03 de março, de 2013 | 00:00

Má fama até no Nordeste

Caminhoneiros que transitam pela BR-381 retratam desafios encarados na estrada; obras de duplicação da rodovia são vistas com descrença por aqueles que a utilizam diariamente

Wôlmer Ezequiel


BR-381

DA REDAÇÃO – A rotina desgastante no dia a dia da profissão de carreteiro não tira o bom humor de Gilsimar da Silvia Carneiro, 27 anos. Originário do município de Conceição do Coité, no nordeste baiano, o jovem caminhoneiro de sotaque acentuado é receptivo a uma boa conversa. Mesmo sobre a famigerada rodovia da morte.
O tempo fechado, que parecia anunciar um vendaval no fim da tarde desta sexta-feira (1) não era tempo ruim para o coiteense. A pausa na viagem para a entrega de cargas é sagrada e o posto rodoviário – “segunda casa” dos carreteiros – é o lugar para se puxar um banquinho e fazer de um assunto trivial, um bom papo.
Não faz muito tempo que Gilsimar foi parar na profissão. Na família ninguém influenciou, conta. A vontade de tocar uma carreta pelo “brasilzão” afora veio de novo, segundo ele. Há quatros anos, entrou na profissão e os pais ficaram para trás na região baiana que cultiva o sisal, planta que norteia a economia de Conceição do Coité. Mas nem tudo é tempo bom. E o baiano já pensa em largar a estrada.
Um assunto é responsável por mudar os ares da conversa: o "boato" da duplicação da BR-381, que há muito se escuta falar até lá no nordeste, dada a má fama da via, chamada pelos próprios mineiros de rodovia da morte.
Wesley Rodrigues


Gilsimar Silva Carneiro

O bom humor do baiano muda. Encarar os desafios diários que as condições das estradas proporcionam, além dos perigos constantes, distância da família e tantas outras adversidades não faziam parte do sonho de trabalhar viajando o país. “Essa 381 não tem igual com nenhuma outra estrada que eu passei”, diz Gilsimar, convicto. “O problema são as curvas e, sobe demais. Há muito acidente. Perdi a conta de quantas desgraças eu vi nessa estrada. Eu passo por aqui porque não outro tem jeito. Quero largar isso, ir viver minha vida”, prossegue.
Contraponto
E é falar na rodovia que tem nas obras de sua duplicação um jogo de empurra, que não é difícil encontrar quem a conhece bem e esteja indignado com o cenário provocado pela via estrangulada. O desafio de sobreviver a cada curva, cada caminhão e cada carga requer uma habilidade. Carlos Antônio Pereira, 49 anos, nasceu em Governador Valadares, mas mora em Ipatinga há 40 anos. Mesmo apressado para entregar um carregamento químico trazido de Santos (SP) para uma indústria do Vale do Aço, o carreteiro com 31 anos de experiência na estrada tem um tempo para dizer a experiência de trafegar pela BR-381.
Para transportar uma carga perigosa é preciso dirigir para si e para os demais, relata o caminhoneiro. “É uma preocupação muito grande trabalhar com produto químico e um caminhão pesado no meio de um trânsito tão turbulento. O cotidiano sempre tem situações de risco”, comenta, enquanto aguarda um funcionário do posto rodoviário lavar a frente do caminhão para retomar a viagem.
Wesley Rodrigues


Carlos Antônio Pereira

Carlos acredita que a duplicação da BR-381 poderá sair do papel. As mudanças significativas ocorridas na malha viária do país na última década são o que dão esperança. Mas, na opinião dele as obras não trarão a redução de acidentes. Para explicar o porquê, ele compara à duplicação da Fernão Dias, principal ligação rodoviária entre São Paulo e Belo Horizonte, que teve sua duplicação concluída em 2002.
A segurança ainda é um desafio àquela estrada, com traçado mais favorável do que a que corta o Vale do Aço. “Conheço a Fernão Dias desde que era pista simples. Foi duplicada e tem um traçado muito melhor que a daqui, mas isso não diminuiu o número de acidentes. Pelo contrário. Particularmente entendo que a duplicação amenizará o fluxo de veículos. De 2004 para cá, a frota de veículos no Brasil aumentou em 86% e, a infraestrutura permanece a mesma de 30, 40 anos atrás”, discursou, em meio ao conhecimento de mundo levado na bagagem.
 
Estreantes na BR-381 Norte ficam assustados
 
A notícia da suspensão das obras que iriam corrigir o traçado arcaico da BR-381 entre Belo Horizonte e Governador Valadares foi recebida com tristeza pelos motoristas que precisam utilizá-lo diariamente, já que a rodovia é considerada de alto risco de acidentes no Estado devido ao excesso de curvas e a imprudência dos condutores, como disse o carreteiro Carlos Antônio.
O anúncio da suspensão da contratação das empresas que executariam as obras, que se deu há quase dez dias, espanta logo de cara quem passa pela estrada pela primeira vez. De Goiânia (GO), Saulo Brilhante trabalhava somente no nordeste do país. Mas, de uns tempos para cá começou a trazer carregamentos também para a região sudeste. Na semana que terminou, foi a primeira vez que ele transitou pela BR-381.
"O asfalto é bom, sabe? Mas, nunca vi tanta curva. É perigoso demais. Tive que dirigir com muito mais atenção do que de costume. À noite então é ainda pior", lamenta, no sotaque arrastado, ressaltando que espera não voltar ao percurso. As repetidas promessas da tão sonhada duplicação da rodovia já não criam muitas expectativas mesmo nos mais otimistas.
 
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