09 de setembro, de 2012 | 00:00
Crise nas escolas pode ficar pior
Professor defende ação contra o recrudescimento da indisciplina estudantil
IPATINGA Com 47 anos de experiência em ambiente escolar, o professor e ex-diretor de escolas, José Amilar da Silveira, afirma que a crise disciplinar terá uma solução igualmente complexa e só será possível com um entendimento entre instituição, professores, estudantes e as famílias.Natural de Santana do Paraíso, José Amilar atuou por 47 anos no magistério. Aposentado, presta consultoria na área educacional. A maior parte da sua vida profissional, no entanto, Amilar passou dentro do Colégio São Francisco Xavier e, mais recentemente, no Colégio Angélica, onde atuou por um ano.
Quais os principais desafios da escola na atualidade? No entendimento do professor, é preciso pensar em um modelo de escola que melhore a qualidade do ensino, pois os indicadores apontam quantitativos, mas não a qualidade. Na entrevista, concedida ao programa Cultura Entrevista da TV Cultura Vale do Aço”, recentemente, o educador tratou de outros aspectos relacionados à educação.
PERGUNTA - Como o senhor vê as pesquisas que indicam a existência de estudantes, já no terceiro grau, que não sabem ler nem interpretar textos?
JOSÉ AMILAR DA SILVEIRA É um sintoma claro que há falhas no processo do ensino no tocante à qualidade. Nós temos resultados apontados, ora no Enem, agora no Ideb, mas nem sempre percebemos melhorias qualitativas. Isso resulta em situações como essa, de alunos que concluem o ensino médio e outros que chegaram às faculdades e continuam, de alguma forma, analfabetos funcionais.
PERGUNTA Antes, essas deficiências eram barradas no vestibular. Pode-se concluir que as mudanças pioraram a qualidade?
PROFESSOR AMILAR De fato, os procedimentos foram substituídos por ações mais modernas de ensino. O lamentável, agora, é que os novos métodos, que levam ao conhecimento, não surtem os efeitos desejados pelas instituições e os próprios alunos.
PERGUNTA A que o senhor atribui a crise de autoridade do professor na sala de aula?
PROFESSOR AMILAR - Há uma série de fatores. Ao longo dos tempos, as políticas públicas e o comportamento da sociedade em relação à figura do professor, de alguma forma, contribuíram para a perda do respeito e de identidade do professor. Vamos somar a isso a falta de limites pelos jovens, e chegamos a uma situação de indisciplina generalizada no ambiente escolar. A falta de um melhor preparo do professor para lidar com essa situação não pode ser desconsiderada. Ele perdeu o controle dentro das salas de aula. A própria sociedade não respeita o professor e, tampouco, o empregador respeita o profissional.
PERGUNTA Como é a relação dos pais em relação aos problemas causados pelos filhos?
PROFESSOR AMILAR É curiosa. A maioria dos pais que viveram uma disciplina rígida e aprendizado com resultados, nas escolas, tem hoje um comportamento diferente quando ocorre algum problema com os filhos na escola. São poucos os pais que, diante da indisciplina do filho, se ajunta à instituição para resolver. Grande parte deles tende a manter um comportamento de ir contra a escola e contra o professor, o que reforça esse quadro de desordem.
PERGUNTA - Podemos dizer que há uma crise instalada, com a indisciplina nas escolas?
PROFESSOR AMILAR - Eu não tenho dúvida disso. A escola vai ter que enfrentá-la e arrumar uma solução, sob pena de prejuízos ainda maiores para o ensino. O professor deverá ser uma peça-chave nesta solução. O problema começa com a entrada e a saída da sala de aula sem pedir licença, uso de equipamentos eletrônicos estranhos ao assunto da aula. Este é, inclusive, um desvio de educação e respeito, um problema que vem de casa. E o lado extremo disso é a agressão verbal ou física entre alunos e professores.
PERGUNTA - No campo da pedagogia, há correntes de pensamento com entendimentos diversos sobre a autoridade do professor. Como é isso?
PROFESSOR AMILAR - Mas entre os diversos entendimentos sobre o tema, há um consenso, o de que o professor precisa reforçar sua autoridade, o que não pode ser confundido com autoritarismo. A diversidade de posições converge em uma proposta para que o professor volte a ter o reconhecimento da comunidade escolar como alguém importante no processo educacional.
PERGUNTA Polícia dentro da escola é a solução?
PROFESSOR AMILAR - Bem, eu acho isso um absurdo. Estamos transferindo nossa responsabilidade de administrar uma situação de crise para a polícia.
PERGUNTA - O que o senhor considera como o modelo ideal de escola atual?
PROFESSOR AMILAR É a instituição que atenda a três polos. Primeiro, que tenha um projeto pedagógico adequado para o momento e seus recursos tecnológicos. Segundo, que tenha um educador preparado para essa realidade, e devidamente atualizado na medida em que as mudanças sociais ocorrem e, terceiro, uma atuação diferenciada da família.
PERGUNTA Como é a proposta do senhor, em aproveitar potencialidades?
PROFESSOR AMILAR Temos nas escolas três grupos de alunos. Um é formado por aqueles médios, com níveis de inteligência e aproveitamento bem próximos um do outro. Temos um grupo com dificuldade e que desempenha um esforço a mais para acompanhar a média, e temos outro com grande capacidade de assimilar conteúdos, acima do grupo médio. O que a escola comum faz? Nivela todos. Os grandes talentos ficam escondidos e, na maioria das vezes, tornam-se talentos perdidos.
PERGUNTA Qual o papel do professor neste contexto?
PROFESSOR AMILAR - Identificar essas potencialidades e permitir que elas se desenvolvam. A maioria das escolas desenvolve programas para recuperar o grupo com dificuldade, mas o grupo com potencial é abandonado à própria sorte. O país perde a oportunidade de ter mais cientistas, engenheiros e pensadores. A maioria das nossas escolas ainda desconhece essa necessidade. Há algumas atividades pontuais, mas isso não faz parte do projeto de educação das escolas. Há indicadores que o Brasil perde cerca de 30% da inteligência estudantil brasileira nos processos e atividades escolares. Estamos falando de pessoas que podem desenvolver muito mais.
PERGUNTA E a afirmação que a escola é apenas mais um negócio?
PROFESSOR AMILAR A iniciativa privada tem um lastro histórico de serviços prestados à educação. É certo que algumas instituições não se conduzem adequadamente. É por aí que aparece essa visão de educação como um negócio, no mau sentido. A maioria das escolas privadas que conhecemos atua de forma correta.
PERGUNTA Nem tudo está perdido. Como é ver um outdoor e descobrir que um trabalhador homenageado por uma grande empresa como modelo, ou mesmo uma autoridade entrevistada por um jornal, é um ex-aluno, às vezes aquele mirradinho, que ficava quieto no canto da escola e virou uma pessoa reconhecida, importante?
PROFESSOR AMILAR Isso mexe muito com o coração da gente. Não tenho dúvidas que, apesar de tantas mazelas com a educação, resultados como esses representam a grande recompensa de um professor.
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