17 de abril, de 2012 | 00:05

Bando preparava as mortes de juíza e advogado de Ipatinga

Magistrada ameaçada pelo crime organizado será transferida de Ipatinga nos próximos dias

Alex Ferreira


Adao dos Anjos

IPATINGA – No fim deste mês de abril ou início de maio, a juíza da Vara de Execuções Penais da Comarca de Ipatinga, Marli Braga Andrade, deverá ser transferida para a capital mineira. A decisão não será uma promoção, tampouco uma solicitação espontânea da própria magistrada. Será por questões de segurança. A juíza, ameaçada de morte pelo crime organizado, poderia sofrer um atentado, intimidação que incluía seus familiares.
A informação transita nos bastidores do Judiciário há pelo menos 30 dias. Um relatório do serviço de inteligência da Penitenciária Dênio Moreira de Carvalho (PDMC), em Ipaba, revela os bastidores das ameaças que, além da juíza, foram feitas contra um advogado que atua na defesa de criminosos.
A juiza Marli Braga Andrade, orientada pelo Centro de Segurança Institucional (Cesi), tem evitado falar sobre o assunto. Ela apenas confirma que, no fim deste mês ou início de maio, será mesmo removida para outra comarca. Por telefone, a juíza afirmou que lamenta essa situação. “Gosto muito do meu trabalho, mas tenho de gostar da minha vida”, resumiu Marli Braga Andrade.
Ao contrário de algumas instâncias que tratam do assunto com muitas reservas, na penitenciária de Ipaba, o diretor Adão dos Anjos é claro e objetivo ao falar do caso.
Na tarde dessa segunda-feira, o diretor recebeu a reportagem em sua sala, no complexo penitenciário, e mostrou um relatório com todo o histórico da situação que há muito incomoda os bastidores forenses. 
Conforme Adão dos Anjos, tudo começou em 7 de fevereiro deste ano, quando a diretoria da penitenciária recebeu uma informação anônima, dando conta que três sentenciados planejavam um atentado contra a juíza, sua filha e contra um advogado. O trio havia acabado de chegar à penitenciária, transferido do presídio Nelson Hungria, em Contagem.
A ordem para matar o advogado e a juíza teria partido de outro presidiário, conhecido como Fubá. “Esse é um homem perspicaz no crime organizado. Um sujeito estrategista que comanda o tráfico de drogas e manda matar quem atravessa o seu caminho. Esses presos transferidos aqui para Ipaba eram ‘soldados’ dele e chegaram com propósitos bem definidos. Eles tinham uma lista de cinco presos, por estupro, que seriam assassinados aqui dentro. Era para causar instabilidade interna. Na esteira dessa ação, queriam matar o advogado que foi à Nelson Hungria cobrar de Fubá o pagamento de honorários.
Já em relação à juiza, apuramos que eles estavam insatisfeitos com as decisões que ela, muito acertadamente, tomava à frente da Vara de Execuções Penais. Uma injustiça, pois a doutora Marli é sempre ponderada e apenas cumpre o seu dever constitucional na aplicação da Lei de Execuções Penais”, detalhou o diretor.
Ainda segundo Adão dos Anjos, toda denúncia que chega à diretoria do presídio precisa ser apurada. Em fevereiro, quando chegaram os rumores do planejamento das mortes, o serviço de inteligência da penitenciária entrou em ação.
“Para nossa surpresa, descobrimos que eles queriam ‘virar’ a cadeia, que na gíria deles é a tomada do controle da unidade prisional. Além disso, planejavam esses atentados contra pessoas, o que nós desarticulamos”, acrescentou o diretor Adão dos Anjos. A maioria dos criminosos, explica o diretor, tem condenações por crimes como tráfico de drogas, roubo à mão armada e homicídio.

Alex Ferreira


Adao dos anjos PDMC

Planejamento
Há doze anos à frente da Penitenciária Dênio Moreira de Carvalho, em Ipaba, e com quase 20 anos de experiência como policial militar, o tenente Adão dos Anjos fala com autoridade sobre uma situação com a qual convive há 32 anos. Ele já perdeu a conta das vezes que encaminhou à Corregedoria denúncias apuradas contra agentes penitenciários com desvio de conduta, bem como a apuração da ação do crime organizado dentro do presídio.
“Não podemos dizer que essa situação é atípica. Quem convive com esse mundo sabe que isso é uma situação que enfrentamos reiteradas vezes. Eu mesmo já fui ameaçado. Vivem fazendo ameaças contra a nossa família. O que fazemos é apurar a origem da ameaça e, na conclusão, transferimos os envolvidos para lugares diferentes. Com isso, eles são desarticulados”, explica.
Foi essa, também, a iniciativa adotada na apuração das ameaças contra a juíza e o advogado ipatinguenses. O relatório da apuração mostra que dez presos tinham se associado aos três ‘soldados’ de Fubá, dentro da PDMC, para praticar os crimes. Todos já foram transferidos para outros lugares.
“Eles já tinham mapeado a rotina da magistrada. Sabiam, inclusive, que ela fazia caminhadas no Parque Ipanema. Também soubemos que um celular, repassado para o interior da penitenciária, tinha uma foto da filha da juíza. A jovem também era alvo dos criminosos”, informa o diretor.
Já em relação ao caso que envolve a ameaça de morte ao advogado, o diretor Adão dos Anjos disse não ter dúvidas de que a cobrança da dívida pelos serviços prestados foi determinante para que Fubá mandasse articular sua morte. “Eu já falei para esse advogado, conhecido nosso, que esse é o preço que se paga por trabalharmos com pessoas que estão nesse mundo do crime”, admite.

Insatisfação
O diretor da PDMC, Adão dos Anjos, conta que, atualmente, há cerca de 600 presos no cumprimento de pena na PDMC. Desse total, o diretor avalia que 550 trabalham ou estudam e apresentam bom comportamento. Outros 50 estão classificados como aqueles que não querem contribuir com o sistema de funcionamento da unidade prisional.
“A maioria desse grupo é de recém-chegados. Eles demoram até seis meses para enquadrar o padrão de comportamento adequado. Até chegar a essa situação eles fazem tudo, até tentar ‘virar’ a cadeia e ameaças a pessoas”, assinala. Diariamente, uma média de dois presos consegue alvará de soltura As suas vagas são imediatamente preenchidas por novatos.
Questionado se considera de fato desarticulado o planejamento para a morte da juíza e do advogado ipatinguenses, Adão dos Anjos disse que, no âmbito da PDMC, a situação está resolvida. “Mas não podemos afirmar, categoricamente, que fora daqui essa situação está resolvida. O Fubá, bem como outro preso, Nego Drama, são ardilosos. A única forma de neutralizá-los é colocá-los no Regime Disciplinar Diferenciado. Em resumo, a situação exige um trabalho continuado do serviço de inteligência dos presídios, das polícias Civil e Militar, e medidas de proteção para quem está ameaçado”, conclui o diretor da Dênio Moreira.
 
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