16 de outubro, de 2011 | 00:06
"Foi um ataque selvagem e metódico"
Novos depoimentos revelam como ipabenses podem ter matado família brasileira em Omaha, EUA
DA REDAÇÃO O juiz distrital Thomas Otepka decidiu que o ipabense José Carlos Oliveira Coutinho, de 37 anos, deverá ser julgado sob três acusações de assassinato em primeiro grau, ocorrido em 17 de dezembro de 2009 em Omaha, estado de Nebraska, nos Estados Unidos.
Outro ipabense, Valdeir Gonçalves, também está preso, acusado de co-autoria no crime e um terceiro, Elias Lourenço, está no Brasil, após ter sido extraditado em abril deste ano por falta de provas que o ligassem ao crime de triplo homicídio do patrão deles, Vanderlei Szczepanik, a mulher dele, Jaqueline ambos de 43 anos - e o filho Cristopher, de 7 anos. A família era de Santa Catarina e estava nos EUA em missão, pela Igreja Assembleia de Deus.
Se condenado, como sugere o juiz Thomas Otepka, José Carlos Oliveira Coutinho pode pegar a pena de prisão perpétua ou a pena de morte. O caso Szczepanik passou por uma reviravolta. Em agosto, enquanto era julgado, Valdeir decidiu confessar o crime e a participação dos dois colegas depois de ouvir sua mulher, Wanderlúcia Oliveira de Paiva, contar no tribunal que tinha ouvido do marido a confissão da morte da família.
Valdeir estava prestes a ser absolvido da acusação de triplo homicídio qualificado. Chegou a ter pedida a pena de morte pela promotoria. Para confessar, ele fez um acordo para pegar 20 anos de prisão. Conforme o combinado, ficaria apenas 10 anos na cadeia, e cumpriria o restante na condicional. Além de Vanderlúcia, a mulher de José Carlos, Patrícia Oliveira, também está nos EUA, como testemunha de acusação do marido.
Execução
Em uma audiência na Corte, quinta-feira (13), foi apresentado novo relatório dos investigadores sobre o caso. Segundo o documento, foi um ataque selvagem e metódico em que três homens pularam no pescoço do chefe, Vanderlei Szczepanik, espancando-o até à morte com um taco de beisebol”.
Ainda segundo o relatório, a mulher da vítima, Jaqueline Szczepanik, viu o marido ser morto e teve que esperar dentro de um quarto, onde foi trancada com o filho, a hora em que eles tiveram o mesmo destino. O jornal Omaha World Herald publicou que o relatório apresentado ao juiz causou forte impacto, acompanhado por dezenas de espectadores assustados”.
De acordo com a investigação, antes de matar Jaqueline e Christopher, José Carlos teria pedido que a mulher preenchesse três cheques e exigiu seus cartões de crédito e senhas. Logo depois, Oliveira e Gonçalves foram a um posto de gasolina onde há um caixa eletrônico de banco e retirou US$ 300 dólares. Definiram o ponto do rio Missouri onde jogariam os corpos, voltaram para a escola em reforma e mataram mãe e filho por enforcamento, jogando um a um por uma escada com a ponta da corta amarrada no alto.
Uma das partes mais insólitas do relatório indica que o menino, Cristopher, não morreu após ter sido jogado na escada com a corda no pescoço, várias vezes. Ele ficou apenas inconsciente. Segundo Valdeir, a criança morreu no trajeto, jogada sobre os corpos dos pais, na traseira de uma van, usada para o traslado entre o local do crime e o trecho do rio onde os cadáveres foram jogados.
Os corpos foram abertos para que não flutuassem e lançados ao leito do rio em meio a uma tempestade de neve. O relatório difere de uma versão anterior, segundo a qual as vítimas foram esquartejadas e colocadas em sacos plásticos com pedras antes de serem jogadas no rio.
Motivação
O atual relatório mantém a versão que José Carlos Oliveira Coutinho há muito tempo reclamava de Vanderlei, por quem nutriu um ódio mortal. O empreiteiro chegou a demiti-lo para, em seguida, recontratá-lo com um corte significativo de salário.
Para a promotoria, José Carlos aproveitou-se do fato de ter emprestado a Valdeir Gonçalves e Elias Lourenço mais US$ 20 mil para pagar aos coiotes que os levaram ilegalmente aos Estados Unidos, para convencê-los a praticar o crime. A primeira grande obra em que os ipabenses atuaram para Vanderlei foi a reforma da Escola Paulo VI, transformada em um centro de treinamento missionário para a Igreja Assembleia de Deus na Flórida. Foi a igreja que enviou a família caratinense Szczepanik para Omaha. Nesse centro, ficava a residência onde a família foi morta.
Defesa
Nomeados pelo tribunal para a defesa de José Carlos Oliveira, os advogados Horácio Wheelock e Todd Lancaster, argumentam que os promotores de Justiça que atuam no caso têm pouca coisa para corroborar a história contada por Valdeir Gonçalves. Não existem corpos nem armas do crime. Wheelock sugere que Gonçalves é o mentor dessa história e que ele mente para beneficiar-se de um acordo para escapar da pena de morte. Já o promotor John Alagaban disse estar seguro que a família brasileira foi massacrada pelas mãos dos três compatriotas.
MP quer extradição de ipabense
Embora o Brasil não mantenha com os Estados Unidos um acordo bilateral para extradição de cidadãos que cometem crimes em algum de seus territórios, o Ministério Público confirma que tenta extraditar o ipabense Elias Lourenço Batista que, desde abril último, está no Brasil.
O trunfo que os promotores estadunidenses vão utilizar junto ao Ministério das Relações Exteriores é que esse é um caso diferente, por envolver brasileiros que mataram compatriotas em solo estrangeiro.
O Itamaraty ainda não recebeu oficialmente qualquer solicitação neste sentido, do MP de Nebraska. Entretanto, a assessoria informou ao DIÁRIO DO AÇO que a resposta ao jornal depende de uma avaliação do corpo diplomático, sobre a existência ou não de jurisprudência formada em caso parecido.
Intérprete
O brasileiro João de Brito, que mora em Omaha e atua como tradutor das ipabenses, conta que Patrícia e Wanderlúcia não podem dar entrevistas, porque estão sob proteção do Estado.
Elas estão em uma casa simples, com uma bolsa mensal paga pelo governo dos Estados Unidos para as testemunhas. Brito também conversa sempre com a filha de Jaqueline, a catarinense Tatiane Klein, que acompanha, desde 2009, as investigações sobre o desaparecimento de sua família.
Para mim foi muito difícil, pois conheci a família Szczepanik quando era diretor e professor de um programa de reforço escolar por meio de artes, da qual o pequeno Christopher era aluno”, escreve João de Brito.
Elias foi deportado para o Brasil por causa do que agora é considerado um erro dos promotores. Como não tinham provas do envolvimento dele no desaparecimento da família, mesmo depois de decidirem pelo indiciamento de Valdeir no triplo homicídio, tomaram essa decisão. Naquela época José Carlos só foi mantido preso porque pesava contra ele a suspeita de uso dos cartões de crédito da família desaparecida.
No entanto, a partir de agosto, quando Valdeir confessou o crime e indicou a participação dos conterrâneos, a promotoria passou a entender que não deveria ter deportado Elias Lourenço.
O QUE JÁ FOI PUBLICADO SOBRE O ASSUNTO:
Julgamento de ipabenses será retomado somente ano que vem - 30/08/2011
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