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03 de julho, de 2010 | 18:00

Do Nordeste para Minas Gerais

Vale do Aço também é cheio de sotaques das terras quentes do Brasil

Fotos: Wôlmer Ezequiel


ERICK MORENO, CAMPINA GRANDE

IPATINGA – Pelas ruas e estabelecimentos comerciais do Vale do Aço é fácil notar um sotaque diferente. Às vezes, nem é tão carregado, mas os ouvidos mais sensíveis logo captam aquele jeitinho sem pressa de conversar, com um pouco mais de força em sílabas como DI. É “batata” concluir: é gente do Nordeste nas Minas Gerais.
A razão pela qual os compatriotas deixaram as terras de origem ainda é, na maioria das vezes, a Usiminas, de forma direta ou indireta. Nesta semana, a equipe de reportagem do DIÁRIO DO AÇO ouviu dois nordestinos: o jovem Erick Moreno, de passagem por Ipatinga, e Severina Lacerda, com raízes fincadas no Vale do Aço.
Quando Erick Moreno foi avisado de que deveria vir para Ipatinga para prestar serviço na Usiminas, não fazia ideia de onde ficava o Vale do Aço. Lá em Campina Grande, na Paraíba, onde ele trabalha para uma empresa de automação industrial, só chegou a notícia de que Ipatinga era a cidade sede da siderúrgica. Fora isso, Erick sabia que o município mineiro tinha um time de futebol que disputou uma partida contra a equipe campinense pela Série B do Campeonato Brasileiro.
A primeira vez que ele desembarcou aqui, para passar uma semana, foi em maio de 2009. Aí veio a surpresa. Hospedado num apartamento da empresa campinense no Centro da cidade, Erick descobriu que o bairro não era nada central. “Nas cidades que visitei, sempre procurei o Centro porque de lá é mais fácil se chegar a qualquer lugar e é onde tudo acontece. Em Ipatinga é diferente. O Centro não tem vida noturna, nem bares, e não é onde tudo acontece”, relatou Erick.
O prestador de serviço campinense também sabia que a Usiminas era grande. A surpresa número dois foi descobrir que a siderúrgica era gigantesca. “De quase todos os lugares da cidade é possível avistar a fábrica”, destacou. Erick também achou curioso um outro hábito que, segundo ele, é comum só em Ipatinga. “As pessoas se referem às outras pelo nome e pelo bairro onde vivem. É um bairrismo estranho”, comentou.

Amizades
Na cidade que considerou absurdamente quente para os padrões mineiros, Erick teve dificuldades para se enturmar. Como era costume passar uma semana em Ipatinga e depois retornar a Campina Grande, não dava tempo de conhecer pessoas novas. “Mas desta vez vou passar um mês, e convenci a empresa a me hospedar num hotel no Horto, que é um bairro que tem tudo. Também decidi me enturmar”, revelou.
Erick prefere os ambientes do tipo “inferninho”, que ele define como aqueles onde as pessoas ficam de pé com o copo de bebida na mão ao som de uma banda. “Indicaram-me o ‘Bom Ré Mi Fá’ e, quando estive lá, tinha muito mais homens do que mulheres no local. Tive a impressão que Ipatinga tem uns seis homens para cada mulher”, contabilizou o prestador de serviço.
No mais, Erick considera que Ipatinga tem tudo o que uma cidade deste porte pode ter, e até um pouco mais, como o teatro do Centro Cultural Usiminas. O que faz falta mesmo, neste curto período em que está na cidade, são os amigos.

SEVERINA, RECIFE
Em Ipatinga, Severina curte os netos, as noras e filhos
A dona de casa Severina Maria da Silva Lacerda nasceu no município de Recife, capital de Pernambuco, em 1955. “Lá era uma roça mesmo”, relembra a pernambucana. Aos 15 anos, foi para o Rio de Janeiro, onde conheceu o marido, se casou e teve dois filhos. A família do esposo era natural de Ipatinga, para onde acabaram se mudando em 1981.
Nestes 29 anos, Severina teve mais um filho, separou-se e hoje curte as noras e os três netos, um deles ainda a caminho. “Desde que cheguei aqui, gosto muito de Ipatinga. Não estranhei o calor porque o Rio também é bem quente. Nos primeiros quatro anos, morava próximo ao ribeirão na avenida Gerasa e, quando chovia, enchia e a água entrava na casa da gente. Mas era só disso que não gostava”, relatou.
Além da vida em família, Severina estuda e faz hidroginástica. Tudo proporcionado pelos filhos. “Uma amiga é quem me sugeriu estudar, falou que eu era nova e que estudar era bom. Estou fazendo a 4ª série e às vezes penso em desistir. Mas quando chego à escola dá um ânimo. Adoro as meninas de lá, as da minha idade e as mais novas também”, confessou Severina.
A hidroginástica parece que ajuda Severina a manter a mente jovem. Com 55 anos e meio, não tem vergonha em revelar a idade. “Meu sonho é completar 80 anos para poder contar que cheguei a esta idade”, assegurou. Para não ficar parada, Severina ainda passeia pelo Parque Ipanema e pelo Shopping do Vale do Aço de vez em quando.

Planos
A terceira filha de Severina vive em Londres e já a convidou para viajar muitas vezes. “Meus dois filhos já foram, minhas noras, meu neto mais velho nasceu lá e até já recebi a visita de um casal da Inglaterra. Acho que, se minha filha demorar muito para voltar, vou acabar indo visitá-la”, contou a dona de casa.
Vai, mas volta logo. É que Severina não troca Ipatinga por nenhum lugar do mundo. Nem pela terra natal, para onde ela retorna de vez em quando para visitar familiares, e que já melhorou um pouco desde os seus 15 anos. “Ipatinga está ficando violenta, mas ainda tenho paz aqui. Tem muita gente que fica pela rua até de madrugada, bebendo e fazendo o que não deve. Eu nunca fui disso, por isso tenho muita paz neste lugar”, finalizou Severina.  
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