15 de março, de 2009 | 00:00
Dificuldade de aceitação
Medicamentos genéricos enfrentam preconceitos, mesmo após dez anos de mercado
IPATINGA Há um ano e meio, a pensionista Adalgisa Fernandes Gonçalves trocou o remédio de marca que usava para tratar sua hipertensão pelo genérico. A mudança rendeu a ela a economia mensal de R$ 13,80, sem afetar o benefício à saúde. Pra gente que já ganha pouco, diminuir o gasto com remédio ajuda muito. Assim sobra dinheiro para outras coisas”, declarou a pensionista.Adalgisa Fernandes compra os remédios na Farmácia Popular de Ipatinga todo mês. Mas apesar da vantagem financeira, muitas pessoas ainda têm preconceito em relação ao medicamento, mesmo após uma década da instituição da Lei 9.787 que estabelece a comercialização do genérico.No Brasil, o medicamento genérico ocupa 18% do mercado farmacêutico. Por lei, o custo ao consumidor deve ser 35% menor que o do produto de marca. Dados da Associação Brasileira das Indústrias de Medicamentos Genéricos (Pró-Genéricos) mostram que as variações de preço no mercado farmacêutico nos últimos dez anos trouxeram economia de aproximadamente R$ 10,5 bilhões.Uma pesquisa encomendada pelo Sindicato dos Farmacêuticos de Minas Gerais ouviu 1.217 pessoas em Belo Horizonte sobre o assunto e o resultado apontou que 58,7% dos entrevistados optam pelos medicamentos de referência, enquanto apenas 20,4% preferem os genéricos. Na região, a situação é semelhante, conforme a farmacêutica gerente da Farmácia Popular de Ipatinga, Gizele Souza Silva. A farmácia, inaugurada em outubro de 2006, faz atualmente cerca de 2.500 atendimentos mensais. No primeiro mês de funcionamento, tivemos 1.400 atendimentos. Infelizmente a população ainda é mal esclarecida sobre o assunto”, lamentou.ConceitosDe acordo com Gizele Silva, a raiz do problema está na falta de informação sobre os conceitos de medicação referência, genérica e similar. Por causa disso muitos ainda questionam se o remédio vai fazer efeito ou não. Depois que usa, a pessoa não questiona mais”, comentou. Segundo a farmacêutica, os medicamentos de marca têm eficácia comprovada por meio de estudos científicos registrados no Ministério da Saúde. Já o genérico surgiu diante da quebra da lei da patente. Então as empresas copiam a mesma fórmula farmacêutica e concentração. Os genéricos têm estudos que comprovam a mesma bioequivalência, que é a função terapêutica”, explicou a gerente.Ainda de acordo com Gizele Souza, o similar também possui a mesma fórmula. No entanto, não possui estudos científicos concluídos que garantam o mesmo efeito. Mas eles são registrados na Anvisa, o que comprova sua qualidade”, completou a farmacêutica.ContatoPara comprar remédios na Farmácia Popular basta o interessado apresentar a receita médica, exceto nos casos de remédios tarja preta”, cuja venda exige documentos de identificação e comprovante de endereço. A farmácia funciona em frente ao terminal rodoviário, no Centro, de segunda a sexta-feira, das 8h às 18h, e aos sábados das 8h às 12h. O telefone de contato é 3829-8600. Prescrição de fórmula ajuda poder de escolhaA Lei 9.787, de 10 de fevereiro de 1999, orienta os médicos a colocarem no receituário a fórmula do remédio para dar ao paciente o poder de escolha na hora da compra. Mas a pesquisa do Sindicato dos Farmacêuticos de Minas Gerais constatou que na maioria dos receituários médicos consta apenas o nome do medicamento de marca e não do princípio ativo. Segundo a pesquisa, uma pequena parcela dos profissionais médicos entrevistados afirma receitar o princípio ativo, com frequência. Na opinião do obstetra da rede pública de saúde em Ipatinga e professor da Famevaço (Faculdade de Medicina do Vale do Aço) Marcus Vinícius Rodrigues, essa realidade está mudando. Em minha rotina de trabalho, prescrevo a fórmula para evitar induzir o paciente a procurar pelo nome comercial. Assim, ele tem chance de escolher a opção mais econômica. Esse tipo de conduta está se tornando mais comum e vai melhorar com a nova geração de médicos”, declarou Marcus Vinícius.Balconistas confiam e recomendam genéricosAinda conforme a pesquisa feita em Minas Gerais pelo Sindicato dos Farmacêuticos, 95,4% dos balconistas de farmácias privadas ouvidos confiam nos genéricos, mas somente 48,9% têm o hábito de oferecê-los aos clientes com frequência. Mas para o dono de uma farmácia de Ipatinga, Vanderley José Soares, na região essa realidade é diferente. Além de oferecermos o medicamento, a população está mais ativa e sempre pergunta se não temos um genérico ou outra opção mais em conta. Foi-se o tempo em que a pessoa procurava apenas a marca. Tem produto que fica um terço mais barato. No meu estabelecimento, os genéricos correspondem a 90% da venda”, frisou Vanderley Soares, que está no ramo há 19 anos. Para ele, a Lei dos Genéricos é uma conquista dos brasileiros. Antigamente, as pessoas eram escravas das marcas. Hoje, você compra o que é mais conveniente, sem perder o resultado do tratamento. O efeito do genérico é o mesmo, a única diferença está no bolso”, pontuou o empresário. Em breve, versão contra impotência sexual e asmaPara o diretor-presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Dirceu Raposo, os fabricantes de genéricos sobrevivem do vencimento de patentes dos medicamentos de referência. Ele informou que, para os próximos anos, a previsão é que novos produtos entrem no mercado farmacêutico brasileiro. Os destaques, entre eles, são a versão genérica do Viagra e de medicamentos para o sistema nervoso central. Doenças respiratórias, como a asma, também serão os próximos alvos dos genéricos.Entretanto, apesar das boas perspectivas, um dos maiores entraves para o avanço dos genéricos é o fato de a fabricação dos medicamentos ainda depender da importação de 80% das matérias-primas. Essa dependência representa risco para a indústria farmacêutica brasileira, admite a Anvisa.
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