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26 de junho, de 2010 | 16:42

Fabricianense recebe patrocínio do Google

Projeto foi selecionado por empresa internacional

Arquivo pessoal


ALESSIO MIRANDA

FABRICIANO – Muitos jovens se mudam do Vale do Aço com o sonho de fazer um curso de graduação em uma Universidade Federal e encontrar o sucesso da sonhada profissão. Muitos têm planos de voltar à região com a mala cheia de conquistas e experiências. O pesquisador de Coronel Fabriciano, Aléssio Miranda Junior, 26, há oito anos se mudou do Vale do Aço para dar continuidade aos estudos.
Graduado pela Universidade Federal de Viçosa, doutorando em Ciência da Computação e professor substituto pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) Aléssio teve seu projeto selecionado e vai receber um incentivo de US$ 5 mil da empresa internacional Google Summer of Code para dar continuidade ao projeto. Pela internet, o DIÁRIO DO AÇO entrevistou o pesquisador, que contou com exclusividade como desenvolveu seu projeto e a importância de outros estudantes da região desenvolverem pesquisas que contribuam com enriquecimento tecnológico da sociedade.

DA – Como começou seu interesse por computadores?
ALÉSSIO MIRANDA JUNIOR
- Comecei vendendo, consertando micros e prestando serviços de informática aos 14, 15 anos. Quando terminei o segundo grau cursei oito meses de Engenharia Elétrica, mas por diversos motivos queria algo maior. Aos 18 eu mudei do Vale do Aço e não voltei mais. Fiz três meses de cursinho em Belo Horizonte, passei na Universidade Federal de Viçosa (UFV), me formei em 2006 e tive uma ótima chance em Curitiba, no Programa de Mestrado da Universidade Federal do Paraná (UFPR), onde estou até hoje.

DA – Como chegou à sua linha de pesquisa para o desenvolvimento do projeto?
ALÉSSIO JÚNIOR
- Vim para a UFPR para trabalhar com sistemas computacionais que usassem Libras, linguagem brasileira de sinais, para a comunidade surda e muda. Dentre os orientandos daquele ano, cada um seguiu uma linha e eu gostei da idéia de estudar a tradução destas línguas, que está além do que as pessoas normalmente sabem. Libras não é português, é outra língua, e os surdos sofrem muito com a falta de preparo. Buscar a tradução de Libras para o português foi um exercício interessante, que me desprendeu do objetivo original e me trouxe ao projeto atual. Na UFPR está o Centro de Computação Científica e Software Livre (C3SL) um dos grandes centros do Brasil para desenvolvimento de tecnologias do qual faço parte. Temos uma cultura de trabalhar sempre com tecnologia livre, e neste sentido busquei ferramentas de tradução que fossem adaptáveis e realmente livres, sem ter uma empresa que controle o produto como uma caixa preta, de forma a que ninguém pode ajudar.
DA – Como funciona seu programa de pesquisa?
ALÉSSIO JÚNIOR
- Existe um projeto internacional, o “Apertium”, que é um tradutor de livre acesso onde pessoas podem, por vontade própria, criar uma nova língua, ou melhor, um sistema. O projeto Apertium já está em desenvolvimento há oito anos, mas eu não participei do desenvolvimento do tradutor.
Ele é um projeto desenvolvido na Espanha em parceria com a União Européia e já funciona. Estou trabalhando em um sistema que complementa o tradutor desenvolvido na Europa.
Meu objetivo como pesquisa é, de forma leiga, criar uma espécie de Wikipédia, onde qualquer pessoa minimamente informada possa, com total liberdade, criar um tradutor de uma língua qualquer de origem em uma de destino. Um portal onde, além de traduzir, as pessoas vão poder sugerir novas traduções e ajudar a melhorar a tradução ou até mesmo criar um par de línguas. Mas é claro que é necessário pessoas com conhecimento de Letras e Linguística para isso funcionar bem. Porque os africanos não podem desenvolver para as suas línguas? Será que alguma empresa vai fazer isso? De forma bem simples, podemos exemplificar: ele é diferente do famoso tradutor do Google e existem várias diferenças.

DA – Quais são essas diferenças?
ALÉSSIO JÚNIOR
– Nós, brasileiros, usamos basicamente a tradução inglês/português e estamos satisfeitos, mas no mundo existem 6000 línguas e dialetos. Será que o Google vai criar tradutores para todas elas? Atualmente existem somente 40 pares de tradução. Porque nós podemos ter um inglês /português e não um português/alemão? Será que se pedirmos o Google cria um? O Apertium caminha para ser um tradutor onde alguém com conhecimento em duas línguas diferentes pode criar um par de línguas entre qualquer uma delas. Assim como no DINF/ UFPR temos um projeto a longo prazo de criar um tradutor Libras/Português. Além disso, o método de tradução do Google dificilmente tende a trazer resultados realmente bons para tradução. Eles focam em criar várias línguas sem ser muito aprofundamento, pois afinal ninguém paga. Para algumas línguas o Apertium já apresenta uma tradução melhor do que a do Google, mas nenhuma delas usa o português.

DA - Como funciona seu programa de bolsa de estudos e como o conseguiu?
ALÉSSIO JÚNIOR
– O Google Summer of Code (GSOC) é um projeto para incentivar estudantes de todo o mundo a desenvolver soluções relevantes em associações com importantes entidades de software livre. Este ano ocorre a sexta edição e nela foram selecionadas primeiramente 150 organizações ou iniciativas de  software livre de destaque no mundo, como o Ubuntu, Debian, Gnome, Apache e PHP, entre outros. Dentro destes 150, estudantes de todo o mundo submeteram projetos de melhoria, expansão, correção e etc. De maneira que os 1000 melhores projetos são financiados pelo Google. O projeto deve ser desenvolvido em três meses e o estudante recebe uma bolsa de $ 5 mil dólares como incentivo.
Este ano meu projeto foi selecionado e sou um dos brasileiros escolhidos para ter o projeto financiado. Estima-se que foram selecionados 25 brasileiros, número ainda não oficial, dois deles da UFPR. Agora meu projeto foi selecionado e vou receber um patrocínio da Google para começá-lo. 

DA - Como outros pesquisadores podem receber esta bolsa de incentivo?
ALÉSSIO JÚNIOR
- Eu diria que o passo principal é procurar a lista das 150 instituições que participaram este ano, provavelmente a maioria delas vão se repetir no ano seguinte. É uma lista aberta e nos sites de cada projeto existem listas de idéias que não foram feitas e qualquer pessoa pode se preparar para tentar desenvolver no seguinte. Existem idéias para todos os gostos e níveis referentes à computação. Uma vez escolhida à idéia ou criada a sua própria, é só começar a amadurecer o projeto para que possa ser aplicado no ano seguinte. A idéia precisa ser definida até abril de cada ano. Com o cronograma, objetivo e de alguma forma provar que o aluno ou grupo é capaz de desenvolver. No meu caso eu fiz um pequeno protótipo e descrevi bem o problema, e tudo deve ser feito sempre em inglês. No período estipulado os coordenadores de cada projeto têm um número X de bolsas e um número Y de submissões, ai eles escolhem aqueles que parecem mais preparados e com idéias bem relevantes.
Aproveito para dizer que caso algum aluno de instituições do Vale do Aço queira fazer um trabalho deste tipo como projeto final ou algo assim estou à disposição.

DA - Por que você decidiu programar um sistema de código aberto? O que o software livre significa para você?
ALÉSSIO JÚNIOR
- Esta pergunta poderia ser similar a: Porque você faz serviço voluntário? Ou porque você fez uma doação a uma instituição? Porque um cientista faz pesquisa e ao descobrir que sua descoberta pode ajudar o mundo pode fazer a opção de torná-la gratuita?
A resposta é variada, mas pra mim, é a chance de mostrar como uma pessoa comum poder dar sua contribuição para o mundo, com uma tecnologia que pode ser usada tanto em um país pobre quanto em um país rico, sem discriminação. Cada profissional contribui de uma forma, e na minha carreira esta é uma delas. As ferramentas que eu desenvolvo junto com o tradutor, por exemplo, podem ser usadas por um país africano que utiliza a tecnologia especializada para o seu idioma e sua população pode ter acesso ao conteúdo em inglês ou qualquer país sem pagar nada. Em outro caso, o país teria gastos para comprar esta tecnologia.
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