10 de abril, de 2013 | 00:00
Realidade nua e crua das ruas
Crescimento da população de rua tem relatos de angústia, medo e humilhações
IPATINGA - Ao lado de um banco de praça pública, um fogão a lenha improvisado põe a ferver a gordura, já velha, que frita miúdos de carne em uma lata. O cheiro não é agradável e denuncia de imediato seu estado de conservação. Apesar disso, o "aperitivo", após pronto, é acompanhado de um copo de aguardente. Não há pesar, desolação ou tristeza, mas um sentimento de comemoração e compartilhamento, embora sem motivo aparente. Com um estranho orgulho, eles se intitulam a "turma da cachaça".
O recorte, de um cenário maior e corriqueiro no município, é da praça em frente à área do camelódromo, no Centro de Ipatinga. Ali, rostos que não são notados revelam uma realidade preocupante de pessoas que, por uma série de tropeços e perdas se viram privados de necessidades básicas como uma casa, um mínimo de conforto e calor humano. Os perfis são muitos e passam pelo abandono familiar ou falta da família, situação econômica, desemprego, desajuste social, drogas, álcool e problemas psicológicos.
No grupo que foi tema desta reportagem, cada um tem a sua história, sua indignação. F.B.I., como prefere se identificar, há 16 morando no município, está há quatro anos nas ruas. O jovem, nascido em Itambacuri, conta que ficou sem lugar para morar quando a mãe faleceu e o irmão ficou com a casa, no bairro Esperança. "Não tinha mais lugar pra ir", lembra. Ele, que já passou por casas de recuperação, hoje tem dois filhos, e a companheira está grávida do terceiro.
Longe do clima de descontração e dos muitos copos de cachaça de mais um fim de tarde, F.B.I. revela não existir condição pior que viver nas ruas. "Aqui é onde o filho chora e a mãe não vê. Ninguém se acostuma com isso aqui, não. Vi e vejo gente morrer sempre. Todos os dias a gente dorme com o coração na mão. Cachorro é melhor tratado que a gente", se queixa, sendo interrompido pelo celular que toca no bolso. Do outro lado da linha, o irmão de Belo Horizonte estaria insistindo para que ele, e a família, se mudassem para a capital mineira.
Retorno
Migrante, um italiano nascido na região da Sicília divertia o grupo com o português arrastado. Depois de um desentendimento com a esposa em Porto Seguro (BA), o músico quis pegar estrada e se lançou às ruas. Com dois dias no município, contudo, conseguiu falar com a mãe, em São Paulo, que providenciaria seu retorno para casa. Sem querer se expor, o italiano aponta que história para contar tem Eliseu Marino, que bebe uma dose de pinga, sossegado, em um banco próximo.
E de fato tem. Eliseu nasceu e cresceu em Governador Valadares. Com uma adolescência marcada por problemas com as drogas, cometeu o primeiro homicídio há 13 anos. Foi preso, deixou a cadeia, se envolveu em outros crimes. Um assalto à mão armada em Belo Horizonte o fez retornar à cadeia. Após 11 anos de cumprimento de pena, fugindo em cada presídio onde era preso, Eliseu recorda ter deixado o consumo de drogas, se converter ao evangelho e, inclusive, abrir o próprio negócio no Vale do Aço - um empreendimento individual de produtos de limpeza.
Mas uma briga com a mulher o fez sair de casa, deixar o filho, e devolver o carro que havia comprado. "Tem três semanas que estou na rua. Voltei a fumar e beber, infelizmente. Só não voltei para o crime. Minha firma ficou em aberto, e agora eu faço artesanato, tapete, forro, pedra para lixar o pé, e o que der para arrumar dinheiro", narrou. Para Eliseu, suas reviravoltas dariam um livro, com um desfecho feliz que ainda não alcançou.
Em realidades diversas e levados às ruas por motivos diferentes, eles vão ocupando os espaços debaixo de viadutos, praças e calçadas. E mudam a imagem dos equipamentos urbanos do município, com relatos que retratam a angústia, medo e humilhações por morarem nas vias públicas.
Secretaria deverá incrementar
programas para amenizar impasses
O crescimento desenfreado da população de rua em Ipatinga reflete um panorama que desafia administradores públicos, órgãos de segurança e saúde pública. Até o início deste ano, foram contabilizados 350 pessoas vivendo ao relento em Ipatinga. O secretário municipal de Assistência Social, Vasco Lagares, enfatiza que o campo é delicado e retirar essa população das vias públicas não é tarefa fácil. "É um público recorrente em todas as cidades", resumiu.
Segundo Lagares, há prioridades de investimentos em programas de educação e emprego com foco para reverter esse quadro. A implantação do Centro de Referência Especializado para a População em Situação de Rua (Centro POP) poderá resultar na retomada do convívio social e familiar por parte da população em situação de risco, com a emissão de documentos, centro de convivência, cursos profissionalizantes e acompanhamento psicossocial. "Temos até maio para fazer a sua implantação. Já existem recursos destinados a promover essa adesão. Temos, contudo, um processo de formação de equipe, de locação do imóvel, para que possamos implantar o serviço", ressaltou o secretário.
O pagamento, pela atual administração, da dívida de R$ 161,3 mil relativa ao convênio de 2012 com o Projeto Videiras, também poderá minimizar os impasses. Com o pagamento da dívida, os serviços de pernoite e alimentação da população em situação de rua deverão ser restabelecidos até o final deste mês. "Além disso, um comitê está sendo constituído para ser o gestor da população de rua de município - acompanhar e discutir as políticas aplicadas à área. Um fórum será realizado este mês, ainda sem data marcada, para discutir o assunto", concluiu.
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