18 de janeiro, de 2009 | 00:00
Crise em tempos de crise
Sindicalistas apontam soluções para governo e empresas enfrentarem as demissões
Fotos: Nivaldo Resende
Geraldino defende aumento de 5 para 10 as cotas de pagamento do seguro-desemprego
IPATINGA A crise econômica mundial se instalou de vez no Brasil. Em dezembro passado, o número de demissões no mercado de trabalho chegou a 600 mil. A crise, que começou no mercado imobiliário norte-americano, se alastra como um rastilho de pólvora.Muitas empresas optaram pela via mais fácil: demitir. Outras fizeram acordos com os sindicatos para manter os empregados em casa. Outras colocaram os trabalhadores em férias coletivas. O movimento sindical busca alternativas para que o problema não estoure só do lado mais fraco.Aproveitando as eleições sindicais em Ipatinga, com a presença na cidade de lideranças sindicais de peso no cenário nacional, a reportagem do DIÁRIO DO AÇO ouviu o que alguns deles têm a dizer sobre o problema.Remédio amargoGeraldino dos Santos Silva, diretor do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo e secretário de relações sindicais da Força Sindical, lembrou que o presidente Lula anunciou um pacote de ajuda às instituições financeiras, empresas do setor de construção civil e setor automobilístico. Ele considera inadmissível” que o governo federal coloque linhas de crédito à disposição das empresas sem garantia de que elas venham a manter os postos de trabalho.O ministro Carlos Lupi (do Trabalho) levantou a discussão, disse que o governo só deveria dar dinheiro às empresas com a contrapartida de que elas não demitissem, um fato para o qual as centrais sindicais vinham alertando há mais de três meses”, diz o sindicalista. De acordo com Geraldino, o mês de janeiro deverá ser o auge da crise, momento em que será preciso que o governo ponha um freio nas demissões. É a velha história de que, para o doente, só vale o remédio amargo, efeito perverso do capitalismo selvagem que se pratica no país, onde são sempre os trabalhadores que pagam as contas, jamais os patrões”, critica.JurosPara Geraldino, o governo poderia tomar atitudes simples”, como aumentar as cotas do seguro-desemprego de 5 para 10 parcelas. Conforme o sindicalista paulista, as centrais sindicais lutam para que não haja demissões, mas têm também outras propostas. O Comitê de Política Monetária (Copom) se reunirá na quarta-feira (21) e nós queremos que ele reduza as taxas de juros em pelo menos dois pontos percentuais. E mais, lutamos para que os juros no Brasil sejam semelhantes aos praticados no Chile, Argentina e México, que ficam na casa dos 6% ao ano”, afirma o dirigente.Geraldino Silva disse ainda que as centrais, confederações, federações e sindicatos estão buscando diálogo com o setor patronal para evitar as demissões. Na sua opinião, a criação de Bancos de Horas, a adoção de Férias Coletivas e os Planos de Demissão Voluntária ou Incentivada poderiam reduzir o problema. Cada sindicato tem que discutir com as empresas em sua base. O fato é que nós, da Força Sindical, não aceitamos decisões tomadas de cima pra baixo, do governo ou dos patrões, e queremos discutir todas as situações”, concluiu Geraldino.
Clementino Vieira, da CNTM: críticas ao governo e aos empresários
Paranaense propõe linhas de crédito para o povãoO sindicalista Clementino Tomáz Vieira, presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores Metalúrgicos (CNTM) e secretário-geral do Sindicato dos Metalúrgicos de Curitiba (PR), acredita que, diante da crise global, o governo federal tem três caminhos: redução da taxa de juros, incentivo ao setor de linha branca (eletrodomésticos) e renovação da frota de veículos com mais de 10 anos de fabricação.Em vez de dar dinheiro às empresas, o governo deveria baixar as taxas de juros e adotar linhas de crédito especiais para os trabalhadores, por meio das quais eles pudessem trocar suas máquinas de lavar roupa, geladeiras e fornos de micro-ondas por outros novos, que consumam menos energia, e para comprar carros novos. Isso economizaria energia e reduziria o consumo de combustíveis, coisas de que o país precisa”, lista.FériasClementino lembra que a redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) já ajudou, mas não foi suficiente. Em tempos de crise, medidas audazes e práticas são fundamentais”, insiste.A CNTM, assim como as demais confederações, federações e centrais sindicais, quer discutir com as empresas questões que considera importantes, como férias coletivas, férias individuais, licenças remuneradas, a eventual suspensão dos contratos de trabalho e a redução da jornada de trabalho.Nós fizemos um acordo com a Renault de São José dos Pinhais, por exemplo, em que os trabalhadores foram colocados cinco meses em casa sem trabalhar, recebem o seguro-desemprego e a empresa complementa a diferença de salário, e não perdemos nenhum posto de trabalho. Foi bom para a empresa e garantiu a tranquilidade dos trabalhadores”, exemplifica o sindicalista.Se no ano passado o movimento sindical lutou pela recomposição da renda dos trabalhadores, conforme Clementino, 2009 será o ano de garantir os postos de emprego”. Ele avalia que antes a crise era de crédito, mas agora a situação é de crise econômica, uma crise que muitos avaliam que não deverá ultrapassar a metade do ano”.
Para Magri, o setor metalúrgico é o mais atingido pela crise
Prontos para a lutaEx-ministro do Trabalho, ex-presidente do Sindicato dos Eletricitários de São Paulo e hoje assessor da Força Sindical, Antônio Rogério Magri considera que, de uma maneira geral, o sindicalismo brasileiro está amadurecido para enfrentar a crise global, uma vez que tem centrais sindicais, confederações, federações e sindicatos reconhecidos e bem preparados.Mas, segundo Magri, a primeira linha de combate é localizada. São os sindicatos, em suas bases, que têm de travar a primeira luta para barrar as demissões provocadas pela crise econômica”, conclamou.O ex-ministro lembra que o papel das centrais, confederações e federações é mobilizar, orientar, disponibilizar assessoria política, econômica e jurídica para que os sindicatos tenham munição para enfrentar o patronato em igualdade de condições. No caso da Força Sindical, fizemos uma reunião na última segunda-feira (12), com confederações, federações e sindicatos, para buscar um consenso dentro de uma visão democrática, porque sabemos que as decisões têm que ser tomadas com rapidez diante da crise”, concluiu Magri.Nivaldo Resende
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