13 de maio, de 2012 | 00:15
Febre hemorrágica pode ser causa de mortes no Ceresp
Presos e funcionários são medicados por causa de surto de doença desconhecida; resultado final deve sair em sete dias
Com correção
IPATINGA Duas detentas morreram e 20 pessoas, entre agentes e presos, passaram pelo Hospital Municipal de Ipatinga esse é o saldo, até a tarde de ontem, que o surto de uma doença ainda desconhecida provocou na ala feminina do Centro de Remanejamento do Sistema Prisional (Ceresp), e que se espalhou pelo presídio. Do total de atendimentos, duas pessoas continuam sob observação médica, segundo balanço a que o DIÁRIO DO AÇO teve acesso hoje.
Por causa do surto, a ala feminina do presídio de Ipatinga está com as visitas suspensas. Os demais setores estão liberados. Cerca de 500 detentos e todos os servidores do centro receberam medicamentos contra as duas doenças.
A principal hipótese levantada no momento é de febre hemorrágica, mas ainda é investigada por meio de exames a doença que levou ao quadro. Uma equipe da Fundação Ezequiel Dias (Funed) ficou de plantão neste sábado (12), exclusivamente para realização de exames de amostras coletadas de pacientes que apresentaram os sintomas da doença (febre, vômito, pressão baixa e prostração).
Os exames para hepatites viriais A e B deram resultados negativos. Já os exames de cultura do sangue (hemocultura) encontram-se em andamento. Neste caso, o resultado pode demorar até 7 dias.
No início da noite de ontem, a SES emitiu nota oficial esclarecendo sobre a investigação sobre a causa das mortes. De acordo com a nota, a principal suspeita é febre hemorrágica, que pode ser causada por diversos tipos de vírus. Por isso, estão sendo feitos exames para febre amarela, dengue e hantavirose”, afirma a nota.
Ainda de acordo com o documento essas suspeitas se devem ao fato de agentes municipais de saúde terem encontrado próximo a uma caixa d'água, na entrada do presídio, o corpo de um gato. Por isso, as suspeitas principais são de doenças transmitidas pelos ratos, como a Leptospirose e Hantavirose.
Coleta
Foram coletadas também amostras de alimentos e água que são servidos aos detentos do Ceresp, as quais serão submetidas a exames com o objetivo de identificar quais são os agentes contaminantes. Agentes da Vigilância Sanitária também farão inspeção para avaliação do restaurante que fornece alimentos para o Ceresp.
Uma equipe médica, vinda de Belo Horizonte, chefiada por uma infectologista da Secretaria de Estado de Saúde, atuou no caso desde a noite de sexta-feira, com a missão de identificar a doença infecciosa. A Secretaria de Estado de Defesa Social suspendeu a visita de familiares programada para o sábado, até a identificação do agente causador da doença.
Neste sábado, foi suspensa a quarentena na ala masculina do presídio e mantida a quarentena apenas na ala feminina. As visitas continuam suspensas.
Duas mortes
Duas detentas morreram com sintomas de febre, vômito, pressão baixa e prostração, que também acometeram outras pessoas, entre agentes penitenciários e detentos. Dentre os casos de óbito, está a jovem Dandara Maiara de Arruda, 19 anos, moradora do bairro Industrial, em Santana do Paraíso. A outra detenta, Aline Vieira de Paula, morreu no dia 8 de maio, com os mesmos sintomas. As duas ocupavam a mesma cela.
A Secretaria de Estado de Saúde (SES-MG) informou, por meio de nota, que foi detectada situação de surto de doença aguda de causa indeterminada”, no Ceresp, e anunciou medidas como a suspensão de visitas, coleta de amostras laboratoriais para exames; quimioprofilaxia para meningite (medicação com antibióticos) e síndrome gripal aguda (medicação: Tamiflu).
Foi estabelecida a orientação emergencial para tratamento dos casos sintomáticos; isolamento respiratório da área do presídio e, para todos os casos sintomáticos, transferência para os hospitais da região. Por fim, ficou estabelecida a quarentena do presídio e investigação de todos os casos suspeitos e seus contatos.
O Ceresp, com capacidade para 175 presos, abrigava 524 pessoas até esta sexta-feira. A cela feminina, com capacidade para 28, tinha 36 mulheres.
Parentes apreensivos por informações
O sábado foi de muita preocupação para os familiares dos presos do Ceresp, que buscaram insistentemente informações. Muitos foram para a visita, sem saber do decreto de isolamento do presídio. Vânia Bambirra foi visitar o marido. Sentada em um banco próximo à portaria, ela aguardava informações. No momento, não estou sabendo de nada. Disseram que ainda não tinham certeza. É uma situação muito difícil. Comentam que possa ser meningite ou uma gripe aguda. Só quero conseguir a informação que meu marido está bem. Ele foi preso há um ano e oito meses por tráfico, mas já está quase saindo, graças a Deus”, relata a mulher.
Nervosa por ter vindo de Ipaba e não receber explicações, Maria José de Almeida, que tem um sobrinho preso porque mexeu com coisa errada”, também estava preocupada. Perguntei, na portaria do Ceresp, sobre a proteção que usavam no rosto e me disseram que aquilo é para proteger os parentes, quem está de fora. E quem está lá dentro?”, indaga a tia do detento. A vontade da gente é que alguém em que possamos confiar (ela citou a reportagem do DIÁRIO DO AÇO) possa entrar no local e nos trazer notícias do que acontece lá dentro”, concluiu Maria José.
Família clama por esclarecimento
IPATINGA O velório e sepultamento de Dandara Maiara de Arruda, 19 anos, vítima do surto da doença infecciosa desconhecida no Ceresp, ocorreram neste sábado sob protesto de familiares que clamavam por justiça e esclarecimentos. Queremos explicações. Ela entrou no presídio, bonita e com toda a saúde e recebemos ela sem vida”, desabafou, inconsolada, Kátia Cristina de Souza Arruda, 35 anos, irmã da detenta.
Na noite de sexta-feira (11), os familiares receberam a reportagem do DIÁRIO DO AÇO na casa em que moram na rua, Finlândia, bairro Industrial, em Santana do Paraíso. Eles expressaram a indignação com a situação.
Após saber da morte de uma detenta e amiga de Dandara, na terça-feira (8), a família se desesperou. Kátia recorda que na quarta-feira, a família acionou um advogado pedindo que fosse ao Ceresp, olhar como estava a familiar. No dia seguinte, souberam que ela não passava bem e fora levada ao Pronto Socorro Municipal. Meu irmão ligou. A assistente social informou que a Dandara teve uma crise nervosa, mas seria levada de volta”.
Entretanto, a sexta-feira não foi de boas notícias para a família. Depois de receber a visita de uma assistente social, pela manhã, e ser informada que a detenta estava internada e recuperando-se, à tarde a família recebeu a informação que a jovem tinha morrido.
Ontem, no Cemitério Senhora da Paz, onde ocorria o velório, o pai, Valdir Ricardino de Arruda tentava conter as lágrimas. O que aconteceu com minha menina lá? Era a minha caçula, de 13 filhos. Outro filho caçula da minha primeira família foi morto em São Paulo. Agora minha outra caçula também faleceu. O que vou fazer da minha vida? Não temos acesso ao juiz, não temos com quem falar. Queremos justiça, isso não pode ficar impune”, declarou, com indignação.
Tráfico
Kátia Cristina contou ainda ao DIÁRIO DO AÇO que sua irmã foi presa há seis meses, por suspeita de tráfico e associação ao tráfico de drogas. Ela estava na casa de amigas, e policiais deram uma batida lá e encontraram drogas. Foram sete pessoas presas naquele dia”, lembra.
A expectativa da família era que ela saísse no dia 16 de junho, pois não fora ouvida nem julgada. Ela estava no lugar errado e na hora errada e não teve o direito de se defender”, lamenta a irmã.
Preocupação
Em meio à comoção, a família se despediu de Dandara, na manhã desse sábado (12). O silêncio era cortante na capela do cemitério Parque Senhora da Paz. Rosangela de Arruda, outra irmã de Dandara lembrou que teve problemas de saúde no último contato que teve com a irmã.
Estive lá a cerca de duas semanas. Na cela, eu sentei entre minha irmã e a amiga que faleceram e bebemos refrigerante. Compartilhamos o copo, inclusive. Isso foi em um domingo. Na segunda eu passei mal e já não conseguia trabalhar. Naquele dia minha pressão foi a 18/16. Meus olhos ficaram muito vermelhos e tive febre interna. Fiquei muito ruim. Esse estado durou três dias. Mas trabalho em posto de saúde, então fui atendida e medicada mais fácil. Mas o médico não identificou o que poderia ser. Fiquei preocupada e farei um exame para ver se estou bem”, conta, preocupada.
O QUE JÁ FOI PUBLICADO
Suspeita de febre hemorrágica no Ceresp - 12/05/2012
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