25 de maio, de 2013 | 00:00
A visão do crack é distorcida”
Pesquisadora afirma que o assunto é abordado de forma deturpada por falta de informação
IPATINGA Tratado como fator de destruição de famílias, da vida de jovens e mola propulsora de crimes, o crack foi discutido por uma diferente perspectiva nessa sexta-feira (24) no seminário "Imagens sociais do crack e seus efeitos na sociedade, na clínica e no sujeito". O encontro foi promovido na Faculdade Pitágoras pelo Fórum Intersetorial sobre Álcool e Outras Drogas de Ipatinga (Fiad).
Debates e apresentação de trabalhos do primeiro ano de atuação do Fiad marcaram também a programação, que atraiu 220 pessoas ao encontro. A abertura do evento contou com a presença de representantes de entidades ligadas ao combate às drogas, políticos, representante da Polícia Militar e do vice-prefeito de Ipatinga, Alfredo Ramalho, que é titular da Secretaria municipal de Segurança e Convivência Cidadã.
A coordenadora do Programa de Saúde Mental de Ipatinga e membro da Comissão Propositiva do Fiad, Cristina Abrantes, disse que, nesse primeiro ano de atuação do Fórum, a perspectiva é encontrar soluções para o problema. Estamos articulando com as pessoas que se envolvem com a temática de álcool e droga. Temos desejo de que o Fiad seja também espaço para que o próprio usuário participe e contribua para a construção de política pública sobre álcool e droga”, pontuou.
A intenção a partir de agora, conforme Cristina Abrantes, é que o Fórum possa ser mais propositivo. Temos ideia de sermos mais propositivos, nos posicionar quanto à política que é desempenhada, sobre internação compulsória e a possibilidade de implantação de serviços para tratamento, além de intervenções de prevenção”, reforçou Cristina Abrantes.
Outro ângulo
Um dos destaques do evento foi uma conferência realizada pela pesquisadora e doutora em Antropologia Cultural e Social pela Universidade Rovira i Virgili, de Tarragona (Espanha), Regina Medeiros. No seminário, ela apresentou seu trabalho que avalia a imagem social que é transmitida sobre o crack, principalmente pela mídia. Sua pesquisa aborda o assunto com base em entrevistas com usuários.
Professora da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas) e referência em pesquisas sobre a problemática do crack, Regina Medeiros falou ao DIÁRIO DO AÇO sobre a sua pesquisa. No trabalho, a especialista descobriu histórias de pessoas que usam drogas há vários anos e mantêm uma rotina normal. Encontrou também a presença do entorpecente em todas as classes sociais.
Problema social
Com base em seus estudos, Regina contesta as afirmações de que os crack é uma doença” ou epidemia” do século 21. Ele é problema social, do qual as pessoas têm muito preconceito, discriminação. Elas entendem muito pouco disso. De fato, o crack é a mesma coisa da cachaça, substância muito barata que as pessoas pobres têm acesso. Por isso ela provoca esse mal-estar. O álcool é o grande vilão da história no Brasil. O crack só tomou essa dimensão porque atingiu a população de rua, assim como a cachaça”, declarou a pesquisadora.
Ela critica a generalização que se faz em relação aos usuários da droga. Sabemos que classe média e alta também usa crack e ninguém fala que isso é problema. Ele toma dimensão lá naquela população carente que já era problemática”, salientou.
A especialista diz que o crack pode simbolizar uma busca por prazer no caso dos usuários menos favorecidos economicamente. As outras pessoas fazem ginástica, inglês, namoram e fazem outras coisas que também dão prazer. Se as pessoas pobres não têm outra forma de prazer vão buscá-lo de preferência nas coisas que não tem que pagar, porque ganha pouco ou não trabalha”, pontuou.
Mata rápido”
Outra afirmativa frequente em relação ao crack é que a droga mata muito rápido. Ela discorda dessa conceituação, com base na quantidade de pessoas ouvidas em sua pesquisa e que convivem com a droga há muitos anos. Na pesquisa encontrei gente que usa crack há 20, 14 anos. Ele não mata muito rápido. Não há caso de overdose por crack. O que vai matar rápido é a condição da pessoa que vive em situação precária de saúde, no meio da rua. Nesse contexto, o crack, assim como a cachaça ou a chuva vai matá-la”, argumentou.
Para a pesquisadora, o assunto é totalmente deturpado porque existe muito interesse atrás disso”.
Ela reconhece que o efeito do crack é muito rápido, mas nem todos o usam de maneira frenética. Ele passa rápido assim como era o lança-perfume. Daí o sujeito tem vontade de usar outra vez e vai gastando muito dinheiro nessa busca frequente. Mas não são todos os casos. Descobri gente que usa toda tarde, trabalha, estuda, tem uma vida normal”, revelou a especialista.
Classes
A doutora em Antropologia Cultural aponta como uma das principais surpresas apresentadas pelo trabalho de pesquisa com pessoas que usam a droga foi a de que o crack não é uma droga de uso exclusivo da população pobre. Encontramos pessoas de várias idades e classes sociais usando a droga. Solteiros, casados, enfim... Isso foi interessante porque mostra que não podemos afirmar o crack é.... Essa reposta não é simples. Ela depende de quem é, de onde, de como o crack é usado, de uma série de fatores”, salientou.
Crimes
Em sua pesquisa, Regina ouviu também comerciantes vítimas de crimes praticados por usuários de crack. Os depoimentos mostram um perfil de crimes sem grave ameaça às vítimas. Nas minhas e em várias outras pesquisas sobre o assunto, nunca vi nem ouvi falar que quem usa crack programa um crime e anda armado ou rouba grandes coisas”, afirmou.
A professora comenta que os itens roubados pelos usuários são coisas de baixo valor porque serão usadas para trocar pela droga, que é barata. Por ser barato, o crack não leva o sujeito a cometer um crime tão grande como o álcool. Aquele que usa muito fica na fissura quando o crack falta, assim como qualquer outra droga. Para comprar mais, o usuário de crack sem dinheiro rouba um vaso de planta para trocar por pedra. Nos levantamentos que fiz cheguei à conclusão que eles poderiam ser considerados ladrões de galinha”, apontou.
Sobre os vários crimes atribuídos ao uso da droga, Regina Medeiros acredita que muitos usam dessa afirmação comum como justificativa. Por causa dessa propaganda de horror que se criou em torno do crack, muitos se fazem de crackeiros para ter algum ganho secundário, cometer crimes graves. Não pode considerar que todos são assim”, observou.
Internação vai contra os direitos humanos”
Questionada sobre a internação compulsória de usuários de drogas, a exemplo do que está sendo feito em São Paulo, a professora Regina Medeiros se posicionou contrária. Internação é totalmente contra os direitos humanos. A pessoa tem até o direito de escolher viver ou morrer, ninguém pode decidir pelo outro em nenhuma situação. Claro em casos de complicações por doença mental e que oferece risco aos outros, por exemplo, é preciso tomar um pouco de decisão”, admitiu.
Na opinião da pesquisadora, a internação tem outros interesses que não a reabilitação de fato dos usuários. É um absurdo internar compulsoriamente qualquer um. Na verdade, essa medida vai beneficiar outras pessoas, donos de determinados hospitais e instituições. Médicos, empresários, pessoas da alta não estão interessados nesses sujeitos que moram na rua. Se tivessem ofereciam oportunidade para eles trabalharem”, reforçou.
Solução é discutir tema com seriedade”
Entre as alternativas defendidas pela pesquisadora Regina Medeiros na solução desse problema social está o debate claro sobre o assunto. A primeira questão é discutir isso com seriedade como, por exemplo, nesse seminário de hoje (ontem). É preciso discutir o crack com as crianças, nas escolas, falar disso abertamente. Não camuflando e acreditando no que é colocado na mídia. Não digo que é culpa dela. A mídia veicula uma ideologia”, enfatizou.
Regina Medeiros teceu críticas à abordagem feita pela maior parte dos meios de comunicação sobre o assunto. O que é colocado é muito perverso, expõe o ser humano a uma situação totalmente deplorável e faz com que as pessoas tenham medo de quem usa crack, ao invés de se aproximar. E quando se aproximam é de forma compulsória. Porque não se propõe escutar o porquê de elas usarem drogas, não fazem campanha de empregos coletivos e soluções coletivas? A solução é falar disso com seriedade e com informações completas”, concluiu Regina Medeiros.
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