02 de outubro, de 2010 | 22:00
Oportunidade para a renovação
Após viver sete anos como moradora de rua, mulher assume vida nova
IPATINGA - Das milhares de histórias envolvendo andarilhos por todo o país, raríssimas são aquelas que caminham para um final feliz. Uma delas, digna de registro, é a da moradora de Ipatinga Maria Célia Xavier, 60 anos. No dia 28 de outubro de 1990, o DIÁRIO DO AÇO trazia reportagem de capa contando o drama da mulher, que à época era moradora de rua.
Maria vivia numa construção” de papelão à beira da BR-381, próximo ao viaduto, no bairro Horto. Quando conversou com a repórter Lúcia Pascoal, ela revelou que já estava há oito meses naquela condição. Desempregada, chegava a ficar 12 dias sem se alimentar. O único filho que teve fora separado dela pelo Serviço Social do município, aos 13 anos. A experiência da mulher nas ruas teria iniciado logo após o abandono do marido.
Vinte anos se passaram e agora a história de Maria Célia Xavier volta à tona. Na última terça-feira (28), a moradora foi redescoberta”, vivendo na Casa da Esperança, no bairro Limoeiro. A notícia sobre o paradeiro de Célia foi dada pela própria presidente da instituição, Maria Lúcia Valadão. Tia Lúcia escreveu para o jornal após ler na coluna DA História, de terça-feira, trecho da notícia sobre a então moradora de rua, intitulada Desempregada há oito meses faz da rua sua moradia”.
Na mensagem, Lúcia confidencia: É difícil definir o sentimento que invadiu minhalma ao ler o Diário do Aço de hoje. É um desencanto saber que nem todas as notícias têm um final feliz, mas basta uma para que a alegria se transforme em bálsamo, fortalecendo nossos sonhos”.
História
Maria Célia chegou à Casa da Esperança há treze anos. Antes disso, a mulher viveu um tempo no albergue municipal. Sem portar qualquer documento, a nova interna se apresentou como Margaret, personalidade que assumiu após o trauma da experiência nas ruas. Para buscar mais informações sobre Maria, Tia Lúcia precisou revirar o seu passado. Descobriu que seu último emprego foi no Hotel Presidente, no Centro de Ipatinga. O ex-marido de Maria Célia, um taxista, foi encontrado. Porém, ajudou apenas com algumas informações sobre a mulher.
Quando chegou à Casa da Esperança, a ex-moradora de rua era agressiva, e até recentemente se recusava a falar sobre seu passado. Ela foi retirada das ruas porque agredia os transeuntes. Quando chegou aqui, tinha que ser forçada a tomar banho e não se relacionava com os outros internos. Agora, a situação é diferente. Ela se tornou uma pessoa tranquila e até ajuda a dar banho nos outros internos”, contou Lúcia.
Na avaliação da presidente da Casa da Esperança, os transtornos vividos na rua fizeram com que Maria Célia perdesse a confiança nas pessoas. Quando alguém se recusa a admitir seu nome e sua história é porque deixou de acreditar no ser humano. No entanto, da incredulidade ela se transformou em uma pessoa útil”, diz, acrescentando que a mulher poderia ter tido um final trágico. Ela poderia estar morta hoje. Mas não. Mantém a sua integridade e sua dignidade”, comemora.
A diretora financeira da instituição, Vera Vasconcelos, também se alegra com o destino da interna. A convivência com outras pessoas tem sido fundamental para promover a qualidade de vida de Margaret. Aos poucos ela vem se soltando, se libertando dos traumas do passado”, avalia.
Maria Célia: só no passado”
Em conversa com a reportagem na última quarta-feira (29) na Casa da Esperança, Maria Célia Xavier, hoje Margaret, demonstrou simpatia e contou um pouco da sua história. No entanto, ao surgir o assunto sobre o passado, a princípio ela resistiu. Da vida de Maria Célia eu não sei nada. Eu sou Margaret”, abreviou.
Aos poucos, contudo, entre lembranças fragmentadas, o passado ressurgiu. A história da ex-moradora de rua foi contada por ela em terceira pessoa. Ela morava no viaduto, e quem fornecia comida para ela era a Usiminas”, recordou. Maria lembrou ainda, com serenidade, de momentos tristes. Certa vez, um moço do Sul jogou uma pedra no pé dela e machucou”, disse.
Uma suposta passagem por São Paulo também foi mencionada. A Maria Célia morou lá, trabalhou como garçonete, mas voltou por causa de confusão. Aqui acabou ficando desempregada”, resumiu. Ela negou que tenha sido casada e confirmou a separação do filho, no período em que vivia na rua. O filho de Maria Célia foi visitá-la uma única vez em 2003, no abrigo. Sobre a vida nova, ela sintetiza: Aqui eu não trabalho, mas eu gosto”.
Segundo Lúcia Valadão, além de Margaret Thatcher, outra personalidade assumida pela interna é Kilbere. Depende do dia e do seu estado de humor. Mas para mim não importa se ela é Maria Célia, Margaret ou Kilbere. O importante é que está conosco”, finaliza.
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