26 de maio, de 2013 | 00:00
Vale do Aço tem distribuição desequilibrada de médicos
Especialista salienta que o problema da saúde pública brasileira não repousa sobre a ausência de profissionais, mas sobre as más condições de trabalho
IPATINGA A carência de atendimento médico nos programas de atenção básica e Postos de Saúde da Família (PSF) não é uma demanda apenas das longínquas cidades do Norte e Nordeste brasileiro. A Região Metropolitana do Vale do Aço (RMVA) conta com uma faculdade de medicina, além de hospitais e clínicas privadas que são referência em saúde no Estado. Este cenário, contudo, não se estende aos pequenos municípios do entorno, onde há poucos médicos nos postos de trabalho, e desafios à logística dos profissionais.
Em um levantamento realizado em 15 municípios do Colar Metropolitano do Vale do Aço, o DIÁRIO DO AÇO constatou que, em 10 deles, não há sequer um médico que resida próximo aos postos de trabalho, e seu deslocamento normalmente de municípios como Ipatinga, Coronel Fabriciano e Timóteo - inviabiliza a eficiência dos serviços de saúde pública, já precários. Embora lotados para uma carga horária média de 40 horas semanais, há profissionais que, diante do vínculo empregatício com outras cidades e clínicas, vão às localidades para duas ou três horas diárias de trabalho, onde fazem atendimentos previamente agendados. Quase sempre, quando alguém se sente mal, precisa ser levada rapidamente para alguma cidade-polo da RMVA.
Açucena, Córrego Novo, Dom Cavati, Iapu, Periquito, Mesquita, Jaguaraçu, Marliéria, Naque e Joanésia estão entre os municípios que não contam com médicos entre seus moradores, e os serviços prestados à população são pontuais. Ainda que parte deles tenha inscrição no Programa de Valorização da Atenção Básica (Provab), inciativa do governo federal destinada a atrair médicos para o interior e periferia de grandes cidades, administradores públicos reclamam da dificuldade de contratar profissionais, principalmente especialistas.
Impasses
Secretária de Saúde do município de Braúnas, a enfermeira Neide Casimiro de Almeida Alves lamenta os problemas enfrentados para atrair médicos à cidade impasses corriqueiros nas secretarias de outros municípios de mesmo porte. O maior desafio que percebemos é que os profissionais não querem cumprir a carga horária estipulada e reclamam do salário. Sendo uma cidade pequena e do interior, o salário é menor, claro. E, logo, eles dão preferência aos grandes centros”, disse, por telefone.
Nas quinze cidades pesquisadas, segundo os secretários de saúde de cada uma delas, há o clínico geral que atende diariamente as unidades do PSF. Os especialistas, por sua vez, como ginecologistas, pediatras e psiquiatras, realizam atendimentos uma ou duas vezes por semana, ou a cada 15 dias.
Também enfermeira, a titular da pasta em Açucena, Marlene Rodrigues relata que, sem médicos especialistas no programa de atenção à saúde básica no município, a solução é levar pacientes até as cidades da RMVA. Para as pessoas que precisam consultar com um especialista, agendamos as consultas pelo SUS em Ipatinga e Coronel Fabriciano, por exemplo, e levamos o paciente. Mas, agendar é a complicação. Porque a demanda aí no Vale do Aço é alta, e precisamos achar um espaço para também levar o pessoal daqui para consultar aí”, pontua.
Quanto aos obstáculos na contratação de médicos para o município, ela lembra que exceção à regra são os recém-formados, que procuram por oportunidades iniciais em procedimentos médicos como cirurgia, radiologia, diagnóstico por imagem e não nas especialidades clínicas. Contratar clínicos gerais não tem sido o maior problema. Até mesmo porque os recém-formados, por exemplo, sempre têm interesse. O problema maior é encontrar especialistas formados disponíveis e que queiram trabalhar nos municípios pequenos”, reforçou.
Desvalorização
A Associação Médica do Vale do Aço (Amvaço), informou que há um contingente de 1.200 médicos lotados na Região e Colar Metropolitano do Vale do Aço. Desse saldo, aproximadamente 800 está em Ipatinga, Coronel Fabriciano e Timóteo. Somente a parcela restante se concentra nos demais municípios.
Uma vez que a Organização Mundial de Saúde (OMS) preconiza como parâmetro ideal de atenção à saúde da população a relação de um médico para cada 1.000 habitantes, o presidente da Amvaço, Norberto de Sá Neto enfatiza que, na região, o índice é de quase dois profissionais pelo número de moradores citado.
Importação não é o problema, afirma especialista
Diante da polêmica iniciativa de importação” de médicos de outros países para atuarem em áreas consideradas prioritárias no Brasil, Norberto de Sá Neto, que também é socorrista do Samu e professor universitário e cardiologista, ressalta que, assim como em regiões remotas, o conjunto menor de médicos em atuação nos municípios do interior mineiro, em atenção ao Colar Metropolitano do Vale do Aço, é explicado pelas más condições de trabalho e oferta de salários irrisórios.
O especialista toma como exemplo o concurso público em aberto para o preenchimento de vagas nos departamentos de saúde do município de Ipaba. O certame pleiteia a seleção de clínico geral, cardiologista, cirurgião e ginecologista, com carga horária de 20, 24, 30 e 40 horas semanais e remuneração que não ultrapassa R$ 1.500. O desinteresse é óbvio. A gente continua a investir muito depois de formado na educação continuada, e é impossível aceitar. Um juiz não vai para o interior por achar bonito, mas existe um plano nacional de carreira com progressão de salário e outros direitos. Com o médico é diferente”, disparou.
Neto não é contra o recrutamento de profissionais estrangeiros para suprir a demanda de médicos nas regiões inóspitas do país, mas critica com veemência a revalidação automática de diplomas, medida em discussão em Brasília, para facilitar a entrada de profissionais formados em Cuba, Espanha e Portugal. Importar não é o problema. Só que no Brasil tem prova para entrar na faculdade, prova para residência, prova para título de especialista a vida toda o médico faz provas, e provas difíceis e, por que eles não podem fazer? A própria Associação Médica Brasileira não é contra a importação de profissionais. Mas a prova (Revalida) tem que prevalecer. E, pergunto, por que a preferência por esses países? Por que os alemães não querem vir para cá, os franceses, os americanos?”, provoca.
Estudantes se dizem desmotivados
Futuros médicos, os alunos de Medicina em Ipatinga também demonstram insatisfação com a possível derrubada de um dos maiores obstáculos para evitar a entrada de profissionais com ensino classificado como de baixa qualidade no país, o exame do Revalida. Organizadores do movimento que percorreu as ruas de Ipatinga na manhã de ontem, Ermon Bhering e Aline Martins acreditam que, caso a entrada facilitada de médicos estrangeiros se concretize no país, a medida poderá criar um excedente de profissionais que, em virtude da falta de oportunidades, se submeterá aos salários irrisórios e às péssimas situações de trabalho.
É uma realidade que desanima, sim, a nós estudantes. Não somos contra a revalidação de diplomas ou a entrada de médicos estrangeiros. Somos contra a revalidação automática dos diplomas. Quanto aos postos de trabalho no interior, o problema é principalmente a falta de estrutura. Ninguém quer ir para esses lugares e correr o risco de ser culpado de alguma coisa que poderá ocorrer pelas más condições de trabalho”, argumentou o aluno da 8ª fase.
Próxima da conclusão da graduação, Aline Martins, por sua vez, pensa inicialmente em tentar concursos públicos, mas pondera que essa não será a única fonte de renda. É claro que nós pensamos nas nossas condições de trabalho, nos médicos que virão, mas o principal objetivo da nossa luta contra a revalidação automática é a qualidade da saúde da população que será ainda mais atingida”, lamenta.
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