11 de junho, de 2013 | 00:00
Muito além do giz e do quadro negro
Escola no distrito Cachoeira do Vale dá exemplo com boa prática de ensino e lições de voluntariado
TIMÓTEO Se há os estudantes que não veem a hora do sinal da escola soar e poderem correr para a casa, esse não é o caso de Natália Souza, Braully Pereira e Renato Portes. Eles estão entre os alunos do Ensino Médio da Escola Estadual João Cotta de Figueiredo Barcelos, no distrito Cachoeira do Vale, que trocaram a ociosidade pós-aula pelo voluntariado, atividades esportivas e monitorias de aprendizado na instituição.
Estudante do 2º ano, Natália, 16 anos, ocupa as tardes na escola se preparando para o mercado de trabalho, no projeto Santo de casa faz milagre”, criado pela instituição. Ela é voluntária em atividades da secretaria, reuniões de pais, além de monitorias de grupos de estudo e das aulas de reforço. Às vezes as pessoas criticam que eu não recebo por isso, mas é um trabalho voluntário que está me ajudando a aprender muito. Quando eu me formar terei uma noção básica do que é mercado de trabalho”, acredita.
Já Braully, 18 anos, trocou uma rotina de conflitos com professores, e de pular o muro da escola com frequência, para fugir das aulas, pelo cargo de treinador dos times de futebol de salão do João Cotta. E toda hora é hora de pôr a bola para rolar. Sou treinador de dois módulos, com 26 alunos. Eu queria ser jogador profissional, mas não consegui, então agora eu quero passar a experiência que consegui para os meninos”, diz o estudante do 1º ano.
Por sua vez, Renato, 16, é auxiliar voluntário na monitoria de esportes. Ele afirma que a oportunidade dada a ele e outros alunos mudou hábitos e valores que antes eram considerados negativos no colégio. Há uma união quando a gente está jogando bola. É um contato que cria um respeito, e que é aplicado não só dentro da escola com os professores e alunos, mas fora, na comunidade. O esporte tira meninos da vida do crime. Se não formos disciplinados na escola, não seremos em lugar nenhum”, pontua.
Até poucos anos atrás, o cotidiano da escola estadual era marcado por um cenário de roubos, depredações, pichações, violência contra alunos, professores e funcionários e até brigas entre estudantes. Localizada em uma área de vulnerabilidade social, a equipe pedagógica da instituição tinha o desafio de reestruturar sua imagem diante da comunidade e promover a autoestima dos alunos.
E com a mudança de paradigma a meta foi alcançada. A escola hoje é referência estadual em um modelo pedagógico que contribui para a autorrealização do aluno e o retorno satisfatório ao trabalho do educador. Mudanças significativas na rotina do colégio foram possíveis com investimentos em projetos culturais e esportivos, além da inovação na forma de ensino.
Transformação
Para resgatar a boa convivência escolar, a revitalização da biblioteca do educandário foi o primeiro passo tomado. Diretora da instituição, Silvana Aparecida Moreira dos Santos acreditou que aquele espaço de construção da linguagem” precisava ser pintado, ter um novo piso, atrair os estudantes. Ela tem que ser o espaço mais bonito e apaixonante de uma escola”, afirma.
A reforma da área foi palco para o início das ações que transformariam a imagem do colégio João Cotta. Com a criação do projeto Q bom ler!”, a leitura voltou a ser interessante para os alunos. Dentro do projeto, várias ações são desenvolvidas com as crianças e adolescentes. Para incentivar o hábito da leitura, os estudantes fazem, por exemplo, recitais de poesias em ônibus do transporte público municipal. Há também o Café com Livros”, além dos concursos de frases, redação, poemas e cartas, que são quinzenais. As melhores produções levam prêmios simbólicos e estimulam os estudantes às boas práticas, como aponta a diretora, com a exposição dos trabalhos na Galeria do sucesso” e o quadro Aluno Nota 10”. Na rádio escolar, funciona o programa Nas ondas do recreio”, produzido pelos próprios estudantes com o serviço de sonorização interno.
No esporte, também foram feitos investimentos. A escola João Cotta passou a oferecer oficinas esportivas nos fins de semana, por meio de parcerias com moradores da região e empresas locais. Quando é envolvida a comunidade se sente parte e ajuda a tomar conta da escola. Desde 2010 não temos histórico de roubo”, acrescenta Silvana.
Mas a solução dos conflitos também precisou de pulso firme da equipe diretiva. Silvana Moreira destaca que a escola trabalha a pedagogia do exemplo. Quando assumimos, em 2010, era necessário restabelecer a autoridade. É como o ditado: mãe boa é aquela que dá colo, mas que dá coro. Mas a escola tem ser alegre, tem que ser lúdica. Nós educadores temos uma missão muito além de ensinar a ler e escrever. A grande missão da escola é a transformação da pessoa”, ensina.
É preciso ter pulso,
coragem e força de vontade”
Conhecido como Baiano, José Raimundo Santos, 65 anos, é voluntário do projeto Escola Viva, Comunidade Ativa”, ação que abre os portões da Escola Estadual João Cotta de Figueiredo Barcelos à comunidade para práticas esportivas nos fins de semana. Sem muitos recursos, Baiano é treinador da escolinha de futebol que conta com mais de 60 crianças no Cachoeira do Vale.
Há três anos desenvolvendo o trabalho e, como diz, lavando com prazer ele mesmo os uniformes da criançada, ele acredita que o esporte é um dos melhores meios para distanciar crianças e adolescentes da violência e do tráfico de drogas. No campo e na quadra, funciono como um tipo de psicólogo, educador, amigo. Utilizamos a área da escola e o campo do bairro. É preciso ter pulso, coragem e força de vontade. Se todo mundo cruzar os braços, essa realidade (do tráfico e violência) nunca irá mudar”.
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Escola nota 10 - 26/05/2013
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