21 de outubro, de 2011 | 00:00
Tem muita gordura para queimar”
Economista do Dieese defende aumentos reais para 2012 no setor siderúrgico
IPATINGA - Diante da iminência de retração do mercado siderúrgico mundial, devido à crise econômica, a pauta de reivindicações das campanhas salariais dos principais sindicatos metalúrgicos de Minas Gerais parece ignorar o contexto atual que o mercado atravessa.Aumento real de 10%, correção da perda salarial com a inflação medida pelo Índice Nacional Preços ao Consumidor (acumulado em aproximadamente 7%) e pagamento de abonos são algumas das reivindicações. Procurada pela reportagem para comentar o assunto, a economista do Dieese, Regina Coeli Moreira, defende que as empresas têm condições de arcar com estes benefícios.
DIÁRIO DO AÇO - Diante do cenário econômico atual, quais devem ser as expectativas das campanhas salariais neste último trimestre de 2011?
REGINA COELI MOREIRA - É provável que os ganhos reais sejam menores, principalmente para as categorias que não conseguirem fazer boas mobilizações.
DA - Especificamente sobre a indústria siderúrgica, com suas particularidades de mercado, as dificuldades tendem a ser maiores no atendimento da pauta de reivindicações?
REGINA COELI - Não se pode fazer generalizações sobre toda a indústria siderúrgica, mas de fato o setor está passando por um processo mundial de reorganização, em função da entrada da China no mercado produtor. Somem-se a isso dificuldades enfrentadas localmente pelas empresas, como a Usiminas, que está passando por problemas de ordem administrativa. Isso pode afetar as negociações em algumas empresas do setor.
DA - Dentre os principais pontos pleiteados pelos trabalhadores, destacam-se a correção salarial de acordo com o INPC, aumento real de 10% somado ao pagamento de abono. Essas reivindicações não seriam inviáveis diante da crise econômica mundial?
REGINA COELI - As reivindicações não são inviáveis, pois as empresas obtiveram lucros altíssimos nos últimos 5 anos e têm muita "gordura" para queimar. Além do mais, o mercado interno ainda está aquecido e elas podem continuar ganhando nos próximos anos, mesmo que esses ganhos não sejam tão espetaculares quanto os obtidos no passado. Mesmo que a economia brasileira cresça num ritmo menos intenso nos próximos 3 anos, a perspectiva é continuar crescendo.
DA - Existe uma política intersindical em unificar a pauta das campanhas salariais? Isso não descaracteriza as particularidades de cada empresa, em seus respectivos mercados?
REGINA COELI - As campanhas salariais unificadas são feitas por categorias de âmbito nacional ou regional, como bancários, metalúrgicos e petroleiros. Mas isso não impede que cada sindicato negocie caso a caso. A decisão final cabe ao sindicato e aos trabalhadores de cada empresa.
DA - Em 2010, a expansão do setor siderúrgico foi 13,9% e, em 2011, a expectativa é bem mais modesta: 5,9%. Isso não endossa a preocupação da indústria, em frear investimentos e cortar despesas, aí incluídos os gastos com pessoal?
REGINA COELI - Sempre que se fala em corte de despesas a primeira medida é o corte de salários e de pessoal. O empresário brasileiro precisa mudar sua lógica e pensar que a manutenção de investimentos salários e empregos produz um círculo virtuoso que vai acabar beneficiando os seus negócios, no médio prazo. A visão do empresário brasileiro é de curto prazo, tacanha, herdada de uma concepção familiar. O empresário inovador corre o risco do negócio, ousa e cria soluções inusitadas num cenário adverso. E demitir trabalhadores e cortar salários é um tiro no pé do próprio empresário, pois o trabalhador é um consumidor potencial, já dizia Henry Ford.
Sindicatos unificam propostas
O Sindicato dos Metalúrgicos de Ipatinga (Sindipa) pleiteia 10% de aumento real para cerca de 25 mil trabalhadores da sua base. A pauta de reivindicações da campanha salarial 2011/2012 estipula ainda a correção das perdas salariais com a inflação, medida pelo Índice Nacional de Preço ao Consumidor (INPC), acumulado em aproximadamente 7%, abono e um piso salarial inicial de R$ 1,8 mil. A pauta foi aprovada por cerca de seis mil metalúrgicos e encaminhada às empresas Usiminas, Usiminas Mecânica, Unigal, Usiroll e empreiteiras.
Já encaminhamos nossas reivindicações. Agora aguardamos o retorno da outra parte. Nossa expectativa é a melhor possível. Vamos lutar para alcançar o máximo de benefícios possíveis aos trabalhadores”, declarou, confiante, o presidente do Sindipa, Luiz Carlos Miranda. Os principais pontos da campanha salarial dos metalúrgicos de Ipatinga pouco diferem das demandas apresentadas por colegas de Timóteo e Coronel Fabriciano.
No mesmo sentido, sindicatos metalúrgicos espalhados por Minas Gerais também parecem unificar suas pautas de reivindicações. De acordo com a Federação Estadual dos Metalúrgicos, a pauta conjunta pela campanha salarial determina abono, valorização do piso salarial, redução da jornada para 40 horas semanais sem redução de salário, saúde e segurança, avanços das cláusulas sociais e organização por local de trabalho.
Consignado
O Sindipa defende também o retorno dos empréstimos consignados. Essa prática foi desautorizada pela Usiminas. Queremos que retorne para poder garantir esse direito aos trabalhadores”, pontua Luiz Carlos Miranda. A data base da campanha salarial do Sindipa é no dia 1º de novembro deste ano.
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