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08 de janeiro, de 2012 | 00:00

“Deixa eu dar uma bola; depois eu te conto a minha história”

Usuários de crack ocupam Centro de Ipatinga sem qualquer constrangimento

Bruno Soares


Carol

IPATINGA – Sem esboçar qualquer tipo de receio ou constrangimento, dezenas de usuários de crack se apropriaram de pontos do Centro de Ipatinga para consumir e comercializar porções da droga. A ação realizada na “cracolândia paulista” e que chamou a atenção do mundo é uma situação constatada em outras capitais, no interior e até na zona rural de muitos municípios; o consumo de crack se transformou em uma pandemia.
O DIÁRIO DO AÇO, ao percorrer na tarde de sexta-feira (6) trechos das ruas Araxá, Diamantina e Sabará, constatou que o tráfico e consumo do entorpecente ocorre à luz do dia, sem qualquer constrangimento. Geralmente reunidos em pequenos grupos, os viciados impuseram uma mudança na rotina no centro comercial do município, o que tem exigido um maior cuidado de comerciantes e transeuntes.
“Senta aí. Deixa eu dar uma bola que depois eu te conto toda a minha história”, relatou a jovem Carolina Ribeiro, de 25 anos, ao ser abordada pela reportagem enquanto fumava pedras de crack em um cachimbo improvisado. O preparo da droga era feito na calçada de uma rua do Centro, por volta das 16h.
Enquanto Carolina autorizou ser fotografada, outros viciados observavam com apreensão a atitude da garota ao expor seu vício. “Meu único sonho é voltar a ser gente. Poder entrar em um bar e não ser humilhada. Ter condições de comprar uma roupa. Conseguir dormir uma noite inteira e me sentir limpa”, desabafava, entre uma puxada e outra de fumaça.
Com a aparência desgastada e as mãos trêmulas, a jovem se emocionou ao comentar a expectativa de um dia conseguir se livrar da dependência química. “Eu não estou nesse mundo porque eu quero. Não é vagabundice. Sou uma pessoa desgraçada pela droga e que tem muita vontade de mudar de vida. Não consegui ainda.
Preciso de ajuda, mas não tenho ninguém. Enquanto isso, essa pedra é a única coisa que me proporciona algum tipo de prazer. O problema é quando ela acaba”, revela.
Bruno Soares


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“Inferno”
Para sustentar o vício, Carolina disse que realiza programas amorosos ou qualquer outro tipo de atividade que renda algum dinheiro. “Não importa o que for preciso. Se tiver que roubar, você rouba. Na hora mesmo, você se prostitui por uma pedrinha de nada. O desejo de fumar isso aqui é muito grande.
Só quem conhece entende o motivo de tantas pessoas estarem nesse inferno”, avalia a usuária. Quando a jovem começou a contar a história de sua família e os motivos que a levaram a viver na rua, uma mulher que aparentava certa liderança entre os viciados gritou, ordenando a Carolina que se calasse.
De imediato, três usuários passaram com muita pressa na frente da jovem. Em seguida, a entrevistada deixou o local e acompanhou os outros dependentes. Eles seguiram em direção à rua Araxá, antigo Juá.
“Animais”
“Eu preciso ir ali. Depois a gente conversa mais. Se não for agora, o bicho pega pra mim”, justificou a garota. A reportagem acompanhou o grupo de longe até que perdê-lo de vista. Entretanto, na esquina da rua Diamantina, próximo à Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL), outra cena chamou a atenção naquela tarde.
Uma senhora com um cachimbo na mão tinha em seu colo um jovem desacordado nos braços. Questionada se era usuária de crack, ela negou e se desvencilhou rapidamente do colega. “Não uso nada. Quanto a esse cara, ele passou mal. Não precisa chamar médico. Daqui a pouco ele acorda”, pedia a mulher, que demonstrava nervosismo com a situação.
Ao redor do homem deitado no chão, como se estivesse morto, as pessoas que passavam pelo local e ignoravam a cena. “Isso é normal. Todo dia acontece alguma coisa desse tipo com um deles. Já nos acostumamos a ver essas pessoas como se fossem animais. É triste, mas não temos condições de fazer nada. Já tenho meus próprios problemas pra cuidar”, resumiu um comerciante das imediações, que pediu anonimato.
 
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