11 de janeiro, de 2012 | 00:00
A abstinência é vencida dia após dia”
Dependente químico relata desafios para se manter longe das drogas e evitar recaídas
IPATINGA Nos primeiros instantes você sente um prazer absolutamente incomparável. Logo em seguida, quando a fumaça é expirada, surge a necessidade de sentir esse mesmo prazer mais uma vez. É nessa expectativa que nasce a dependência química responsável por extirpar a vida de milhões de pessoas em decorrência do consumo do crack”. A explicação é do pintor letrista Durval Roberto de Almeida sobre o que acontece com o usuário da droga, um subproduto da cocaína.
Segundo o Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Pscicotrópicas (Cebrid), logo após ser tragado, o crack é instantaneamente absorvido pelos pulmões. Em seguida, a substância é lançada na corrente sanguínea e demora de 10 a 15 segundos para inundar o cérebro com dopamina, o neurotransmissor relacionado às sensações de prazer e motivação.
Os momentos seguintes são sempre marcados por uma enorme fissura para que todo o processo seja repetido. Não tem fim. Enquanto você tiver a droga na sua mão, você irá queimá-la. O que importa naquela hora é saciar o desejo por um prazer que nunca mais vai voltar”, resume o pintor que está internado pela terceira vez em uma clínica de reabilitação em Ipatinga para tentar conseguir manter-se livre das drogas. Natural de Governador Valadares, Durval recebeu o DIÁRIO DO AÇO na tarde de ontem (10) para comentar os principais desafios enfrentados por ele ao longo dos últimos 29 anos em que esteve envolvido com entorpecentes.
Minha história é comum à maioria quase absoluta dos dependentes químicos. Comecei aos 14 anos com cigarro e álcool. Em seguida veio a maconha e depois, por volta dos 20 anos, o vício na cocaína. Conheci o crack quando tinha 35 anos. De lá para cá minha vida se tornou uma sucessão de tragédias”, indica o pintor.
Filho de uma família de classe média, Durval revelou que não lhe faltaram oportunidades para que tivesse uma vida diferente da que tem hoje. Eu estudei em bons colégios. Tive boa educação. O que aconteceu comigo é que sou uma pessoa doente. E isso é uma verdade comprovada pela medicina. O tratamento disso é a abstinência, nada mais”, simplifica.
Questionado sobre o período em que está sem usar crack, Durval respondeu sem demonstrar muito orgulho. Estou há pouco mais de um ano. Mas para mim isso não importa. Aliás, o tempo que um dependente está sem droga é algo absolutamente irrelevante. Nossa vitória é conquistada dia após dia. Por hoje, eu estou limpo”, frisa o dependente químico.
Enquanto foi usuário, Durval afirmou que vendeu de tudo o que tinha para conseguir manter o vício. Aquela mesma história que todo mundo já sabe. A gente vende botijão de gás da própria casa, rouba as joias da mulher, enfim... Não há limites. A única coisa que importa é conseguir mais uma porção da droga”, detalha.
Motivação
Para Durval de Almeida, o apoio da família é a principal força que um dependente tem na hora de enfrentar seu vício. Sem o apoio de pessoas que te amam, dificilmente alguém consegue reunir condições para enfrentar algo tão forte. É uma dependência química, psíquica e física. Todo o amor possível é fundamental para que a abstinência seja alcançada e mantida”, declara. Neste papel está a esposa de Durval.
Casado há 25 anos com o dependente, Márcia Aparecida Fernandes Almeida conversou por telefone com a reportagem. O meu marido quando está sóbrio é uma pessoa maravilhosa. Infelizmente a droga tem esse poder de mudar completamente a pessoa. Nunca desisti dele, por mais dificuldade que já enfrentamos nestes anos, eu acredito que com força de vontade e o amor da família tudo é possível. E tenho fé que desta vez ele se manterá limpo”, finalizou de Governador Valadares a esposa de Durval.
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