16 de março, de 2010 | 22:06
Achei que iria morrer”
Mulher quer reparação de danos provocados por erro em exame do HIV em Ipatinga
Última atualização em 18/03/2010 às 09h03
IPATINGA Uma empregada doméstica, de 44 anos, moradora do bairro Vila Celeste, vai buscar na Justiça a reparação dos danos morais que sofreu após ter, em mãos, o resultado de exames do vírus da Aids (HIV) que a apontaram como soropositiva.
Tudo começou em junho de 2009, quando a mulher, que pediu para ser identificada apenas pelas iniciais do nome, L.Q.L, ao realizar um exame preventivo ginecológico em uma unidade de saúde, foi encaminhada para fazer o exame do HIV, depois de informar que seu marido mantinha um caso extraconjugal.
O sangue para o exame foi colhido no Pronto Socorro Municipal e a análise dos reagentes deu positiva pelo método Elisa. Como é praxe nesta circunstância, o exame foi repetido no laboratório do Hospital Márcio Cunha, com resultado também positivo em 24/06/2009, pelo método MEIA ABBOTT.
A partir daí começava um período de transtornos para L.Q. Sem poder contar para as suas filhas que era soropositiva, a mulher disse que viveu um pesadelo. Lia até três vezes por dia o manual que o pessoal da Unidade de Saúde dá aos soropositivos, em que estão orientações aos pacientes de Aids”, relatou.
L.Q. também disse que não conseguia dormir e, por efeito da pressão que viveu, emagreceu 12 quilos, o que só aumentou seu tormento por entender que estava sob efeito da Aids. A mulher confessa que chegou a pensar em matar o seu marido, de quem suspeitava ter adquirido o vírus, e depois se matar. Temia a vergonha dessa situação quando as meninas descobrissem tudo. Via uma situação insuportável”, afirmou.
Por acreditar que iria mesmo morrer, L. Q. contratou um plano funerário em setembro passado e até hoje paga a mensalidade, no valor de R$ 20. Pagou esta semana uma das últimas parcelas, mas já admite cancelar o plano.
Reviravolta
Encaminhada para acompanhamento por um infectologista na rede municipal, a paciente não apresentava os sinais do efeito do vírus HIV no organismo, pois se manteve com o sistema imunológico em condições normais, o que não ocorre com os soropositivos. Os exames não apontavam, por exemplo, a incidência de doenças oportunistas, comuns aos portadores da HIV, como a tuberculose.
Em setembro de 2009, em um intervalo de 15 dias, o exame foi repetido em outros dois laboratórios particulares e, em ambos os casos, os resultados apresentados foram negativos. Somente então L.Q. contou o caso para as filhas. A paciente agora vai buscar, na Justiça, a reparação dos danos que alega ter sofrido.
Passados nove meses desde que recebeu o exame com o resultado positivo e seis desde que outros exames mostraram resultados contrários, L.Q. disse não ter certeza de nada. Pretendo até fazer novos exames”, admitiu.
Sobre quando esperava ver tudo acabado e sua vida normal de volta, a mulher ficou em silêncio por um tempo e concluiu: Não sei, mas terei que buscar força para isso”.
Advogado suspeita de troca de exame
O advogado Fernane Rodrigues Corrêa afirma que falta apurar responsabilidades no caso. Para isso, vai acionar judicialmente o município de Ipatinga e o Hospital Márcio Cunha, para que sejam apuradas as responsabilidades no caso. A paciente precisa ser indenizada pelos danos morais sofridos e os gastos, por exemplo, com o plano funerário contratado, pois chegou a acreditar que iria morrer”, explica.
O mais preocupante, afirma o advogado, é que outra pessoa pode estar em circulação pelas ruas de Ipatinga com o vírus da Aids e com um exame feito no sangue de sua cliente. A hipótese da troca de material não pode ser descartada. Os indícios aqui nos mostram que pode ter havido troca de material”, insiste.
Esse não seria o primeiro caso na comarca de Ipatinga. Em março de 2008, a 16ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça de Minas Gerais reformou sentença da primeira instância e reconheceu o direito de uma paciente, em caso idêntico ao de L.Q, a uma indenização de R$ 20 mil, por ter recebido resultado de exame do HIV, também improcedente.
Administração
descarta erro
Em nota, a administração municipal de Ipatinga informa que o teste Elisa, para detecção do vírus HIV, segue os padrões do Ministério da Saúde.
Segundo a nota, a técnica é amplamente utilizada como teste inicial para detecção de anticorpos contra o HIV no sangue do paciente. Após uma sequência de etapas, em que são adicionados diferentes tipos de reagentes, o resultado é fornecido por meio de leitura óptica. Se a amostra apresenta resultado positivo é necessária a realização de testes adicionais ou confirmatórios.
Segundo a nota, no caso da paciente L.Q, com a confirmação no primeiro exame, a mulher foi submetida a um exame mais específico na Funed, em Belo Horizonte, em que o resultado deu negativo. Com a realização deste segundo exame a paciente não foi iniciada no tratamento de Aids.
Para a administração municipal, não houve erro na entrega do exame” e também descarta a possibilidade de troca de material.
A nota acrescenta que, de acordo com o Ministério da Saúde, resultados falso-positivos decorrem de problemas técnicos ou alterações biológicas no indivíduo que determinam reatividade, independente da condição investigada. Os de origem técnica são: contaminação de ponteiras ou da reação por soro vizinhos fortemente positivos, ciclo repetidos de congelamento e descongelamento, entre outros.
Como causas biológicas de resultados falso-positivos, são entre outras semelhanças antigênicas entre microrganismos, doenças auto-imunes, infecções por outros vírus, uso de drogas endovenosas, aquisição passiva de anticorpos anti-HIV. Nem todas as reações falso-positivas têm causa definida ou podem ser evitadas.
HMC descarta erro em exame feito em seu laboratório
Já no Hospital Márcio Cunha, onde houve a revisão do exame da paciente L. Q. e foi confirmado o resultado positivo para o HIV, a assessoria de imprensa informou que o método utilizado prevê uma margem de erro, o que resguarda a instituição.
Nota enviada pela instituição hospitalar confirma que prestou serviços ao Laboratório Público da Secretaria Municipal de Saúde de Ipatinga, no caso da paciente L.Q, realizando um exame de triagem, não indicado para definição de diagnósticos (Elisa).
A nota explica que os testes Elisa (EIA) são mais sensíveis à detecção de anticorpos, sendo mais susceptíveis a apresentar resultados falsopositivos. "Essa é a razão pela qual a Portaria nº 59/ GM/MS, de 28 de janeiro de 2003, determina a realização de todos os testes confirmatórios para a comprovação do diagnóstico. Os testes confirmatórios utilizados são: Imunofluorescência indireta, Imunoblot e Western blot", diz a nota do HMC.
"O Hospital Márcio Cunha constata que não houve erro na realização do exame e descarta a possibilidade de troca de material", conclui a nota.
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