17 de fevereiro, de 2013 | 00:00

“Um gesto admirável, de consciência de humildade e desapego ao poder”

Bispo emérito fala sobre o impacto do anúncio da renúncia do Papa Bento XVI e as transformações do mundo

FABRICIANO – Em entrevista especial ao DIÁRIO DO AÇO, o bispo emérito, dom Lelis Lara, que acompanhou o pontificado de seis papas desde Pio XII, falou sobre as impressões e impactos da renúncia do Papa Bento XVI. Dom Lara não acredita que as críticas e protestos tenham pesado na decisão do Sumo Pontífice, mas que sua decisão realmente está baseada nas limitações físicas, pois a missão de dirigir a Igreja Católica é árdua e difícil. Entre os candidatos para substituição de Bento VXI, o bispo acredita que há sempre aqueles mais cotados, mas prefere não opinar sobre qual deles deve ser escolhido. A entrevista exclusiva foi concedida na casa paroquial em Coronel Fabriciano na última sexta-feira, dia 15.
DIÁRIO DO AÇO – Como a Igreja Católica no Vale do Aço recebeu o anúncio de renúncia do Papa Bento XVI?
DOM LELIS LARA – Esse anúncio que o Papa fez, da sua renúncia, realmente foi como uma bomba. Creio que ninguém esperava por isso, mas a repercussão no meio do povo é imaginável. Agora a gente que é mais da igreja, que conhece a história da Igreja, e de muitos pontificados, depois de analisar as razões que o Papa alegou para a sua renúncia, achamos uma coisa natural, embora inesperada.
DA – O senhor vê então, que esta foi uma decisão que ficará para a história?
DOM LARA - No meu entender o Papa fez um gesto admirável de consciência nítida de humildade, desapego ao poder, amor à Igreja, reconhecendo-se incapaz de levar a frente essa sua missão árdua, difícil, penosa e pesada de conduzir a Igreja. Sobretudo nesse tempo, em que toda a vida social atravessa transformações súbitas, rápidas, pesadas e fortes. No passado as mudanças se processavam mais lentamente, então as mudanças que aconteciam em um espaço de tempo de 20 anos, por exemplo, hoje acontecem em cinco anos e isso causa um momento de perplexidade. As pessoas que estão na liderança das instituições, sobretudo, dizendo sobre o Papa que está à frente de uma instituição tão ampla e importante como a Igreja Católica sentem mais fortemente as mudanças. Exige-se das pessoas aquela energia e disposição, força suficiente para levar à frente a sua missão. O papa alegou deficiência na saúde física, mental e espiritual e não querendo que a Igreja sofra com isso, não se sentindo à altura para responder e atender as necessidades do momento presente, ele se retira para que Deus providencie outro que tenha melhores condições de levar à frente esse ministério pesado. Espera-se que se até o dia da Páscoa tenhamos um novo papa.
DA – O senhor fala na celeridade das transformações do mundo. Diante disso a Igreja Católica sente a necessidade de promover mudanças?
DOM LARA – Certamente. No Concílio Vaticano II a Igreja percebeu isso e convocou esse conselho na expressão do Papa João XXIII, responsável por essa convocação em 1962. Ele dizia que a intenção era “Agiornar” que era atualizar, por em dia com a sociedade porque a Igreja estava no descompasso da sociedade. E isso nós ainda sentimos. A realidade que eu vejo é que a Igreja não aplicou plenamente o concílio. A missão da Igreja não é só espiritual, a Igreja deve se preocupar com todas as questões que dizem respeito à pessoa humana, e aí então as questões sociais, sócio-políticas e dentro da Igreja há correntes que puxam para trás e querem que Igreja fique só dentro do templo.
DA - E na opinião do senhor o que deveria mudar na prática das tradições da Igreja Católica?
DOM LARA – Primeiro as questões da sexualidade, nas questões do matrimônio, questões da discriminação da homossexualidade, como tratar esses assuntos e assim também o relacionamento da Igreja com outros grupos religiosos como a Maçonaria. Por que a Igreja Católica precisa ficar em pé de guerra com esses grupos? O conselho do Vaticano segundo dizia que todas as pessoas se entendessem, o ideal de Jesus é que todos sejam um, então por qual motivo vamos ficar em briga com aqueles que não são da nossa igreja?
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