30 de outubro, de 2008 | 00:00
Mexer-se é preciso
Consultor da OMS mostra reflexos da prática de atividade física na prevenção de doenças
Fernando Carvalho
Victor Matsudo afirma que 30 minutos de exercícios ao dia reduzem em 54% o risco de infarto do miocárdio
IPATINGA A necessidade de combater o sedentarismo no mundo contemporâneo é uma discussão que já se tornou comum em vários setores da sociedade. Várias são as ações desenvolvidas com a intenção de fazer as pessoas praticarem exercícios. Uma das iniciativas foi apresentada ontem, no encerramento da VI Jornada Acadêmica da Faculdade de Medicina do Vale do Aço (Famevaço), que começou na terça-feira (28). Trata-se do programa Agita São Paulo, que já chegou a 63 países e foi mostrado pelo coordenador da iniciativa, o ortopedista Victor Keihan Rodrigues Matsudo. O especialista em Medicina Esportiva é consultor da Organização Mundial da Saúde (OMS) para atividade física e vice-presidente do Conselho Internacional de Esporte e Educação Física, órgão ligado à Unesco. Victor Matsudo também é membro da Comissão de Nutrição Esportiva do Comitê Olímpico Internacional, entre outros cargos em organizações internacionais e nacionais. Dentro da temática da jornada Desafios em Saúde Cardiovascular”, Matsudo ministrou a divertida palestra Atividade Física e Saúde Cardiovascular”, no teatro do Usicultura. Com muito bom humor, o especialista mostrou uma série de dados científicos que comprovam a eficiência do método pregado pelo Programa Agita. A iniciativa parte da premissa que 30 minutos de atividade física moderada por dia evitam o desenvolvimento de doenças. O diferencial é que, conforme comprovam alguns estudos, esse tempo de exercício pode ser dividido em duas ou três partes ao longo do dia. Pesquisas mostram que quem faz atividade física regular reduz 54% do risco de infarto do miocárdio, 50% de derrame cerebral e 37% de câncer. Qual remédio faz isso? Nenhum. A maior desculpa para não fazer exercício é não ter tempo. O Agita trouxe um conceito novo cientificamente comprovado, de que tanto faz você fazer os 30 minutos de uma só vez ou dividi-lo. O efeito é o mesmo. Nenhum de nós, em uma sociedade cada vez mais louca, tem uma hora por dia para fazer atividade física, mas falar que não tem espaços de 10 minutos não é verdade”, explicou Matsudo.SocialA idéia defendida pelo programa é promover o acesso à atividade física. A responsabilidade social de um governo é fazer com que toda a população seja atendida. Levamos uma mensagem de inclusão. Por exemplo, quem for fazer exercício intenso tem que passar pelo teste ergométrico, o que não é necessário no exercício moderado. O risco desse tipo de atividade é praticamente zero. Nós, da OMS, incentivamos a que todos acumulem pelo menos 30 minutos”, destacou. O ortopedista ressaltou a necessidade de a rede pública de saúde priorizar a prevenção de doenças. Para ele, uma mudança de postura nesse sentido traria economia. 70% do dinheiro gasto em saúde seria economizado se nós fôssemos mais ativos, comêssemos melhor e não fumássemos. Não adianta construir mais hospitais e dar mais remédio para a população, como os políticos prometeram nessas eleições. Isso é um bom programa de doença e não de saúde. Dar remédio e internação é tratar de quem não teve saúde”, frisou.Para se ter uma idéia dos efeitos positivos econômicos de iniciativas como essa, o Banco Mundial fez um balanço para comprovar sua eficácia. Segundo o Banco, cada R$ 1 aplicado no programa em São Paulo equivale a R$2 de retorno, o que leva o Estado a economizar hoje U$310 milhões por ano no setor de saúde, porque pessoas passaram a ser mais ativas. Foram dois anos de estudo, todos publicados no site”, informou Matsudo.Alternativa Um dos pontos destacados por Victor Matsudo na palestra foi a criação da terceira porta” na rede pública de saúde. Segundo ele, essa seria uma alternativa criada dentro do atendimento público para oferecer qualidade de vida para as pessoas. O objetivo é ir além de receituários. As evidências científicas que temos no momento garantem que as autoridades de saúde se unam para criar a terceira porta. Ela consiste em não nos acostumarmos com determinismo farmacológico, como se tudo que a medicina pudesse oferecer para a sociedade fosse dar um remédio ou cirurgia. Não sou contra isso, acho que até é legitimo, mas não sei se é correto”, detalhou Matsudo. De acordo com ele, o projeto sugere que postos de saúde tenham um espaço para a prática de exercício físicos e profissionais que busquem caminhos paralelos aos tradicionais. Defendemos que o posto tenha médico para operar e dar remédio se precisar, mas ter também um profissional para dizer que o paciente não vai tomar remédio, e sim entrar pela terceira porta, que é a da saúde. É um equívoco o Estado dar solução para doença e pensar que a saúde é problema de cada um”, salientou.Uma das alternativas apontadas pelo coordenador do programa é, por exemplo, a construção de pistas de caminhada ao redor dos postos de saúde. Ele informou que as idéias estão sendo colocadas em prática por duas cidades do interior paulista: Santana do Parnaíba e Sorocaba. É mais fácil construirmos saúde do que correr atrás do prejuízo da doença. O modelo que o mundo pratica está pagando a conta da doença. Gasta-se dinheiro, mas os doentes continuam chegando. A prática de exercícios também vai ajudar os que estão doentes a diminuírem o número de remédios consumidos e até evitar uma futura cirurgia. Quis compartilhar essa visão com os futuros profissionais de saúde para que eles cheguem na área com uma visão bem diferente”, finalizou Matsudo.Polliane Torres
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