17 de abril, de 2010 | 16:50

Memória e concentração

Não há fórmulas milagrosas para o cérebro ativo, mas especialistas destacam que ficar na frente da TV não é o melhor para a boa memória.

Divulgação


LEITURA

IPATINGA – Todos os dias, o especialista em neurocirurgia e cirurgia da coluna do Hospital Márcio Cunha (HMC) Fabrício Rosa de Sá recebe em seu consultório pelo menos um paciente que se queixa de episódios de esquecimento, o popular “deu branco”. “Os pacientes relatam que não sabem onde deixaram as chaves de casa, o que viram durante o trajeto até o trabalho ou que não se lembram o que comeram durante o dia”, revela o médico.
Estas pessoas, segundo o especialista, não estão perdendo a memória. Elas sofrem de falta de capacidade de armazenar informações. “Mais de 90% destes pacientes não têm nenhuma patologia de perda de memória recente, como a demência vascular, a doença de Alzheimer, entre outras. Geralmente, estes pacientes são muitos ansiosos, estressados ou não têm o que fazer, o que leva à falta de concentração e de atenção”, resume Fabrício.  
Outros pacientes chegam ao consultório com um autodiagnóstico de Transtorno de Deficit de Atenção (TDA). “Pacientes com TDA têm sintomas muito típicos: são agitados a ponto de não conseguirem olhar nos seus olhos, não são capazes de ler um livro nem de ficar em frente à TV. É diferente de quem passa horas assistindo às novelas, mas não consegue ler meia página de um texto”, compara o médico.
Casos de Transtorno de Deficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) são mais comuns em pacientes pediátricos, de acordo com o neurologista clínico, também do HMC, Leonardo Campos. “As mães, acompanhadas das crianças, me relatam que professores apontaram dificuldade de aprendizado do filho. Entre os pacientes adultos que recebo, com mais de 30 ou 40 anos, a falta de atenção de que se queixam está relacionada a transtornos de humor e de ansiedade”, revela Leonardo.

Por dentro do cérebro
Antes de apontar as possíveis causas da deficiência de atenção e de concentração, Fabrício explica como funciona a memória. “A memória não é um ‘flash-back’ ou uma foto que você revê, é um mecanismo do cérebro que recria situações. Há memórias de várias características, processadas em diferentes áreas do cérebro. Acordar, escovar os dentes e pentear os cabelos, por exemplo, são ações preparadas pela sua memória, e que você repete todos os dias”, detalha.
Como a memória do ser humano é limitada (um HD composto por 100 bilhões de neurônios), o cérebro também é dotado de um mecanismo para não sobrecarregá-la. “O cérebro faz questão de esquecer algumas coisas. Outras são facilmente guardadas. Se você liga o rádio, toda hora toca a música ‘Rebolation’ e todo mundo comenta, você guarda, mas é uma memória ruim”, exemplifica Fabrício.
Durante a noite, o cérebro faz uma seleção do que vai ou não vai ser armazenado. “Somos programados por estímulos visual e hormonal para dormir à noite e ficar acordado pela manhã. Dormir na hora certa é importante para o cérebro organizar as informações recebidas durante o dia”, assegura o neurocirurgião.
O que tem ocorrido durante o dia a dia dessas pessoas pode ser uma das causas para tantas queixas de falta de atenção. É o que acrescenta o médico Leonardo Campos. “O estresse diário, o aumento do ritmo de trabalho e a cobrança por produtividade colocam muitas pessoas num círculo vicioso. Ansiosas, dormem mal, acordam cansadas e não se concentram mesmo nas tarefas corriqueiras”, reforça.

Superpoderes
Para as patologias mencionadas pelos médicos, há tratamento medicamentoso e psicoterápico. “Mas se a pessoa se queixa de falta de atenção, procurou um especialista e não tem nenhuma patologia, não adianta tomar a medicação para Alzheimer para obter mais memória, por exemplo. Estas drogas atuam especificamente nas áreas lesadas do cérebro e não trazem benefícios para pessoas saudáveis”, explica Fabrício.
Doentes ou não, todo mundo gostaria de aumentar a capacidade de concentração e a memória, seja para obter êxito nos estudos ou no trabalho. “Informalmente, conhecidos me abordam e pedem receitas de derivados anfetamínicos para estimular o sistema nervoso central. Realmente, aumenta a concentração e diminui a fadiga, mas tem muitos efeitos colaterais, como insônia, ansiedade e taquicardia, e causa dependência. Não recomendo”, alerta Leonardo.

Questão de hábitos
A boa notícia é que dá para melhorar a concentração e a memória de uma forma natural. E nem é preciso consumir comprimido de alho, de ginkgo biloba ou várias porções de salame. “Não há nada que comprove que estas substâncias beneficiem a memória e a concentração. As pessoas querem algo prático, fácil e eficaz, sem esforço, mas isso não existe”, enfatiza Fabrício.
Na opinião do neurologista Leonardo Campos, a prática de uma vida saudável é a melhor fórmula para manter o cérebro “em forma”. “Evitar o uso de bebida alcoólica e praticar exercícios físicos melhora o padrão de qualidade do sono. No dia seguinte, a pessoa acorda descansada, mais capacitada a produzir no trabalho e na escola”, recomenda o médico.
Para o neurocirurgião Fabrício Rosa, mesmo assim ainda é preciso estimular o cérebro. “A leitura é o principal estímulo para o cérebro. Ler, buscar outras informações sobre o assunto, fazer um resumo, tudo isso força a capacidade de concentração”, garante o médico. Vale ainda fazer palavras cruzadas e digitar todos os números do telefone em vez de buscá-los na agenda do celular são exercícios que melhoram a memória.
“É comum perguntar a alguém o que faz para estimular seu poder de concentração e de memória e descobrir que a pessoa passa horas em frente à TV, mas não se exercita, não lê nada. Desta forma, chega a ser injusto querer que seu cérebro funcione bem”, conclui Fabrício.
Encontrou um erro, ou quer sugerir uma notícia? Fale com o editor: [email protected]

Comentários

Aviso - Os comentários não representam a opinião do Portal Diário do Aço e são de responsabilidade de seus autores. Não serão aprovados comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes. O Diário do Aço modera todas as mensagens e resguarda o direito de reprovar textos ofensivos que não respeitem os critérios estabelecidos.

Envie seu Comentário