12 de maio, de 2011 | 00:01

Boato tira o sossego de famílias em sítio

Moradores de área rural enfrentam tormento após rumores sobre existência de pedras preciosas

Danúbia Mota


SÍTIO DO NECA MARTINS

FABRICIANO – Era uma vez um lugar sossegado, cercado por vegetação remanescente de Mata Atlântica, no pé da serra. Era assim, até pouco tempo, a situação do sítio do Neca Martins, no Córrego dos Camilos. A paz que o lugar respirava chegou ao fim por causa uma informação sem fundamentos. A área rural fica às margens da Estrada da Amizade, que liga Coronel Fabriciano a Ipatinga e pertence a uma família com 14 herdeiros. Alguns residem no local e receberam a reportagem do DIÁRIO DO AÇO, nesta quarta-feira (11), para relatar o tormento que passaram a viver. Tudo começou em fevereiro de 2011, após a disseminação de um boato sobre a existência, no terreno, de pedras preciosas e semipreciosas como água marinha, turmalina, quartzo, topázio, granada e minério de grafite.
Danúbia Mota


SÍTIO DO NECA MARTINS 2

Moradora antiga do lugar, Perpétua Martins de Carvalho Vieira, de 53 anos, relata que muitas pessoas estranhas passaram a circular pelas imediações de sua propriedade, sempre após às 22h. “Já ouvimos disparos de arma de fogo, pessoas se aproximam da nossa casa e batem na porta fora de hora e gritam coisas sobre as pedras preciosas. Os nossos cachorros latem a noite toda e já vimos pessoas nos fundos da nossa casa com lanternas acesas. Desde quando os boatos das pedras foram disseminados perdemos nosso sossego”, desabafou Perpétua.
Outra moradora, Eudóxia Joana Martins, 43 anos, relata que o medo tomou conta no local. “Não estamos dormindo à noite. A todo o momento ouvimos barulho de pessoas caminhando no mato, nos fundos de casa. Não recebemos mais visitas, porque vivemos com medo. Nossas vidas estão em risco”, contou Eudóxia.
Danúbia Mota


SÍTIO DO NECA MARTINS 3

Conforme o morador Joaquim Martins de Carvalho, 45 anos, há mais de 50 anos que sua família reside no local. “Nestes anos todos nunca vimos nada de pedras preciosas aqui. Há apenas uma pedreira nos fundos do quintal, em meio ao mato e bambu. E no terreno não tem água. A água que utilizamos é de cisterna”, disse Joaquim.
Britadeira
Um dos proprietários, Joaquim Martins, acrescentou que um joalheiro de Ipatinga foi levado ao sítio, andou por todos os lados e não viu vestígios de qualquer mineral precioso. “Ao fim da vistoria ele disse que a pedreira existente no sítio serve apenas para extrair brita, ótima para a construção civil”, acrescentou.
Conforme Perpétua Martins, apenas quatro herdeiros do sítio foram notificados pelo cartório, sobre a intenção de uma empresa em realizar uma pesquisa geológica no local. “Acontece que somos quatorze irmãos, e qualquer pessoa que desejar entrar em nossa propriedade para fazer estudos terá que fazer contato com o advogado da família que está cuidando do inventário”, falou Perpétua.
Pomar
A moradora Mariana Malaquias Martins, 43 anos, disse que sempre capinou e fez a limpeza do pomar plantado pela família e nunca encontrou nada além de bichos na terra. Mariana desconfia que o propósito da disseminação do boato sobre pedras preciosas na propriedade poderia envolver um sobrinho que, segundo avalia, tem a intenção de tomar as terras dos herdeiros. Com a confusão criada, os parentes seriam estimulados a sair da área para evitar o tormento com os especuladores.
Advogado admite que apenas “ouviu dizer”
O advogado Cezar Romero Vieira Lhamas, que trabalha com legalizações ambientais de garimpos há mais de oito anos, é quem está à frente da pesquisa. “Tenho amostras encontradas naquela região. Sempre ouvimos dizer que a região tem um subsolo rico. É por isso que solicitei a pesquisa. O sítio do Neca Martins serve de referência para identificar a região. Não afirmamos, hora alguma, que na propriedade dele há reservas minerais de pedras preciosas”, explicou.
O advogado conta que, sabendo disso, solicitou ao Departamento Nacional de Pesquisa Mineral (DNPM) o registro do subsolo e foi emitido alvará de pesquisa para toda a área de 711 hectares, que vai do alto da Usipa até a divisa da estrada da Amizade. “Estamos observando essa área há um ano e meio, e todos nós acreditamos que se trata de uma grande jazida” disse Cezar.
De acordo com o advogado, o cartório fez cerca de dez notificações a alguns proprietários de que há o interesse em pesquisar o local. “Informamos que temos direito à pesquisa. E apenas uma pessoa me respondeu que não tem interesse em nos deixar entrar na área dele. Os demais não se manifestaram até o momento. Queremos fazer tudo dentro da lei”, garante.
Cezar esclareceu que, após a notificação aos proprietários, ele solicitou ao Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) autorização para realizar uma sondagem e verificar o que realmente há na área. Segundo Cezar, o trabalho de prospecção terá início na próxima semana, por uma empresa de Belo Horizonte, já contratada.
Após o trabalho de sondagem a intenção do advogado é solicitar o alvará para Lavra de Pedras Preciosas e explorar o local. Informado sobre o tormento que os moradores passaram a enfrentar após a divulgação de sua proposta, Cezar disse não ter interesse em causar prejuízos aos moradores. “Defendo a preservação ambiental e a exploração de forma regular, caso se confirme a existência de pedras preciosas no local”, contou o advogado.
 
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