19 de abril, de 2011 | 00:00

Dia do Índio é motivo de festa

Aldeia Pataxó receberá visitantes para mostrar um pouco da cultura da etnia

Wôlmer Ezequiel


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AÇUCENA - A comunidade da etnia Pataxó em Açucena é aberta a visitas de estudantes e pesquisadores com disponibilidade para diálogos, palestras e apresentações culturais. Para celebrar o Dia do Índio, nesta terça-feira, a aldeia Gerú Tucunã realizará festa durante todo o dia, com apresentações de danças e cantigas tradicionais, além de oferecer a degustação de pratos típicos da culinária indígena.
O evento é aberto a visitantes e interessados em conhecer um pouco mais dos primeiros habitantes das terras brasileiras. Para o índio Silipóia, vice-cacique da aldeia, esta é uma forma de fortalecer a cultura. “É uma forma de mostrar para o povo que nós estamos unidos e que temos a força dos nossos guerreiros”, ressaltou.
Para compor a caracterização típica da etnia, os índios começaram a pintura dos corpos na última quinta-feira. Com a utilização do barro amarelo, sementes de urucum e jenipapo, a confecção dos desenhos artísticos pode durar até 15 dias. Uma tradição que também precisa ser passada de geração a geração, para preservar a cultura pataxó.
Preconceito é obstáculo na formação educacional
Na aldeia Gerú Tucunã, a alfabetização é ministrada em duas pequenas salas com piso de chão batido, um pequeno quadro e algumas carteiras. É com esta estrutura que os pequenos aprendem sobre a cultura Pataxó. Sekuai, de 25 anos, uma das professoras da escola, conta que o ensino fundamental dos índios é composto basicamente pelas disciplinas de Arte e Cultura e Uso do Território. “Na Arte e Cultura, ensinamos sobre nossa língua, as danças, brincadeiras e a comida. E o Uso do Território é como se fosse à geografia, ensinamos sobre preservação da natureza, os animais e as plantas medicinais”, explicou. A professora, que também é sobrinha do cacique, é formada em Administração de Empresas. As noções de liderança e planejamento aprendidas na faculdade têm ajudado no processo de formação na aldeia, mas a discriminação também é lembrança viva deixada pela graduação. “As pessoas me perguntavam muito porque eu tinha deixado a aldeia pra estudar. Na verdade, eles não se conformavam que eu tivesse uma bolsa de estudos e estava ali concorrendo com eles. E não entendiam mais ainda como eu tirava boas notas”, relembra.
Wôlmer Ezequiel


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Durante o curso, as professoras utilizam, como plano de aula, os livros didáticos enviados pelo governo estadual. Um processo de formação que envolve duas culturas: as do índio e do branco. De acordo com Katinã, 22, que é outra professora de Magistério indígena, o método é na verdade um trabalho duplo, uma espécie de transição entre as duas línguas. “Meu trabalho é preparar eles tanto pra dentro da aldeia como para o mundo lá fora. Alfabetizar a criança dentro da realidade do índio, sem esquecer da cultura de fora”, concluiu.
Além de professora, Katinã é assistente social. Para ela, as crianças são as maiores vítimas do preconceito nas escolas dos brancos. E é necessário prepará-las para enfrentar esse problema. “As crianças terminam o estudo aqui e vão pra escola lá fora. Muitas vezes, por irem pintadas, usando um colar ou falar algumas palavras da nossa língua, são discriminadas. As pessoas acham que o que a criança aprendeu aqui não vale, acham que a nossa escola é inferior”, lamenta.
Na opinião de Katinã, por causa do preconceito muitos índios que se mudam para as grandes cidades, em busca de formação educacional, e não voltam mais para as aldeias. “Muitos índios, quando saem pra cursar faculdade, não voltam para a aldeia e procuram viver outra vida, porque eles não querem ver os filhos sofrerem a mesma discriminação”, contou.
Legalização da terra ainda é incerta
Foi por meio de uma negociação com o Instituto Estadual de Florestas (IEF) que o grupo da aldeia Gerú Tucunã chegou até as terras do Parque Florestal do Rio Corrente. A área, de preservação permanente, foi criada em 1998 pelo governo de Minas Gerais. O objetivo dos índios é transformar a área desmatada em reserva indígena, mas o antigo proprietário das terras move uma ação judicial na Justiça contra a desapropriação.
De acordo com o cacique Baiara, há um ano e sete meses o lugar foi prometido aos índios pelo IEF. Várias reuniões foram realizadas e eles já estavam trabalhando e conhecendo o local. Como a desapropriação ainda não estava acertada, a tribo decidiu pela ocupação forçada do lugar. “A gente queria vir no tempo legal, mas a nossa terra lá tava muito pequeninha, terra montanhosa com apenas 43 hectares de plantio para quase 400 pessoas” justificou.
Segundo a procuradora Federal da Funai em Governador Valadares, Caroline Marinho, as terras ainda pertencem à antiga Companhia Acesita. “Seria preciso primeiro a doação desse terreno ao Estado, e só então seria possível instituir a reserva indígena”, explicou. Para a procuradora, uma das alternativas seria arrumar outro local para a tribo, mas não existem terras disponíveis. “O que nós aconselhamos é à saída desses índios até a regularização de posse das terras”, concluiu. A falta de legalização impede investimentos para infraestrutura da comunidade, como a instalação de energia elétrica e melhoria das casas.
 
Luta pela preservação da etnia
 
Wôlmer Ezequiel


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Eles mudaram a forma primitiva como viviam, utilizam celulares para se comunicar, vivem em casas modestas, mas equipadas com televisores, geladeiras e outros eletrodomésticos. Fazem faculdade e também comem arroz e feijão diariamente. A tecnologia e a rotina do progresso fazem parte do cotidiano dos índios no Brasil, mas eles ainda buscam a preservação da sua cultura e continuam na luta pelo direito a um pedaço de terra suficiente, para o sustento de suas famílias. A cerca de 20 km do distrito de Felicina, no município de Açucena, uma comunidade Pataxó com 60 indígenas tenta conservar seus costumes e ensinar suas crianças a lidar com a dualidade da educação dos brancos e as raízes de uma tribo.
Originários de uma aldeia da região de Carmésia, a Aldeia Gerú Tucunã foi criada a partir da ocupação de uma fazenda, no Parque Florestal do Rio Corrente, em julho do ano passado. Catorze casas foram erguidas, onde atualmente vivem 19 famílias. Baiara, de 53 anos, é o cacique da aldeia. Com uma fala calma e um português ainda muito rústico, ele relata como as pessoas conhecem pouco os índios. “Hoje as pessoas só acreditam que existem índios no Amazonas e Rondônia. Temos 510 anos de massacre e espoliação, mas ainda estamos com a nossa cultura de pé, prontos para passar os costumes para os nossos filhos” defendeu.
Além de ser o líder da comunidade, Baiara também é responsável pelas questões burocráticas no processo de instituição da reserva indígena no local. Segundo ele, a chegada deles no parque florestal tem contribuído na preservação da floresta e na inibição de predadores. “Tinha muito caçador por aqui, mas aos poucos nós conseguimos afastar essa gente, porque tem poucos bichinhos e a gente que é índio não caça, mas vem outros de fora querendo caçar”, lamentou.
Rotina
Na tribo, cada família produz seu sustento e isso inclui o plantio de alimentos e a produção do artesanato. Para isso, as casas ficam distantes umas das outras para que os índios tenham espaço para trabalhar a agricultura. No processo de formação da nova aldeia, os pataxó plantam milho e feijão, parte da produção é vendida e a outra estocada para alimentação. Segundo o cacique, trocar a comida típica pelo arroz, feijão e o macarrão foi um processo difícil de adaptação, mas necessário devido à falta de terras para o plantio. “Foi difícil porque muitos velhos estavam acostumados a comer só a caça, a farinha e o beiju, demorou pelo menos cinco anos para acostumar” explica. Com a nova localização, o cacique espera retomar a produção de batata, peixe e macaxeira (mandioca) para trazer de volta os pratos típicos, considerados a base da alimentação indígena.
Para comercialização do artesanato, os índios viajam por várias regiões do Brasil entre as cidades de Belo Horizonte, Barretos e Natal. Conforme o índio Runiram, uma das peças mais vendidas é o xanu, uma espécie de prendedor de cabelo, cada um custa em média R$ 10. “O que também vende muito é a gamela (travessa feita de madeira) e os colares de semente” contou. A gamela chega a ser vendida por R$ 40 e os colares entre R$ 8 e R$ 10. (SM)
 
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