02 de novembro, de 2008 | 00:00
Mamãe Noel moderna
Empresária entrega doações há 16 natais para pessoas carentes da região
IPATINGA Faltam 52 dias para o Natal. Muitos acham que a data comemorativa ainda está longe. Mas para a empresária Regina Célia Rolla Guerra o prazo é curto. É que todo o dia 24 de dezembro, véspera de Natal, ela se transforma em Mamãe Noel. Há 16 anos ela incorpora a personagem com a intenção de levar encantamento e alegria àqueles que passam o dia em branco”. Todo ano, no lugar do trenó, a Mamãe Noel moderna embarca em seu carro abarrotado de presentes e alimentos para distribuí-los aos menos favorecidos. Em entrevista ao DIÁRIO DO AÇO, a Mamãe Noel ipatinguense falou sobre essa linda história de solidariedade. Atualmente, Regina entrega mais de mil presentes entre brinquedos, alimentos, roupas e sapatos na periferia de Ipatinga e redondezas. Seu roteiro é definido pelo coração. Entro no carro e circulo pela cidade. Onde sinto necessidade de parar, desço do carro e faço a distribuição. Sempre vou sozinha e nada me aconteceu nesses anos, mesmo transitando na periferia de madrugada”, relatou. Mas essa história começou sem querer. Há 16 anos, uma amiga de Regina ligou para ela dizendo que seu patrão precisava de uma mulher para se vestir de Mamãe Noel e fazer a entrega de presentes para os seus funcionários na noite do dia 24. Regina titubeou, mas ao ouvir as palavras dos pais - doe um pouco de você” -, ela ligou para a amiga aceitando o convite. Então, o patrão da amiga mandou fazer a roupa característica pela qual Regina se apaixonou. Naquela noite eu fui pega de surpresa pelo brilho nos olhares das crianças, adolescentes, adultos e idosos que visitei. O maior desafio foi ter na ponta da língua respostas para os questionamentos das crianças e não quebrar o encanto delas com a figura natalina”, contou. Legado Depois da experiência, Regina disse à sua amiga que não aceitaria o pagamento pelo trabalho. O patrão da amiga insistiu e ela aceitou. Mas ele não me pagou, e me ligava pedindo a roupa de volta. Então eu dizia que só devolveria o traje se ele me pagasse. Resultado: ele não me pagou e eu fiquei com a roupa”, lembrou. A vestimenta só foi trocada no ano passado, quando a mãe de Regina, Maria Eunice Braga Rolla Guerra, confeccionou outra. Além da roupa, Regina ficou também com o legado de continuar fazendo a alegria de crianças e adultos no Natal. No ano seguinte, ela fez o trabalho por conta própria, sempre com o apoio da mãe e do pai, Marcos José Andrade Guerra. Comecei a comprar os presentes sozinha, e com o passar dos anos os vizinhos e amigos começaram a ajudar. Depois, tive abertura da Igreja Católica do Horto e as doações aumentaram muito”, disse. Regina falou que também recebe dinheiro e utiliza-o para comprar presentes em uma distribuidora de R$1,99 em Belo Horizonte.A campanha de Regina começa em agosto. Os donativos são depositados em um quarto de sua casa, que fica lotado todos os anos. Esquecimento O único ano em que Regina Célia não se mobilizou para o recolhimento de donativos foi 2005. Mas, providencialmente, os presentes chegaram. Eu estava tão envolvida com os negócios que não tive tempo de me organizar. Quando chegou o dia 22 e vi o quarto vazio, chorei muito e pedi a Deus que me ajudasse. Foram chegando coisas e, no dia 24, o quarto estava cheio. Deus não deixou que faltasse nada e eu pude fazer a entrega naquele ano”, comentou. Pontos fixos Além de fazer entregas aleatoriamente nas cidades, Mamãe Noel tem pontos fixos como a Cidade do Menor e o Lar dos Velhos Paulo de Tarso. Ela revelou que, nesses lugares também, viveu experiências inesquecíveis. Uma delas foi na Cidade do Menor. Cheguei lá com os brinquedos e dei ao menino menor o carrinho maior que tinha na sacola. Ele recusou e pediu pra escolher outro. Deixei. E, para minha surpresa, ele pegou o carrinho menor e mais simples. Ele ficou tão feliz que me deu uma lição de vida”, relembrou. Anos depois, Regina encontrou-se com o mesmo garoto, que cresceu e agora trabalha. Ele disse que nunca esqueceu aquele momento. Fiquei muito emocionada”, destacou. No Lar Paulo de Tarso as emoções foi muitas também, como realizar o sonho de idosa que nunca havia ganhado uma boneca.Perda O único Natal em que Regina não saiu para distribuir presentes foi em 1998, por causa da morte do seu pai. Na noite do dia 24 daquele ano eu fiquei angustiada e sem vontade de sair. Segui o conselho de minha mãe e não fui. No dia 25 acordei triste e, quando vi a roupa, tive vontade de rasgá-la. Tive que pedir à minha mãe para escondê-la. À tarde, o meu pai faleceu. Então, eu distribui os presentes só no ano seguinte”, lembrou. Emoção à flor da peleAo recordar momentos emocionantes, Regina fez questão de destacar que, além dos brinquedos fazerem a alegria das crianças, a comida às vezes é o maior presente dos pais. Um episódio deste aconteceu no Natal de 2006, no Cocais, em Coronel Fabriciano. Naquele ano, um presente sofisticado endereçado a seu sobrinho acabou se misturando aos donativos. Quando cheguei ao Cocais eu vi um barraco feito de papelão e parei. Na fila estavam uma criança e sua mãe. O garoto acabou ficando com o presente do meu sobrinho, e à mãe entreguei uma cesta básica. Ela chorou e me agradeceu, dizendo que acordou triste porque no armário não tinha nada para comer naquele Natal. Ela disse que pediu ajuda divina e eu cheguei lá. Foi muito emocionante”, contou.Perguntada sobre como consegue se conter perante momentos de tanta emoção, Regina disse: Quando eu entro no carro choro até soluçar e, depois de me recompor, sigo para a próxima parada”. A Mamãe Noel falou que todas as vezes que faz esse trabalho se sente leve em poder fazer o bem, mas ao mesmo tempo tem a sensação de não ter feito nada”. A empresária contou que não consegue mais ficar sem fazer isso. Tenho um compromisso com essas crianças. Não consigo parar. Muitos se preocupam com o fato de eu ir a lugares perigosos, mas não tenho medo. O encanto do vermelho e branco desmancha qualquer ser humano”, declarou. Arrecadação Regina já começou a receber doações. Ela contou que, antes de colocá-las no seu carro-trenó, é feito um intenso trabalho para deixar os presentes no ponto. Recebo coisas usadas, mas se não estiverem em boas condições eu jogo fora. Os que podem ser aproveitados são recuperados pela minha mãe. Separamos coisas para meninos e meninas, bebê e adulto, fora os alimentos, bala, pipoca, entre outras coisas que recebemos. No ano passado foram 2 mil donativos”, detalhou. Para aumentar o alcance do seu trabalho, Regina montou uma comunidade no site de relacionamentos orkut em 2006. Com o título Eu Apoio a Mamãe Noel”, a comunidade possui 37 membros e ajuda a divulgar o trabalho de Regina, além de ter fotos de alguns de seus emocionantes encontros. Ela disse que já lhe sugeriram montar uma ONG, mas ela não quis. Prefiro deixar do jeito que está”, comentou. Para ajudar a Mamãe Noel basta ligar para os telefones: 8812-5404 / 3824-6100. Se necessário, os donativos são buscados na casa do doador. Polliane Torres
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