26 de maio, de 2013 | 00:00

Escola nota 10

Projeto muda a realidade de escola que tinha histórico de indisciplina no bairro Canaãzinho


IPATINGA – Indisciplina, brigas, notas baixas, drogas e vandalismo. As palavras que marcaram por muito tempo a Escola Estadual Wilson Alvarenga, localizada no bairro Canaãzinho, ficaram no passado desde a implantação do Programa “Escola Viva, Comunidade Ativa”. Com a iniciativa, desde o ano passado policiais militares que eram presença diária na escola por causa de drogas e brigas, agora visitam o local para ensinar música. A reportagem do DIÁRIO DO AÇO visitou a escola no horário da oficina de fanfarra para conhecer o projeto.

A diretora da escola, Etelvina Maria Gomes de Aquino, conta que quando assumiu a escola, em 2005, a situação era caótica. Atualmente, a escola oferece o ensino fundamental e tem 560 alunos. “Tinha muita violência o tráfico comandava a área. A polícia ficava para fazer segurança para os professores. Por causa das brigas e polícia estava presente para coibir. Sempre que acontecia algo tinha que chamar viatura, às vezes até por exigência de famílias dos envolvidos. Era muito constrangedor e ocorria quase todos os dias”, relatou.

Etelvina Maria Gomes tinha o sonho de diminuir essa situação de violência e ter tranquilidade para desenvolver o projeto pedagógico na escola, que tinha um “péssimo” resultado. A alternativa vislumbrada pela diretora foi se inscrever no Programa “Escola Viva, Comunidade Ativa”. O objetivo da iniciativa é abrir espaço nos contraturnos para tirar as crianças das ruas. O programa é exclusivo para escolas de áreas de vulnerabilidade social. Pelo Programa, o governo fornece apoio material, mas não envia verba para pagar os monitores. “Começamos a buscar essas alternativas. Mas no início não havia credibilidade pela situação da escola. Ninguém queria ser parceiro”, lembrou.

Wôlmer Ezequiel


diretoria


Anjos da Escola 
Foi então que surgiu o apoio do subtenente Paulo Sérgio Nunes, que integra a banda de música do 14º Batalhão de PM. Há alguns anos ele ia diariamente à escola pelo projeto da PM “Anjos da Escola”, destinado a dar assistência a diretores escolares que enfrentam violência. Mesmo com o estabelecimento da ordem, ele continua a ir à escola para coordenar as aulas de música ministradas na escola e brinca. A iniciativa musical foi batizada pelo nome Música Expresso. “Com apoio do Paulo conseguimos trazer aulas de violão, flauta doce e montar a fanfarra. Esse projeto melhorou o desempenho dos alunos na sala de aula. A comunidade passou a ver que era bom. E hoje temos mais apoiadores como a ONG Alfa e Ômega, que ministra aulas de futsal para 90 alunos”, disse a diretora. Atualmente além de futsal e capoeira, o projeto conta com aulas de canto coral, violão e fanfarra. Os monitores do Projeto Música Expresso são: sargento Daniel Mariano (fanfarra), cabo Izaías Santos (violão) e Salvador (violão). As aulas de flauta foram ministradas apenas ano passado.
A diretora Etelvina Maria Gomes informa que recebeu do governo do Estado 15 violões. Os instrumentos da fanfarra foram adquiridos por meio do programa Mais Educação do Governo Federal.

Psicólogo
A convivência com os alunos motivou Paulo Sérgio Nunes a cursar Psicologia. Após a graduação, ele passou a fazer atendimentos de alunos, familiares e até comunidade, na sede da escola. “Conhecendo realidade da escola tive motivação para fazer curso de Psicologia, porque passei a perceber que os casos não se tratavam de delinquência e sim de problema de convívio familiar, situações psíquica e material. Com a orientação psicológica temos conseguido muitos resultados”, declarou o subtenente.

Paulo Sérgio Nunes disse que já teve casos de crianças consideradas praticamente irrecuperáveis, que mudaram o comportamento. “Assim que começamos a terapia, pais, professores e direção perceberam que os estudantes passaram a produzir e a diminuir a dificuldade de convívio social”, comentou.

Wôlmer Ezequiel


paulo sergio


Rendimento
Ao fazer uma análise dos reflexos dentro da sala de aula, Etelvina Maria Gomes, se enche de orgulho. “Já ultrapassamos meta do Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica). Nossa autoestima está boa, os alunos que vinham para brigar hoje mostram interesse pelos estudos. Não temos uma ocorrência de indisciplina na sala de aula”, comemora. Etelvina destaca que policiais agora estão presentes na escola todos os dias, como parceiros e educadores. “Conseguimos diminuir em praticamente 100% a violência da escola”, completou.

Modelo
A iniciativa de sucesso foi apresentada em um congresso realizado em Belo Horizonte, de 8 a 12 de abril, cujo tema era o programa em questão. “Levei o relato de experiência da escola. Estamos entre as poucas instituições que fazem parte do programa e conseguem executá-lo, porque as escolas têm dificuldade de conseguir parceiros”, informou.
O projeto chamou a atenção da administração municipal também. O coordenador das aulas de música, Paulo Sérgio Nunes revelou que há interesse da prefeitura de levar a iniciativa para escolas municipais. “Também recebemos convites de várias outras escolas. O importante é que a sociedade ajude”, frisou.

Mudanças
Ao pontuar exemplos de regeneração do comportamento na escola, Etelvina Gomes, lembra dos problemas que tinha com vandalismo. “Antigamente não podíamos por mural na parede, escola sofria muito vandalismo, mesmo com muro alto o pessoal entrava, usava droga e estragava as coisas. Neste ano fiquei 15 dias com escola aberta porque o muro caiu. Não teve uma invasão dentro da escola. Murais e enfeites ficaram intactos. Usaram a quadra para jogar bola, e mesmo com a escola aberta eles passavam pela entrada e pediam permissão”, citou a diretora. 

 

Crianças e pais aprovam a iniciativa

Wôlmer Ezequiel


violão


Reunidos para a oficina de fanfarra e animados com a presença da reportagem na escola, os alunos demonstraram aprovação do projeto. É o caso do aluno do 7º ano, Jaider de Paula Rocha, 15 anos. A diretora disse que ele se envolvia com brigas na escola, mas depois de entrar nas aulas de fanfarra e futsal tudo mudou. “Fiquei sabendo e vim por conta própria. Gosto do projeto. A primeira vez que desfilamos no 7 de setembro minha mãe chorou ao me ver e disse ‘não é meu filho’”, disse o garoto. A estudante do 7º ano, Ester Oliveira, 12 anos, faz aulas de fanfarra e futsal. “Sempre visitava a sala da diretoria por indisciplina, mas depois que comecei as aulas melhorei. É muito bom aprender música. No futsal jogo como goleira. Na sala as coisas melhoraram, tirei nota 10 e ganhei medalha de aluna destaque”, salientou Ester.

Para a aluna do 6º ano, Maria Eduarda Costa, 11 anos, as aulas ocupam a mente das crianças com coisa boa. “Gosto do projeto porque tira as crianças da rua e dá um futuro para elas. Ganhei medalha de destaque também. Já tirava nota boa e melhorei”, comentou.

No 6º ano, Thalliny Kyvia Martins, 10 anos, faz aulas de violão no contraturno. “As oficinas são boas porque depois da aula às vezes não temos nada para fazer. Então melhor aprender coisa nova. Isso acabou melhorando os estudos. Como nas oficinas ficamos curiosos e aprendemos, perdemos a vergonha de perguntar na sala de aula”, opinou. 
Sabrina Amorim, 11 anos, aluna do 6º ano começou a fazer aulas de violão e fanfarra no ano passado. “Eu só tirava nota ruim e tudo melhorou era muito bom”, admitiu. Thalita Victória Gomes, 10 anos, do 5º ano, participa de todas as aulas de música. “A gente se desenvolve mais quando começa a aprender música, vim porque me interessei e gosto muito”, contou.

Estímulo
Os pais gostam, aprovam e muitos até acompanham de perto as aulas de música e de futsal para ver os filhos em ação. A mãe Maria da Conceição Gonçalves, está satisfeita com o projeto. “Ele é muito interessante, quando tem evento na escola eles se apresentam e ficam muito felizes. Eu incentivo meu filho a continuar participando. É muito melhor as crianças estarem envolvidas com coisa boa do que na rua”, pontuou. Outra mãe que elogiou a iniciativa é Marli Moura Domingos. “Eu amo o projeto porque está ocupando a mente da minha filha com coisas boas. Ela sempre teve notas boas e melhorou ainda mais”, falou.  


 
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