falar com crianças, ou ainda ao conversar com animais. Sabe por quê? Nestes últimos dois exemplos, não há um preocupação com o sujeito ouvinte, ou seja, o sujeito falante sente-se livre no processo de fluência. No caso do canto, existe uma melodia pronta. Diferentemente do falar, quando o gago apresenta uma disritmia na temporalização, no ritmo da fala, ao cantar ele não tem essa preocupação.”Landéia Ávila
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