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22 de setembro, de 2010 | 22:02

Violência escolar em Ipatinga

Pesquisa acadêmica aponta dados sobre trabalho precoce e abusos contra adolescentes

Wôlmer Ezequiel


MÁRCIA ELENA

IPATINGA - Pesquisa realizada em uma escola pública do município revela que a violência faz parte do cotidiano de alunos na faixa etária de 14 a 18 anos. Dos 308 adolescentes pesquisados, 80% responderam que foram vítimas de abusos psicológicos e 20% já sofreram algum tipo de agressão física. Outro dado alarmante mostrou que mais da metade dos adolescentes (55,1%) exercia a dupla jornada escola-trabalho. O nível de reprovação chegava a 20,1% nesse grupo, formado por alunos da 8ª série do ensino fundamental e das três séries do ensino médio.
A pesquisa foi desenvolvida pela professora Márcia Elena Andrade Santos, enfermeira do Cerest (Centro de Referência Regional em Saúde do Trabalhador), e resultou em trabalho de dissertação de mestrado em Enfermagem pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UFRJ). Aprovada com mérito, Márcia conquistou o título em fevereiro de 2009 e se propôs a divulgar os dados como forma de contribuir para a solução dos problemas apontados no estudo e na formação acadêmica de enfermeiros. Por questões éticas, o nome da escola é mantido em sigilo.
“Diante da existência de trabalho precoce e da violência, torna-se urgente repensar políticas públicas de saúde e de proteção dos adolescentes”, destaca a professora, ao acrescentar que essa iniciativa deve ter a participação de todos. “Inclusive dos enfermeiros no processo de promoção da saúde, para se criar uma rede protetora integral em favor da juventude”, resume.
Nesta sexta-feira (24) à noite, Márcia Elena vai apresentar palestra sobre a violência contra adolescentes, no Centro Universitário do Leste Minas (Unileste-MG), onde leciona. O evento, destinado a alunos e professores da área de saúde, com entrada gratuita, será realizado no auditório Padres do Trabalho, em Coronel Fabriciano.
O objetivo é discutir a violência no âmbito da saúde pública, conforme explica a professora Simone de Pinho Barbosa, que organiza o evento junto com a docente Sandra Margon, coordenadora do curso de Enfermagem. “Pesquisas comprovam que a violência é uma das principais causas da morbidade e mortalidade em nosso país. Diante deste quadro, é importante que os estudantes e profissionais da área de saúde estejam preparados para lidar com esta realidade”, explica Simone.
Escola, trabalho e família
Os dados da pesquisa de Márcia Elena foram coletados entre abril e agosto de 2008, com autorização da escola e dos pais. O projeto recebeu ainda a aprovação do Comitê de Ética do Hospital Universitário Pedro Ernesto, do Rio de Janeiro.
Trabalho
A professora ouviu 177 adolescentes do sexo feminino e 131 do sexo masculino. Os meninos apresentaram percentual de ocupação maior (62,6%), contra 48,6% das meninas. Os estudantes trabalhadores atuam principalmente no comércio, administração pública, indústria, serviços domésticos e outros. Algumas atividades são proibidas pela legislação brasileira para menores de 18 anos, e outras consideradas altamente perigosas. A metade do grupo que trabalhava estava inserida no mercado informal, sem garantias. A maioria (53%) recebia menos que o salário mínimo e 10% disseram não receber nenhuma remuneração.
Jornada
A pesquisa indicou que os jovens trabalhavam em excesso, durante cinco ou seis dias por semana, com carga horária entre seis e oito horas por dia. Para 48,8% dos adolescentes, as condições de trabalho eram precárias, inseguras e, às vezes, insalubres. E 42% deles disseram ter sido vítimas de acidentes ocupacionais.

Motivos
A maioria morava com os pais (67,5%). Muitos, porém, viviam com os avós, em decorrência do fluxo migratório de brasileiros para outros países, situação de alta incidência no Vale do Aço e Vale do Rio Doce. A renda familiar girava em torno de dois a três salários mínimos. Os motivos do ingresso prematuro no mercado de trabalho foram relatados pelos próprios pesquisados: “para ter dinheiro e ser independente” (29,7%), “para ser alguém na vida” (19,9%), “para aprender uma profissão” (16,2%), “para ajudar meus pais” (8,7%), “para ficar longe de casa” (1,2%), e “não responderam” (0,2%). Trabalhar para ficar longe de casa, embora tenha sido a resposta dada por apenas 1,2% dos entrevistados, é um fato que pode estar associado à violência no espaço familiar, conforme os próprios adolescentes mencionaram. 
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Violência física e psicológica - 22/09/2010
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