26 de maio, de 2013 | 00:00

Quando é possível evitar maiores danos

Sem necessidade de internação programa trabalha recuperação de crianças e adolescentes


FABRICIANO – O tratamento ou a internação de adolescentes usuários de drogas é um debate permanente. Muitos defendem que o isolamento é necessário para resultar na recuperação. Acreditando no trabalho de prevenção e combate ao uso de drogas entre crianças e adolescentes, o Serviço de Referência em Álcool e Drogas para crianças e adolescentes (Serad), completa um ano de atendimento a jovens e suas famílias. Os resultados reforçam a motivação para os idealizadores que, apostam em projetos como esse, como forma de evitar danos sequenciais em usuários de drogas.

O presidente do Centro Assistencial e Incentivo ao Bem (Casib), instituição ligada ao Serad, Sérgio Antônio Dias explica que o foco do trabalho recai sobre crianças e adolescentes envolvidos com álcool e drogas e suas famílias. O encaminhamento dos casos é feito pelo Conselho Tutelar, do Poder Judiciário ou por demanda espontânea.

O público prioritário é formado por crianças e adolescentes de Coronel Fabriciano com histórico de uso e abuso de drogas; crianças e adolescentes atingidos de forma direta pelos problemas causados pelo uso e abuso de drogas nos ambientes familiares e comunitários; além de casos acompanhados por programas do sistema de garantia de direitos.

Para ser atendido no Serad, o adolescente não precisa ficar ou estar em situação de abstinência, como ocorre em centros de recuperação. “A internação do adolescente é um trabalho que muitas vezes não funciona porque, conter esse jovem dentro de uma comunidade terapêutica é muito difícil. Aqui a gente consegue fazer as intervenções e as abordagens de uma forma mais tranquila porque, estando em liberdade esse adolescente pode ser mantido na escola, mantendo uma relação com a comunidade”, pontua Sérgio Antônio.

Nestes 12 meses, o Serad contabiliza 65 famílias cadastradas, 372 atendimentos a adolescentes e 98 visitas realizadas a famílias. Além do atendimento com psicólogos e assistentes sociais, no Serad os jovens participam de oficinas criativas envolvendo técnicas de grafite e música.

Conforme os gerentes do programa, o Serad é um projeto piloto que tem se destacado em Minas Gerais, pois não há nenhum trabalho semelhante em outro município do Estado, referente ao atendimento de criança e adolescente.

Silvia Miranda


Paula Leles


Família
Para a coordenadora do Serad, Paula Leles, a família tem a função de proteger o adolescente e por isso devem estar ao lado dos jovens, acompanhar suas atividades e ter conhecimento sobre suas programações e apoiá-los quando for preciso. “A família é um foco importante porque entendemos que o adolescente está inserido no contexto, então esse trabalho com a família vem para fortalecer esse acompanhamento com o adolescente. Todo o acompanhamento que a gente faz com o adolescente, necessita da família bem próxima”, ressalta.

Prevenção
A prevenção é outro foco dos atendimentos, mesmo para os casos onde o adolescente já faça o uso de droga, como forma de evitar outros danos. A coordenadora acredita que projetos como esses têm a capacidade de evitar a internação dos adolescentes em centros de reabilitação. “Porque na verdade nós não vamos trabalhar prioritariamente apenas o uso da droga, mas vamos trabalhar outras questões da vida desse adolescente e reinseri-lo em outros espaços”, argumenta.

Dificuldades

Como ocorre na realidade da maioria dos projetos sociais, a grande dificuldade enfrentada pelo programa é a escassez de recursos financeiros para manter os serviços de atendimento e ampliar as dinâmicas voltadas para os jovens. O serviço é financiado pelo Fundo da Infância e Adolescência (FIA), mas o recurso destinado é o suficiente apenas, para manter as despesas com pessoal. “Nós temos que oferecer muitos serviços e esses serviços trazem uma demanda. Então, a questão da logística, as visitas às famílias, a busca por esses adolescentes e as oficinas ofertadas ficam a desejar porque, nós temos poucos recursos”, justifica Sérgio Antônio.

Atualmente, o Serad trabalha com quatro técnicos, dois assistentes sociais, dois psicólogos e uma coordenadora que é também assistente social, e auxiliar administrativo. As famílias interessadas podem procurar a sede do projeto, localizada na rua Uberlândia, 201, distrito de Melo Viana, ou pelo telefone 3842-9656

“Foi aqui que eu encontrei esse apoio e comecei a acreditar que vai ter saída”

O incentivo da irmã foi importante para o adolescente R.A.S.A., de 17 anos, procurar ajuda no Serad. Mesmo achando que não precisava de nenhum tipo de tratamento, o jovem decidiu participar das atividades do projeto, para fazer um bem à própria família. Aos 15 anos ele buscou, na droga, um bem-estar e escape para as ausências que sentia, porém, as perdas após o uso da droga foram ainda maiores. “Fui expulso da escola, perdi a confiança da minha família, perdi vários amigos, perdi várias coisas, e tenho dificuldade de arrumar um emprego”, lamenta.

Agora, o adolescente tenta recuperar o terreno perdido e reconquistar a confiança da família. “Eu tenho participado das atividades e minhas irmãs têm visto minha evolução, e que eu ‘tô’ a fim de participar mesmo e todo mundo ‘tá’ gostando desse incentivo que eu ‘tô’ tendo”, comemora.

A irmã confirma a evolução do jovem após a participação no Serad e conta como o programa ajudou no convívio familiar. “Foi uma forma de aceitar ele diferente porque, nós temos tido uma ajuda psicológica, então nós conseguimos suportar esse problema e até o convívio familiar melhorou. Porque a primeira impressão que você tem, quando possui um usuário de droga em casa é entrar em desespero e foi aqui que eu encontrei esse apoio e comecei a acreditar que vai ter saída”, desabafou.
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