23 de novembro, de 2008 | 00:00
Células-tronco em questão
Pesquisadoras da UFMG falam sobre pesquisas envolvendo o tema
IPATINGA O uso de células-tronco embrionárias em pesquisas científicas para auxiliar em tratamentos ainda causa muitas dúvidas. Mesmo depois de o Supremo Tribunal Federal (STF) disciplinar o uso das células-mãe, o assunto suscita questionamentos. Para debater o tema, a Unipac Vale do Aço realizou na quinta-feira, 20, o seminário Células-Tronco Embrionárias: Limites ou Possibilidades”, com a presença de duas importantes biólogas mineiras. A doutoranda no Departamento de Imunologia e Bioquímica da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Natália Breyner, ministrou a palestra que intitula o encontro. Já a doutoranda pelo mesmo departamento, Fernanda de Souza Lopes, falou sobre As raças humanas e as raízes ancestrais do povo brasileiro”.Natália Breyner trabalha com células-tronco adultas, retiradas do organismo de uma criança até adultos de 65 anos. Ela disse que a pesquisa experimental é desenvolvida com ratos. O trabalho pretende implantar a célula-tronco em cartilagem que não se regenera”, explicou. Sobre as pesquisas com células embrionárias, Natália explicou que a polêmica é gerada pelo embate entre duas correntes científicas. A primeira acredita que as células-tronco servem para tratamento de terapia celular porque é capaz de se diferenciar em qualquer tipo de célula, regenerando o tecido lesionado. Essa mesma corrente fala que essas células não seriam rejeitadas. A outra corrente fala que, a partir do momento em que a célula começa a se diferenciar pela característica genética do indivíduo de quem foi retirada, aumenta a probabilidade de rejeição do tecido submetido ao implante. Ainda não se chegou a um consenso. Esse é o ponto X da questão”, avaliou Natália. A pesquisadora exemplificou o caso de sucesso noticiado na mídia, da mulher que recebeu o transplante uma traquéia feita das suas próprias células-tronco, na Espanha. Nesse sentido, Natália Breyer acredita que as células-tronco têm um potencial muito grande. Os estudos com células embrionárias vão nos mostrar vários caminhos de diferenciação. Se realmente houver rejeição, serão indicadas pelo menos várias possibilidades. Acho que são novas esperanças para daqui dez anos no mundo. No Brasil, vai demorar mais porque demoramos a liberar os estudos”, declarou. Embriões A resistência de uma parte da população em relação a esse assunto é em razão da falta de informações sobre como se dará o processo de captação das células-tronco embrionárias. Muitos relacionam esse procedimento ao aborto, o que é completamente errado, de acordo com Natália. O embrião usado para estudo clínico é aquele que foi fertilizado artificialmente, mas não foi gerado. Ele fica guardado por mais de três anos. Passado esse período, ele está inviabilizado de se tornar um ser vivo. O aborto é quando você interrompe uma gestação. Não será usado embrião implantado dentro do útero para pesquisas”, esclareceu.Ainda de acordo com Natália, no processo de fertilização artificial a mulher libera dez óvulos e é impossível implantar todos e esperar que eles se desenvolvam. Primeiro eles implantam três e depois mais três. Nesse caso, por exemplo, sobram quatro. Para manter esses embriões na clínica os pais devem pagar por ano entre R$ 500 e R$ 1 mil, fora outras taxas. Durante três anos o embrião ainda é adequado para a tentativa de gestação. Depois disso, fica inviável. Então, o que vai ser feito com ele? Mantê-lo na clínica para nunca ser usado, ou utilizá-lo para pesquisa?”, questiona. Ancestralidade biológica Para marcar o Dia da Consciência Negra, celebrado na quinta-feira, 20, Fernanda de Souza ministrou a palestra As raças humanas e as raízes ancestrais do povo brasileiro”. Na oportunidade, ela mostrou seu estudo das raízes ancestrais da população brasileira nos últimos dez anos. Estudo como o genoma da população está estruturado. O conceito de raça biologicamente já caiu há tempo. Estamos tentando combater esse conceito em âmbito social com a biologia. Isso foi uma criação da mente humana e levou ao racismo, por exemplo”, informou. Fernanda contou que as raízes ancestrais do brasileiro são africanas, nativas e européias. Uma coisa interessante que constatamos é que, por ser muito miscigenada, a cor da pele do brasileiro não corresponde a sua genômica real. Por exemplo, um indivíduo com cor preta nem sempre vai ter alta porcentagem de ancestralidade africana. Não dá pra classificar ninguém com base na cor da pele. Cada brasileiro tem que ser tratado como um indivíduo único com sua história de vida. O genoma de cada um é único”, enfatiza a bióloga. Polliane Torres
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