24 de fevereiro, de 2012 | 19:36
Crítica ácida há 32 anos
Dirigente de polêmico bloco caricato em Timóteo reclama de perseguição por causa da crítica que destila contra o governo e a sociedade
Com correções em 26/02/2012
TIMÓTEO - O nome não poderia ser outro: Tem Nada a Ver”. Há 32 anos, um grupo de pessoas se reúne para organizar o desfile do tradicional bloco carnavalesco. Os efeitos colaterais do desfile já são esperados: cara feia, retaliações e, não raro, perseguições. Mas não é para menos. Censura é um termo ignorado pelos integrantes do bloco que, no lugar da marcha de Carnaval, usa uma marcha fúnebre e, no lugar das fantasias carnavalescas, usa o preto do luto. Os integrantes do bloco não têm papas na língua”.
No lugar dos carros alegóricos, faixas e cartazes. As frases escritas com tinta branca sobre fundo preto são verdadeiras lanças afiadas. E soltam centelhas que não perdoam ninguém. Do padre ao prefeito, do vereador ao empresário, todos os que de alguma forma estão no foco da vida pública podem sair chamuscados.
E não foi diferente no Carnaval 2012. O prefeito Sérgio Mendes foi um dos alvos das faixas do desfile do Tem Nada a Ver”, repetindo uma tradição dos tempos de Leonardo Rodrigues Lelé da Cunha, um dos nomes preferidos do bloco caricato, depois o prefeito Geraldo Nascimento, posteriormente Anchieta Poggiali e o médico Geraldo Hilário Torres.
Este ano, sobrou também para os aliados do atual governo, como o deputado estadual Celinho do Sinttrocel, secretários municipais, além do vice-prefeito Marcelo Afonso. Todos foram incluídos no rol das alfinetadas. O desfile do bloco este ano ocorreu nas primeiras horas da manhã de sábado. Os organizadores reclamam do horário. O desfile estava previsto para a meia-noite, mas só saiu às 2h da madrugada.
Com o tema Em terra de laranja, até urubu se arranja”, o bloco colocou na avenida cerca de 60 integrantes. Ao som da Marchinha do Laranja”, que quebrou a tradição do rito fúnebre, o bloco foi aplaudido de pé pelo público que teimou em permanecer na arquibancada.
Na opinião dos organizadores, o atraso dos desfiles dos blocos foi uma estratégia adotada pela organização do Carnaval para que poucas pessoas pudessem assistir ao desfile do bloco Tem Nada a Ver” com sua crítica causticante. Reclamaram também que as informações sobre o bloco não foram repassadas pela assessoria do governo para a imprensa. Os próprios integrantes trataram de encaminhar o material para a redação. Fizemos sucesso, mas não constamos nem das fotos de divulgação que foram distribuídas para a imprensa. Ou seja, somos invisíveis para o governo”, avaliam os integrantes.
Diante da polêmica, no fim da tarde de sexta-feira a reportagem ouviu um dos idealizadores do bloco. O artista plástico Oribes Cabral disse que a situação sempre foi de confrontação, pois transgredir as normas pressupõe mesmo não ser bem-visto, principalmente por quem é criticado. Numa rápida entrevista, ele fala da situação do Tem Nada a Ver e admite que o bloco pode acabar, de tanta polêmica:
Como vocês lidam com essa pressão?
Oribes Cabral - Este ano foi como em todos os outros. Sofremos muita pressão. Alguns dos nossos integrantes chegaram até a sofrer ameaças. Não sei até quando vamos aguentar isso mais.
Como são as ameaças?
Cabral - As pessoas costumam levar para o lado pessoal e nos xingam, mesmo após o Carnaval. A cidade é muito politizada e os partidários, defensores principalmente dos políticos, não gostam.
Como o bloco conseguiu permanecer nas ruas nesses 32 anos?
Cabral - Tem uma coisa que as pessoas precisam entender. Quem promove o Carnaval são os organizadores dos blocos e os dirigentes das escolas de samba. A prefeitura apenas apoia. Na prática, faz muito pouco. As pessoas é que fazem o Carnaval acontecer. E assim tem sido com o Tem Nada a Ver.
E o bloco vai sobreviver até quando?
Cabral Francamente, não sei. Pela pressão, entendo que esse bloco está morrendo. As pessoas, o público nas arquibancadas, nos aplaudem, mas as dificuldades são cada vez maiores. Eu já tinha desistido este ano, quando muita gente foi me buscar e pedir que voltássemos para a rua. E assim o fizemos, apesar de tudo.
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