14 de julho, de 2013 | 00:00

Quatorze anos de ocupação

Sem fornecimento de água, luz e coleta de esgoto, moradores da invasão do Limoeiro ainda sofrem com questões básicas como a falta de comprovante de endereço


TIMÓTEO – Passar pela avenida Rodoviários no bairro Limoeiro, em Timóteo, e olhar os gatos da rede elétrica, ligados aos postes de iluminação, não é suficiente para imaginar a rotina de quem mora naquele “bairro”. Nomeada como Comunidade Jardim Vitória, o local é conhecido como a antiga invasão do bairro Limoeiro onde vivem cerca de 200 famílias sem nenhuma infraestrutura e sequer um simples comprovante de endereço.

A comunidade não possui calçamento ou iluminação nas ruas. Também não existe fornecimento de água, luz ou captação de esgoto regulares. Tudo é feito de forma improvisada. Durante a entrevista um morador grita para o vizinho desligar a geladeira porque, a energia tinha caído. O lixo é comum em meio às ruas, ao improvisado campo de futebol ou em outros locais usados, para as brincadeiras das crianças.

As caixas d’água são abastecidas por caminhões pipas, que chegam duas vezes por semana, outros pagam uma taxa mínima para ter uma cisterna. Para a energia, os moradores usam “gatos”, ligações clandestinas puxadas dos postes da rede elétrica na avenida logo acima. E o esgoto se acumula em fossas construídas no subsolo das casas.

Wôlmer Ezequiel


gatos



A vendedora Mary Aparecida Moreira Vieira, 49, nasceu em Coronel Fabriciano, mas foi morar de aluguel em Timóteo, quando não tinha mais condições de pagar pela moradia, decidiu ir para a área de invasão. Ela conta que a primeira ocupação, da maior parte do grupo foi feita no bairro Alegre, mas depois se mudaram para o Limoeiro. Inicialmente eram 570 famílias, alguns faleceram outros foram embora para outros municípios ou decidiram voltar para o aluguel. Atualmente 200 famílias, em média, vivem no aglomerado.
Mary Aparecida conta que o principal problema é a falta de regularização no fornecimento de água, luz e a coleta de esgoto. Problemas que já duram 14 anos, desde as primeiras ocupações da terra. “Porque não adianta na época da política, descer o vereador ou o prefeito para beber um copo de água na minha casa, me dá um tapinha nas costas. Depois da política passar e ele ir embora os problemas continuam. E esse nosso problema tem 14 anos e até hoje não foi resolvido”, criticou.  

O aposentado Marcos de Almeida Lopes, 35, é deficiente físico e vive há 10 anos na ocupação. Além da situação precária e a falta de investimentos, ele sofre com a ausência de condições de acessibilidade, localizado em nível mais baixo em relação a avenida dos Rodoviários. “Tem hora que eu vou subir o morro, escorrego e caio, já tomei vários tombos para entrar e sair daqui”, lamenta.

Wôlmer Ezequiel


mary


Sem endereço fixo

Um dos dramas enfrentados pelas famílias é a ausência de comprovante de endereço, devido à falta do fornecimento de água ou energia. “Se você quer comprar um móvel ou pagar um INSS, você tem que pedir pra alguém o endereço emprestado. Se eu vou escrever uma carta, eu tenho que pegar o endereço de alguém no Limoeiro, se eu vou abrir uma conta eu faço da mesma forma”, relata  moradora Mary Aparecida.

Para ela, a situação de vida ali é comparada a de um indigente, com documento, mas sem condições dignas de vida. “Nós aqui somos indigentes de endereço, indigente sem ter uma água tratada, sem ter uma luz. Não queremos nada de graça, a gente quer pagar nossa conta de luz, de água, mas nós queremos a coisa certa, que as coisas funcionem de forma certa”, reivindica Mary Aparecida.

A camareira Edilamar Soares Ferreira, 34, conta que também morou na comunidade no inicio da ocupação, saiu por um tempo e precisou retornar posteriormente.A falta de endereço para ela é também consequência do preconceito enfrentando pelos moradores, uma dificuldade a mais na hora de ser contratada por um novo empregador. “Nestes anos todos foram muitas promessas, mas nada foi feito. Ás vezes eu tenho que ir lá no Primavera para conseguir um endereço com a minha mãe, quando eu não consigo com a minha mãe eu tenho que ir procurar alguém que possa me dar uma conta de luz ou de água para resolver uma questão de documentação” explica.

Origem
A conhecida invasão do Limoeiro existe desde o 2000, quando líderes do Movimento Nacional de Luta pela Moradia (MNLM), trazidos ao Vale do Aço por militantes partidários de Coronel Fabriciano, promoveram a ocupação da área de propriedade da família Maia, inicialmente nas proximidades da torre de transmissão da Rádio Educadora, no bairro Nova Esperança. Depois de uma negociação, o grupo foi removido para a área atual. Sem conseguir avançar na negociação de uma assistência habitacional para as famílias, no conturbado governo Geraldo Nascimento, marcado por idas e vindas dos processo de cassação de mandato, o MNLM abandonou os sem casa, que permanecem na invasão até hoje.

Wôlmer Ezequiel


rua esgoto



Prefeito afirma que avalia reivindicações

Após um protesto realizado pelos moradores da Comunidade Jardim Vitória, há cerca de duas semanas onde o trânsito da avenida Rodoviários ficou fechado por várias horas, o prefeito do município Keisson Drumond (PT), se reuniu com representantes da comunidade na última semana. Os projetos anunciados ainda estão em estudo para implantação, conforme informou a Assessoria de Comunicação de Timóteo.

Entre as melhorias, o prefeito anunciou a construção de uma passagem elevada na avenida dos Rodoviários, já concluída, a inclusão da ocupação do Limoeiro no itinerário dos caminhões de coleta de lixo e de entulho, ônibus escolar para atender as crianças matriculadas nas escolas do município, reforço do policiamento e disponibilização de uma ambulância para atendimento a casos de doença.
O prefeito comprometeu-se ainda a abrir vagas na creche do bairro Alegre, para receber crianças da ocupação do Limoeiro. Outra creche em construção no bairro atenderá a toda a demanda da comunidade, conforme anunciou a administração. Serviços de saneamento básico também estão no planejamento da PMT.

Atendendo a reivindicação dos moradores da ocupação, a administração municipal convidou a Copasa e a Cemig para uma nova reunião com a comunidade, para discutir a ampliação das redes de abastecimento de água e energia elétrica. O governo também repete uma promessa antiga, a de que as famílias da ocupação terão prioridade nos programas habitacionais desenvolvidos pelo município.


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