29 de julho, de 2010 | 08:32
Soropositivos enfrentam preconceito no mercado
Gasp diz que empresas burlam portaria que proíbe exigência do exame de HIV, o vírus da Aids.
IPATINGA Você trabalharia com uma pessoa portadora do vírus HIV?
Um levantamento feito pelo Programa da Organização das Nações Unidas de combate à Aids (Unaids) indicou que 29% dos brasileiros não aceitariam essa situação. O estudo foi feito também em outros 24 países.
Por causa do preconceito, o governo brasileiro proibiu, no final de maio, as empresas do país de exigirem o exame de HIV dos trabalhadores. Mas, a julgar pela realidade da região, a medida parece não ter sido suficiente para impedir a discriminação no mercado.
De acordo com a vice-presidente do Grupo de Apoio aos Soropositivos (Gasp), Ireny Martins, a maioria dos 218 usuários da entidade se encontra atualmente desempregada. São jovens, adultos e até idosos que precisam e estão aptos a trabalhar, mas que não encontram oportunidades por causa do preconceito”, aponta.
Fundadora do Gasp, Ireny revela ainda que muitas empresas da região têm desrespeitado a portaria publicada há dois meses no país. O exame tem sido feito às escuras. Quando sai o resultado, os empregadores dão uma desculpa educada e não contratam o candidato. O pior é que não temos como provar que o motivo da não contratação foi o preconceito”, lamentou.
Desinformação
Segundo a vice-presidente do Gasp, a discriminação está ligada à desinformação. Por falta de conhecimento sobre o assunto, há quem ainda acredite que pode ser infectado pela picada de um pernilongo ou por usar o mesmo banheiro que um soropositivo.
Outro problema apontado por ela é que as vítimas não denunciam a discriminação, por medo de se revelarem soropositivas aos familiares e amigos. Na opinião de Ireny, algumas medidas deveriam ser adotadas pelo governo para promover a reinserção dos portadores do vírus no mercado, como o abatimento no imposto de renda para as empresas que contratarem soropositivos ou a criação de cotas.
A oportunidade de emprego é necessária não apenas pela renda gerada, mas também por ser um eficiente remédio contra a depressão. O trabalho ajuda a levantar a autoestima e, por consequência, melhora a qualidade de vida”, resume.
Atualmente, o programa municipal de DST-Aids atende cerca 600 pessoas. Desse total, 70% residem em Ipatinga, e o restante vem de 33 cidades vizinhas. No entanto, acredita-se que o número de pessoas contaminadas seja muito superior.
Discriminação é proibida por lei
A portaria que proíbe as empresas de exigirem do trabalhador a realização do teste de HIV para contratação foi assinada pelo ministro do Trabalho e Emprego, Carlos Lupi, em 31 de maio deste ano.
Segundo a norma, o teste de HIV não é permitido, de forma direta e indireta, em exames médicos para admissão, mudança de função, avaliação periódica, retorno, demissão ou outros ligados à relação de emprego.
A medida tem como base a Lei nº 9.029, de 13 de abril de 1995, que proíbe a adoção de qualquer prática discriminatória e limitativa para a admissão ou a manutenção do emprego.
Mulheres predominam no cadastro do Gasp
Uma análise do cadastro do Gasp revela que a maior parte dos usuários da entidade é formada por mulheres viúvas e com filhos para criar. O levantamento mostra ainda que a maioria das usuárias tem baixo poder aquisitivo. Quem tem melhores condições financeiras vai fazer tratamento em Belo Horizonte”, observa Ireny Martins.
Entre as usuárias está uma jovem de 22 anos. Desde que descobriu ser portadora do vírus, ela não consegue emprego. Além disso, vem enfrentando o preconceito dos funcionários da creche onde deixa o filho. Diferentemente da mãe, a criança não é portadora do HIV.
Voluntária do Gasp, E.C., 34 anos, é outra usuária que enfrentou o preconceito no mercado de trabalho quando descobriu estar contaminada, aos 22 anos. Ela conta que, à época, trabalhava como empregada doméstica. Minha patroa disse que estava me demitindo para eu me tratar. Mas eu sabia que não era por isso”, resume.
Depois disso, E.C. tentou por várias vezes retornar ao mercado, até que conseguiu se aposentar pelo INSS. Hoje, mãe de dois filhos nenhum dos dois portadores do vírus , ela ajuda a outros soropositivos no Gasp. Tento mostrar a eles que é possível ter uma vida com qualidade. Mas para isso é preciso que haja oportunidades”, acrescenta.
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