16 de fevereiro, de 2011 | 00:00
Para joalheiro, sistema de penhor de joias é falho
Empresário acredita que bandidos do Vale do Aço usariam instituição para legalizar produto de roubo
IPATINGA - Adilson Sabino é um empresário tradicional do ramo de joalherias do Vale do Aço, sua loja fica no bairro Horto, em Ipatinga.
Falando em nome de vários joalheiros da região, ele diz estar convencido de que boa parte das joias furtadas e roubadas no Vale do Aço vem sendo sistematicamente legalizada” pelo sistema de penhora da Caixa Econômica Federal.
O banco foi procurado para apresentar sua versão, mas se limitou a emitir nota informando que o caso está sob investigação policial.
Sabemos de muitas empresas de grande e pequeno porte que fecharam as portas por motivo de assalto. Há cerca de 30 dias, depois de ser assaltada várias vezes, tivemos uma joalheria fechada no Bom Retiro. O problema é que um produto de furto ou roubo, ao entrar no penhor, automaticamente passa a ser um produto legal, deixa de ter sua origem questionada”, critica o joalheiro.
A denúncia de Adilson é reforçada pela prisão de mãe e filha acusadas de furto na última sexta-feira (11). Nesse mesmo dia, um funcionário da Caixa do bairro Horto acabou detido sob suspeita de ter penhorado” as joias furtadas pela dupla de uma loja da avenida 28 de Abril, no Centro de Ipatinga.
Ele foi conduzido porque a polícia estranhou o fato de o bancário ter pagado” pouco mais de R$ 1 mil às acusadas sem que o contrato de penhora tivesse sido assinado.
Prisões
Ao jornal, o delegado que investiga o caso declarou que o funcionário da Caixa foi liberado, mas que deveria ser indiciado para responder a processo pela acusação de receptação de produtos furtados. Já as mulheres foram presas e recolhidas ao Ceresp de Ipatinga.
O DIÁRIO DO AÇO fez contato junto à gerência geral da Caixa Econômica do bairro Horto, mas ninguém se pronunciou, orientando a reportagem a contatar a superintendência regional, em Governador Valadares, que se limitou a emitir um comunicado.
Informações de eventos sob investigação policial são repassadas apenas às autoridades policiais, contribuindo para o trabalho de inteligência conjunta realizado pela Polícia Federal, Polícia Militar e Polícia Civil”, descreve a nota da instituição.
A Caixa prossegue informando que, a fim de combater essas ocorrências, fez parcerias com as organizações policiais, adotando ações de prevenção.
Por isso, qualquer crime que tenha relação com o banco está sob responsabilidade direta da Delegacia Especializada da Polícia Federal, não cabendo à Caixa a divulgação de qualquer informação à imprensa, para não prejudicar as investigações em andamento.
Contudo, havendo comprovação de participação de empregado da Caixa, serão adotadas, tempestivamente, as providências administrativas, civis e penais cabíveis”, reforça a nota.
Indignação
Apesar do posicionamento da Caixa, o joalheiro Adilson Sabino acredita que as autoridades do Vale do Aço estariam fazendo vistas grossas” a um suposto esquema de legalização de mercadorias através de leilões de joias penhoradas.
Sua indignação é tanta que ele pensa em dar início a um movimento de âmbito nacional por mudanças, por considerar que a lei do penhor é falha ao facilitar o crédito da instituição à ação de pessoas que agem de má fé.
Segundo ele, quando as joias penhoradas não são resgatadas pelos proprietários, elas seguem para leilão, sendo geralmente arrematadas pelos próprios empresários do ramo.
Muitas vezes essas peças levam um polimento e voltam para as vitrines, quando se trata de peças novas ou seminovas”, diz Sabino.
Máfia
O joalheiro denuncia que, além do penhor, ainda existiria uma espécie de máfia de receptadores e negociadores de joias agindo no Vale do Aço, envolvendo tanto pessoas físicas quanto os próprios empresários do setor.
Segundo Sabino, muitos donos de joalherias fariam parte desse esquema, agindo à margem da lei ao ignorar a proibição de se comprar ouro junto a pessoas que não têm autorização para comercializar o metal, geralmente que chegam ao balcão de suas lojas oferecendo o produto.
É muito comum encontrarmos menores de idade sendo agenciados no comércio ilegal de ouro. Esta prática pode ser observada no Centro de Ipatinga, onde muitas pessoas andam com placas de compra-se ouro penduradas ao corpo”, lembra.
Segundo Sabino, muitas empresas se aproveitariam do preço muito abaixo do mercado para desmanchar as joias, fundi-las e, a partir daí, fabricar peças inteiramente novas.
Nós empresários temos que saber que, ao comprar um produto de origem duvidosa, podemos estar adquirindo um produto roubado. O cidadão comum também deve ficar alerta, pois quem compra um produto muito barato tem sua parcela de contribuição para que crimes como esses ocorram”, reforça.
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