09 de fevereiro, de 2011 | 00:01
Escritor defende formação ética
Frei Betto critica falta de alternativas para saída de famílias do Bolsa Família
FABRICIANO Como parte das atividades de abertura do ano letivo no município, o escritor Frei Betto esteve no município para debater o tema Dimensão Ética e Política do Trabalho do Educador”, durante palestra ministrada a educadores. O evento ocorreu na catedral de São Sebastião, na noite de segunda-feira (07). Em entrevista ao DIÁRIO DO AÇO Frei Betto falou sobre a ausência da ética na educação e deficiências em programas do governo federal e de alguns desafios da presidente Dilma Roussef.DIÁRIO DO AÇO - Qual a linha temática da sua palestra?
FREI BETTO - Eu abordo dois aspectos. Primeiro que a educação tem que visar à formação do cidadão e não só a mão de obra especializada para o mercado de trabalho. Nesse sentido, ela tem uma dimensão política de formar no educando uma consciência crítica de alguém que se compromete a transformar a si mesmo e o mundo. E sendo uma educação voltada para a cidadania, ela é essencialmente ética, mas lidando com um conflito permanente. Enquanto a família, a escola e a igreja querem formar cidadãos, a grande mídia em geral quer formar consumistas, principalmente a TV, por causa da qualidade do conteúdo que deixa muito a desejar. E neste sentido eu abordo como lidar com este conflito permanente, com este paradoxo que de um lado puxa para a cidadania e do outro para o consumismo.
DA Por que a necessidade de unir a mídia e a educação nessa discussão?
FREI BETTO - Eu trabalho com educadores há muitos anos e este é um tema recorrente, um tema que eu acho importante acentuar. A imagem é ainda contemplada sem nenhum senso crítico. Então, a educação tem que abraçar esse aspecto também.
DA Por que sua crítica é tão severa em relação à formação dos alunos pelas escolas?
FREI BETTO - Muitas escolas querem só formar mão de obra para o mercado e então elas não investem na formação ética, por exemplo. O sujeito é médico, mas ele não tem nenhuma formação ética. Ele quer ser médico só de rico, para ele é um horror pensar que ele pode trabalhar no interior. O sujeito quer ser advogado, mas aceita suborno e aceita subornar para favorecer o seu cliente. Então, a gente pensa se é essa a educação que nós queremos. Nós queremos uma educação em que as pessoas tenham valores subjetivos arraigados e tenham ética. E lamentavelmente isso é pouco enfatizado no sistema educacional brasileiro. Percebemos que quase não existem escolas que oferecem uma aula de ética ou tem a ética presente em algum dos temas transversais das várias disciplinas. Isso lamentavelmente é uma realidade.
DA - Como resolver o problema da falta de médicos disponíveis para trabalhar na rede pública?
FREI BETTO - É uma questão de vontade política. Eu por exemplo acho que todo aluno formado em universidades públicas de Medicina e, portanto, pago pelo contribuinte, teria a obrigação, assim como é obrigatório o serviço militar, pelo menos nos cinco primeiros anos de vida profissional trabalhar onde o poder público determinar. Seria uma forma de pagar à sociedade aquilo que a sociedade ofereceu a ele e, para isso, é preciso vontade política.
D.A - Qual a sua avaliação do sistema do ProUni e Enem?
FREI BETTO - Eu sou a favor dos dois, embora acredite que os ambos mereçam muitas revisões. O Enem, por razões óbvias de todos os acidentes de percurso ocorridos ultimamente. O ProUni, porque eu desconfio que muitas faculdades particulares aderem ao programa não para abrir vagas para estudantes que não têm condições de pagar, mas porque querem usufruir dos abatimentos de tributos. Então, vai chegar um momento em que o MEC vai ter que parar e, na ponta do lápis, calcular o que é mais barato e menos oneroso para a União. Esse perdão fiscal para faculdades e universidades que aderem ao programa ou criar mais universidades públicas com esse critério de seleção daqueles que têm menos renda. Assim como foi criada a cota racial, eu sou mais a favor ainda da cota social.
DA - Os erros do Enem são reflexos de uma deficiência no sistema?
FREI BETTO Sim, porque as faculdades particulares, muitas delas meros balcões de venda de diploma, adoram o ProUni porque deixaram de pagar uma série de impostos. E ao mesmo tempo não significa que elas estão investindo devidamente nestes alunos. Eu acho que a iniciativa em si é muito boa, mais de 700 mil jovens no governo Lula foram beneficiados pelo ProUni, porém ainda falta a questão da qualidade. E principalmente avaliar se o ônus para o contribuinte, via governo, é maior com esse perdão fiscal ou com investimentos na ampliação do sistema público de ensino.
DA - Você acha que o ex-presidente Lula poderia ter feito mais pela educação do país?
FREI BETTO Sim, poderia e deveria ter feito mais. Muita coisa foi feita, nunca se avançou tanto a começar pela construção de 14 universidades públicas, multiplicação de escolas técnicas. Lula também dobrou o orçamento do Ministério da Educação, que hoje está em 5.2% do Produto Interno Bruto (PIB), ainda insuficiente, mas aumentou bastante. Faltou uma campanha nacional de alfabetização, a implantação do tempo integral no ensino fundamental, que depende muito dos municípios, mas há uma capacidade de indução do governo federal que eu não senti e fica como desafio para o governo Dilma.
DA - O governo de Minas também tem investido em processos seletivos para distribuição de bolsas em escolas privadas. Essa iniciativa também compromete a qualidade do ensino técnico?
FREI BETTO - Eu não conheço a realidade específica de Minas e não tenho condições de dar uma opinião sobre isso, mas eu diria que há o risco de isso ocorrer. Porque se você aumenta a rede de escolas técnicas sem muita atenção e muito cuidado, pode haver o risco da queda na qualidade de ensino. E o ensino técnico no Brasil, aquele que equivale ao ensino superior, sempre foi de muita qualidade.
DA - Como você avalia o projeto proposto pela presidente Dilma Rousseff para erradicação da pobreza?
FREI BETTO - Eu desconfio que aquele PAC contra a miséria que a presidente Dilma anunciou nos primeiros dias do seu governo, seja nada mais nada menos do que o resgate do Programa Fome Zero. O Fome Zero era um programa de caráter emancipatório e, por razões que eu explico no meu livro Calendário do Poder”, foi substituído por um programa meramente compensatório que é o Bolsa Família. Eu acho que o governo se deu conta que o Bolsa Família é bom, mas é insuficiente e com um agravante, até hoje não se encontrou uma porta de saída para as famílias que ingressam no benefício. O que agora tem outro nome, chamado no discurso de PAC contra a miséria, talvez possa voltar à questão da emancipação, ou seja, a discussão de como essas famílias poderão produzir a própria renda, livres da dependência do governo federal.
DA - Como uma pessoa que sofreu na ditadura militar, você acha que a instalação de uma Comissão da Verdade para apuração dos crimes pode mesmo ocorrer?
FREI BETTO - Será uma vergonha histórica se tendo na presidência uma mulher que foi torturada e presa, vítima da ditadura, isso não acontecer. E eu espero que aconteça mais do que isso, não só a apuração da verdade, mas que haja punição para aqueles que foram responsáveis por isso. Todos os países da América Latina que passaram por ditadura militares apuraram a verdade e puniram os responsáveis, exceto o Brasil e isso não se justifica. Isso não é uma questão de vingança. É uma questão de justiça, até para que não se repita.
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