20 de junho, de 2012 | 00:07

“Não existe futuro sem os povos indígenas”

Aldeia Kari-Oca se abre para uma experiência diferenciada na Rio+20

Fábio Rodrigues Pozzebom/Abr


Kari-oca

RIO - Um espaço de convivência, ativismo ambiental, práticas culturais e celebrações do sagrado. Assim, a aldeia Kari-Oca se abre para uma experiência diferenciada na Rio+20. Erguida em meio a vestígios da Mata Atlântica, em Jacarepaguá, na zona oeste do Rio de Janeiro, a aldeia renasce das suas próprias raízes. É que, neste mesmo local, os povos indígenas se reuniram durante a ECO-92.
Naquela ocasião, como agora, a mensagem é bem clara: os povos indígenas, com os seus saberes ancestrais, têm uma contribuição indispensável aos debates internacionais sobre assuntos ambientais. Da mesma forma, naquilo que diz respeito às questões indígenas, eles não querem ser representados, mas sim, protagonistas do seu próprio destino.
Nestes vinte anos, quais os avanços, os retrocessos e, o que se busca, agora, como soluções para as questões indígenas? Um dia e uma noite passados na aldeia Kari-Oca é uma oportunidade única de ouvir as respostas para estas perguntas, e poder acompanhar de perto as atividades dos povos indígenas.
Marcello Casal Jr./ABr


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São mais de 600 índios, provenientes de várias etnias e regiões do Brasil, entre Kaipó, Xerente, Kamayurá, Pareci, Terena, Guarani, Xavante, Pataxó, Guarani Kaiowá, Bororó Boé, Javaé e Manoki. E do mundo: México, Equador, Peru, Chile, Canadá e Filipinas.
Apesar da diversidade dos costumes e das línguas faladas, um elo comum os unifica: a defesa de suas terras, não apenas como local de moradia, mas também, na sua dimensão espiritual, aparece como uma afirmação constante em todos os relatos.
Segundo Marcos Terena, idealizador da Kari-Oca, desde a sua origem, e diretor do Comitê Intertribal Memória e Ciência Indígena, que coordena o evento, a participação indígena na Rio+20 é essencial, “pois não existe futuro sem os povos indígenas”.
Sobre a economia verde, ele diz, este novo conceito não contempla os princípios de uma economia sustentável, “mas serve como um artifício para a indústria que agride o meio ambiente, continuar a fazê-lo com impunidade”, ele avalia.
Ética indígena
Referindo-se aos créditos de carbono, tão discutidos na Rio+20, o líder indígena diz que “as fórmulas usadas pelo homem branco ofendem a ética indígena sobre os valores da natureza. Pois, quem pode comprar ou vender o ar que respiramos?”. Ele pondera que a qualidade da vida é um bem comum para todos usufruírem, os homens e os animais.
E quais os principais objetivos dos povos indígenas na Rio+20? “A conquista dos direitos à autodeterminação e de espaço político, inclusive, no caso do Brasil, com o status de ministério”, pontua Terena.

Carta Indígena Kari-Oca para Rio+20
Manhã: Sabedoria Indígena.
A manhã começa com uma celebração espiritual indígena, da qual participam as mais variadas etnias. Em seguida, todos os dias, na Oca dos Saberes, realiza-se a assembleia indígena em torno de um tema escolhido para o debate naquele dia. E domingo foi um dia importante na aldeia, pois a reunião foi dedicada a uma missão muito especial: A elaboração da Carta Indígena Kari-Oca 2012, a ser entregue a ONU e aos líderes políticos do mundo presentes na Rio+20.
À frente do comitê de redação, Miriam Terena, diretora do Conselho Nacional das Mulheres Indígenas (Conami), e irmã de Marcos, assegura a contribuição igualitária ao texto da carta: Homens, mulheres, jovens e uma notável participação dos anciãos, a inclusão predomina e, cada um pode manifestar a sua opinião ou discordar das propostas apresentadas.
No entanto, ao contrário das plenárias no Riocentro, existe grande habilidade para se chegar ao consenso. “Temos a consciência de que o tempo seja fundamental”, afirma Miriam. Dentre as propostas incorporadas à Carta Indígena Kari-Oka 2012, ela cita, a inclusão da cultura, como o quarto pilar da sustentabilidade, e o enfoque aos direitos humanos, preservação dos ecossistemas e a cosmovisão indígena.
Tarde: Jogos Verdes
O Comitê Intertribal traz, para a Kari-Oka, uma edição especial dos Jogos dos Povos Indígenas (JPI), que já realiza, há alguns anos, com etnias de todo o Brasil. Todas as tardes, os atletas disputam várias modalidades de esportes da tradição indígena: Arco e flecha, cabo de força e arremesso de lança. Consta também no programa, um jogo de futebol: seleção indígena x comunidades locais.
O artesanato é outro fator de atração para a centenas de visitantes que percorrem a aldeia todos os dias: Cerâmica indígena, cocares, colares, brincos de sementes e penas coloridas.
Para Dhyrry Yatsô, da Cooperativa de Produtos Rurais Indígenas (Coopri), na comunidade Pataxó Hãhãhãe, “artesanato é um símbolo de luta, porque dá sustentabilidade e fortalece os costumes e os saberes indígenas.”
Noite
Diversidades Culturais
É noite na aldeia Kari-Oka. O palco é a própria terra, entre duas ocas imensas construídas com fibras naturais pelos índios Kamayurá. As apresentações culturais incluem danças, cantos e instrumentos musicais indígenas de várias etnias. No final das apresentações, centenas de visitantes se unem aos índios para uma dança comunitária. Um momento mágico na Rio+20, em que prevalece o espírito de celebração entre os povos.
Mas a noite não termina aqui. Mata adentro, numa clareira, um pequeno grupo de índios Cofán, do Equador, inicia um ritual que vai durar toda a noite. Qualquer um pode participar, porém, deverá permanecer até o amanhecer. Segundo Fidel Once, da comunidade Cofán, as celebrações espirituais indígenas são um ato de resistência, pois “o mundo tenta sempre nos converter para suas religiões e não respeita a nossa espiritualidade, da qual poderia muito se beneficiar”, afirma Once.
 
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