21 de julho, de 2013 | 00:00

“As pessoas têm dificuldade em parar de consumir”

Com famílias cada vez mais endividadas, economista destaca a importância do consumo consciente


IPATINGA – As famílias brasileiras estão mais endividadas. A Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), aponta que, em julho, o endividamento voltou a crescer na comparação com junho e chegou a 65,2%. Em junho, o percentual era de 63%, apontando recuo em relação a maio (64,3%). Os tipos de dívidas mais comuns foram: cheque pré-datado; cartão de crédito; cheque especial; carnê de loja; empréstimo; prestação de carro e seguro. O cartão de crédito foi apontado como um dos principais mecanismos de dívida por 75,2% das famílias endividadas, seguido por carnês, para 17,9% e, em terceiro, por financiamento de carro, para 12,1%.

Em entrevista ao DIÁRIO DO AÇO, o economista e professor Amaury Gonçalves avaliou a pesquisa. Para ele, a nova classe média, formada pelas classes C e D, aproveitou da oportunidade de comprar com a facilidade de parcelamento e agora está em apuros. “O crescimento baixo da economia reflete numa renda que não acompanha o crescimento das dívidas. Agora, o filho está em escola particular, tem o financiamento do carro, IPVA, eventuais multas, troca de pneus, combustível, gastos que não existiam antes. Esse conjunto de fatores vai acumulando com pequenas dívidas de baixo valor e prazo longo, e tudo isso compromete o futuro das famílias”, salientou o economista.

Bruna Lage


amaury


Ao avaliar o comportamento de consumo das famílias, Amaury Gonçalves destaca que a culpa não é exclusiva dos endividados. “Não podemos jogar a culpa só nas famílias. As dívidas crescem porque o mercado está oferecendo prazos muitos longos. Junto a isso, o Governo favoreceu a compra de imóveis pelo programa ‘Minha Casa, Minha Vida’ e agora a mobília com o ‘Minha Casa Melhor’ (R$ 5 mil para essa finalidade). As famílias não têm renda para fazer frente a tanto crédito disponível. Isso é tentador. O novo programa é mais uma dívida que o governo está incentivando”, criticou Amaury Gonçalves.

Depois da euforia do consumo, veio o aumento dos juros para controlar os gastos. E no meio do caminho estão os consumidores tentando equilibrar as contas. Na avaliação de Amaury Gonçalves, a elevação das taxas de juros está pegando as famílias no contrapé. “Com juros baixos, ficava mais fácil se endividar. Agora que eles estão subindo, as famílias não têm como quitar a dívida e vão pagar mais juros pela dívida feita no passado”, resumiu o economista. 

Alertas
O grande vilão do orçamento das famílias, conforme o CNC, é o cartão de crédito, seguido do carnê. O motivo é simples: facilidade de uso. “Com o cartão no bolso, a pessoa vai às compras, vê o produto, entende que a prestação cabe no bolso e compra. O carnê também é fácil de obter. É a facilidade que leva ao endividamento”, alertou Amaury Gonçalves. Mas como fugir à tentação de comprar na hora que bem quiser, sem burocracia e ainda parcelado? O economista sugere que o consumidor faça três perguntas nessas ocasiões: “Eu preciso? Preciso agora? Tenho dinheiro? O não a qualquer pergunta deveria eliminar a compra”, orientou.

Outra regra básica lembrada por Amaury Gonçalves é não comprometer mais que 30% da renda com parcelamentos. “Os outros 70% do salário é para despesas básicas, como água, luz, saúde, lazer, alimentação, escola. Se os seus parcelamentos estão ultrapassando os 30%, não compre. Espere ter uma folga no fim do ano ou início do ano que vem. Juro barato não é motivo para fazer endividamento crescente. As pessoas têm dificuldade em parar de consumir, mas não deveriam proceder dessa maneira”, resume Amaury Gonçalves.

Inadimplência
Um dos grandes perigos do endividamento é a inadimplência. “Temos dados de famílias gravemente endividadas e caminhando para a inadimplência. Trata-se de valores razoáveis, mas como há uma parcela grande de famílias atoladas em dívidas, é sinal que, no futuro, elas podem ficar inadimplentes”, pontuou o economista. Para as famílias e pessoas em situação de inadimplência, a recomendação de Amaury Gonçalves é concentrar as dívidas em uma só, com juro mais baixo. “A dica é levantar todas as dívidas e direcioná-las em um só financiamento, com taxa de 3% a 5% ao mês”, enfatizou o economista.


Educação financeira para
o consumo consciente

Com apelos comerciais, inovações e facilidades que aguçam o consumo exacerbado, a educação financeira é o caminho para mudança de comportamento, na opinião de Amaury Gonçalves. “As pessoas devem ter educação financeira como prioridade, devem buscar conhecimento em livros, sites, ou junto a um consultor financeiro para esclarecer esses fundamentos. Para mim, educação financeira deve ser disciplina de escola para que a nova geração venha com outra configuração de pensar o consumo, de forma mais consciente”, sugeriu o economista.

Um ato simples da educação financeira que deve se tornar costume é colocar no papel gastos e ganhos sistematicamente todos os meses para ter controle das dívidas. “É importante anotar despesas fixas que, geralmente, não oscilam muito, ver o que varia de um mês para o outro e assim o que pode ser reduzido. Importante também vigiar o desperdício em casa. Afinal, pequenas economias fazem diferença lá na frente”, concluiu Amaury Gonçalves. 
 

Graffo


graffo



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