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02 de outubro, de 2010 | 22:00

Desafio da recuperação do vício

Preconceito da família é um dos grandes desafios na reinserção social

Fotos: Silvia Miranda


HEBROM

VAREGM ALEGRE – Reconquista da saúde, volta à vida normal, ao ambiente social ou de trabalho, ato por meio do qual alguém é reintegrado na posse de algo que lhe tenha sido retirado. Todas as expressões citadas são sinônimos da palavra recuperação, desejo de quem um dia teve sua vida tomada pelo vício, mas percebeu a necessidade de recomeçar. No município de Vargem Alegre, o Centro de Recuperação e Reabilitação Social para Pessoas Portadoras de Transtornos Decorrentes do Uso ou Abuso de Substâncias Psicoativas, também conhecido como Desafio Jovem Hebrom, está empenhado há 24 anos na luta contra as drogas.
O programa completo para a recuperação dura em torno de nove meses, com atividades de terapias espirituais, físicas, ocupacionais, arte, esporte e lazer. Durante a árdua luta pela abstinência, muitos não chegam a completar os nove meses de internação; outros, jurados de morte pelo envolvimento com o tráfico, precisam ficar mais tempo recolhidos, a fim de  materializar a esperança de começar uma nova vida, livre do passado. Conforme as estatísticas da instituição, de cada 10 internos sete alcançam êxito na recuperação. A precária assistência médica vem do Sistema Único de Saúde de Vargem Alegre e da Prefeitura de Caratinga, que contribui com o atendimento odontológico. A partir deste mês, duas psicólogas se dispuseram a ajudar no tratamento específico de ex-usuários de crack.
Davi José Sobrinho é pastor e presidente da instituição há sete anos. Segundo ele, a instituição pede à família a doação de uma mensalidade no valor de um salário mínimo, para custear a manutenção do programa de reabilitação, mas o dinheiro não chega a ser um impedimento para os que se dispõem a abandonar as drogas.

UILSON NASCIMENTO
  “Nunca fechamos as portas para a oportunidade de recuperar alguém, sempre é oferecido a familiares de baixa renda um desconto ou a alternativa de buscar outros recursos para o internamento”, explicou. Prova disso é que, do total de 29 internos, apenas cinco pagam o valor integral.

Planos
Há cinco meses, Shismar Lopes, 31, mecânico industrial, tomou a decisão de ir para o Hebrom se recuperar. “Minha vida estava indo para um caminho que eu não tinha mais controle”, revelou. Ele conta que chegou a pedir dispensa do emprego antes que aquela porta profissional se fechasse de vez para ele.
“Eu vi que tinha uma família sendo prejudicada, porque eu só trabalhava para consumir”, lembra.  Como jogador de futebol, Shismar disputava campeonatos amadores em Coronel Fabriciano e, por cinco vezes, chegou a ser campeão. Sempre na posição de centro-avante, começou a disputar o campeonato deste ano, porém a condição física debilitada pelo  uso de drogas comprometeu seu rendimento, obrigando-o a largar o esporte. Hoje, ele já consegue sonhar com sua antiga vida. “Agora eu consigo ter uma visão melhor, eu consigo ver a luz, voltar a fazer planos. Eu reconquistei minha oportunidade de viver”, comemora.
“Uso a música para matar a saudade e ganhar ânimo”
Dia de festa para Uilson Nascimento da Costa, pedreiro que completa hoje 48 anos e que poderá pela primeira vez, depois de cinco meses, visitar a família. Um momento feliz depois de algumas privações. Por causa do álcool, perdeu o casamento e a credibilidade no campo profissional. Mas um dia ele finalmente reconheceu que precisava de ajuda. “Perdi meu casamento e a convivência com meus dois filhos. Eu achava que precisava do álcool para ter um dia tranquilo” conta. Encontrar o caminho de volta à vida normal foi como nascer de novo. “Estou crescendo no meu jeito de agir e de pensar; aqui não é uma simples casa, a gente recupera o lado espiritual também”, afirma.

DIEGO MARTINS
Com apenas nove anos, o estudante Diego Martins Ferreira, 20, usou droga pela primeira vez. Entre as piores consequências do consumo de substâncias  ilícitas, houve a prisão e o afastamento das pessoas queridas. Passados três meses do dia em que admitiu que precisava mudar de atitude, Diego volta a fazer planos para uma vida saudável e independente dos entorpecentes. “Quero trabalhar, casar, ter uma vida normal”, planeja. Músico e dono de uma linda voz, com a ajuda de um violão o jovem busca nas melodias a força para perseverar no tratamento. “O meu fortalecimento aqui é a música, eu uso a música para matar a saudade, ganhar ânimo e louvar a Deus”, reitera.

Preconceito
Segundo o presidente do Hebrom, Davi José Sobrinho, as maiores dificuldades enfrentadas na luta pela recuperação são a sustentabilidade do programa e o preconceito das famílias durante a recuperação. Ao terminar o período de tratamento, muitos não conseguem a reinserção na família por falta de confiança dos membros. Nesta realidade três residentes da casa concluíram a recuperação, mas escolheram viver permanentemente na instituição devido a rejeição da família. “Temos uma necessidade de fazer um trabalho junto às famílias durante o período de recuperação, mas faltam profissionais e condições para a contratação de psicólogos”, lamenta.
Precisam-se de voluntários
O Hebrom não chega a receber nenhum repasse de verba pública e sobrevive com ajuda financeira de alguns alunos, doações de pessoas físicas, jurídicas e outras instituições. Para ajudar no sustento financeiro da entidade o grupo trabalha na minhocultura, produtos de limpeza, pomar, criação de suínos e galinhas poedeiras. Mas ainda é grande a necessidade de apoio profissional de voluntários de todos os segmentos: médicos, psicólogos, enfermeiros, assistentes sociais, técnicos em informática e conhecimentos agropecuários.
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