16 de outubro, de 2010 | 22:50
Lixo eleitoral e amnésia
Ipatinguense defende santinhos como documentos capazes de refrescar memória
IPATINGA - Desde a década de 70, o vigilante Antônio Fernando Moreira, de 58 anos, morador do bairro Novo Cruzeiro, em Ipatinga, tem o costume de colecionar panfletos de campanhas eleitorais.
Para ele, esses papéis que quase sempre acabam descartados como lixo, deveriam receber mais atenção da sociedade. Bem utilizado, o material teria a capacidade de acabar com a amnésia política que, segundo pesquisas, levam sete em cada dez brasileiros a se esquecerem em menos de quatro anos -, em quem votaram.
Devido a essa crença, Antônio procurou o DIÁRIO DO AÇO para sugerir a correção” de uma reportagem publicada logo após a eleição de 3 de outubro, que informava sobre o descontentamento da população com as toneladas de lixo eleitoral que emporcalhavam as ruas do Vale do Aço.
A imprensa só denuncia o lado negativo da política. E isso é ruim porque causa descrença e induz o cidadão a não ver o lado positivo da situação, que é a representatividade que conquistamos”, pontua.
Segundo o vigilante, o grande problema do brasileiro é achar que o patriotismo só deve ser exercido durante a Copa do Mundo. Nessa competição futebolística, o envolvimento da população é tanto que, mesmo depois de 50 anos, os torcedores são capazes de lembrar e descrever com precisão lances de vitórias ou derrotas que, via de regra, não acrescentam nada de importante à vida dos cidadãos.
Por que ninguém reclama dos muros pintados, das ruas fechadas, do som alto por causa do futebol? Por quê?”, questiona.
Venda de votos perpetua corruptos
Antônio é político e faz uso da política mesmo sem nunca ter-se elegido. Tentou um cargo eletivo na eleição de 2000. Foi candidato a vereador em Ipatinga. Foi mal votado, reconhece. Teve apenas 36 votos. Atribui o resultado ao fato de as pessoas ainda não terem aprendido que voto não se vende, mas se outorga, empresta a alguém que esteja preparado e que tenha comprometimento em trabalhar pelo bem da coletividade.
Infelizmente muitas pessoas vendem o voto, não têm vergonha de chegar perto do político e pedir favores, dinheiro, emprego. Quando fui candidato, uma mulher lá do Amaro Lanari, que vota em Ipatinga, me pediu para pintar a casa dela em troca do voto dos familiares. Eu disse não, porque não tinha como ajudar, só contava com o meu salário da Usiminas para pagar os gastos da campanha”, lamentou, frisando que o lamento não está ligado à falta de dinheiro para comprar o voto da eleitora.
Na prática, a história do vigilante aposentado confirma o que muito se debate e se tenta coibir para acabar com o apodrecimento e empobrecimento da política brasileira, a partir da venda do voto. Na luta contra essa realidade, a eleição de 2010 foi marcada por uma intensa campanha da Justiça Eleitoral pela valorização do voto, uma luta contra a prática arraigada no Brasil desde os tempos dos coronéis. As pessoas que vendem o voto perpetuam os corruptos no poder”, afirma Antônio Fernando Moreira.
Esquecimento” atinge 71% dos brasileiros
No entendimento do eleitor, quem não acompanha a política e vota por votar e se esquece até do nome do candidato a quem confiou o seu voto, também é responsável pelo mar de lama em que se encontra a política brasileira. Seu Antonio não poupa nem a imprensa. Vocês jornalistas só noticiam o lado ruim da política, dólares na cueca, escândalos. As pessoas precisam conhecer o lado positivo da política”, sugere.
Pois política, na visão do vigilante, por profissão e vocação, é mais importante que futebol. Ele acha que todos devem ser patriotas durante todos os 365 dias do ano. E não apenas de quatro em quatro anos, durante a Copa do Mundo ou de dois em dois, nos três meses que antecedem as eleições gerais ou municipais.
Esquecimento
No ensaio "Amnésia eleitoral: em quem você votou para deputado em 2002? E em 1998?", publicado no livro "Reforma Política: Lições da História Recente" (FGV), o escritor Alberto Almeida revela que 71% dos eleitores esqueceram em quem votaram para deputado federal quatro anos antes e outros 3% citam nomes inexistentes. Essa amnésia começa cedo: dois meses após a eleição, 28% já não se recordam de seu candidato a deputado federal, e 30%, em quem votaram para deputado estadual (os dados constam do Estudo Eleitoral Brasileiro conduzido pela UFF e pelo Cesop/Unicamp).
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