25 de julho, de 2013 | 00:10
Heróis (e sobreviventes) das estradas
No Dia do Motorista, profissionais relatam histórias colecionadas no dia a dia atrás de um volante
IPATINGA Hoje é o dia daqueles que levam e trazem mercadorias, pessoas e por que não, colecionam inúmeras histórias. Atrás do volante, o motorista cumpre um papel fundamental que faz tudo e todos chegarem ao seu destino. Este 25 de julho, Dia de São Cristóvão, é dedicado aos motoristas que têm o santo como padroeiro. Mas independentemente da religião, fé, coragem e luta, eles abraçaram uma profissão que exige abnegação e muita coragem para deixar a família e enfrentar as (armadilhas) perigosas estradas brasileiras. Por isso, podem ser considerados heróis. Para falar um pouco sobre o ofício, o DIÁRIO DO AÇO ouviu motoristas que atuam em diferentes áreas. É cada história...
O pior é estar sozinho”
Morador de Joanésia, Alex da Silva Igino, 31 anos, trabalha na profissão de motorista há sete anos. Ele afirma que se interessou pelo ofício por causa do pai e dos amigos. A rotina é perigosa e penosa. A melhor parte é dirigir, ver coisas novas. A pior é estar sozinho, nem dá tempo de conhecer muitas pessoas. Passamos a vida no caminhão. Durmo e acordo nele e é uma longa espera no tempo de carga e descarga de mercadorias”, resume.
Alex da Silva foi assaltado em Belo Horizonte, há quatro anos. Minha sorte é que levaram só o dinheiro e não me machuquei”, relatou. O motorista reclama do alto custo de vida na estrada. Para café da manhã, almoço e janta gasto R$ 50 por dia. Tá tudo muito caro. Tudo subiu, menos o salário. Acho que o motorista é um profissional pouco valorizado, tanto que a profissão só foi reconhecida há pouco tempo”, comentou.
Somos inteligentes”
Aposentado, o taxista de Ipatinga, Julmar Moreira Barbosa, 49 anos, encontrou no volante um meio de complementar a renda e se sentir ativo. Conheço bem a cidade e resolvi virar taxista há três anos. A vantagem é a liberdade que tenho de horário, companhia das pessoas e a oportunidade de rever velhos conhecidos em uma ou outra corrida”, declarou. Enquanto aguarda clientes, Julmar Moreira ocupa o tempo lendo livros.
Ele conta que o hábito foi herdado do pai e sua meta é de ler um livro por semana. O taxista chama a atenção para o preconceito contra a profissão de motorista. Muitos acham que todo motorista é burro, mas isso não é verdade. Somos inteligentes. Falta respeito”, afirmou. Quanto à rotina no trânsito, Julmar Moreira atribuiu à falta de educação o caos no tráfego de veículos. A rotina é difícil, mas a falta de educação é o maior problema do trânsito”, pontuou.
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Viagem em família
Vindo de Caruaru (PE), José Pinheiro, 34 anos, motorista autônomo, estacionou o caminhão em um posto de Ipatinga. Na cabine, a mulher e dois filhos, de 14 e 8 anos de idade, o acompanham há duas semanas. Para tornar a viagem mais confortável, uma rede é improvisada no pequeno espaço. Há um ano, José Pinheiro não vinha a Ipatinga.
No Nordeste, o custo da viagem fica mais em conta do que por essas bandas”, justificou. Ele entrou para a profissão por influência do pai, após deixar os estudos aos 15 anos de idade, e conta que já gostou mais do ofício. O bom das viagens é adquirir experiência. Mas a dificuldade aumenta cada vez mais. Não gosto tanto da profissão como antes. Pretendo ficar nela somente até meus filhos terminarem os estudos”, revelou. A companhia da família na estrada se deve às férias escolares. É comum motoristas viajarem com a família nesse período. É uma festa. Na hora de dormir a gente se aperta aqui, arma a rede e fica junto”, contou.
Poucos são bem qualificados”
Com 25 anos de estrada, o motorista José Luiz da Silva, 55 anos, pilota de motocicleta até carretas dotadas de alta tecnologia. Casado e pai de dois filhos, ele sempre investiu na profissão e possui boas qualificações que atraem muitas propostas de trabalho. Tem muita gente, mas poucos são bem qualificados. Recebo muitas ligações de oferta de trabalho. Mas o mercado não está fácil. Muitas empresas estão terceirizando o serviço”, salientou. Quando está na estrada, para reduzir o custo, José Luiz usa a cozinha do caminhão para garantir as refeições. Cozinheiro de mão cheia, ele afirma que, com R$ 50, ele come por uma semana. Novas amizades, novos lugares e também apuros marcam a carreira do motorista.
Em 2001, ele viveu momentos de pânico no Rio de Janeiro, quando teve a carreta da empresa para a qual trabalhava roubada. Um carro pareou com o caminhão e me mandou encostar. Tomaram a direção, me colocaram atrás, me tampando com um cobertor. Depois me passaram para um carro e me levaram até um cativeiro. Fiquei na mão de bandidos das 14h às 0h, quando me libertaram e me colocaram dentro de um coletivo”, lembrou. Mas foi pela fé que o motorista persistiu na profissão. Fiquei com trauma de placa do Rio. Mas tempo depois trabalhei para uma empresa de lá e foi com esse emprego que construí minha casa. Tenho muita fé”, destacou.
Dirigir para você e para os outros”
O motorista de Belo Horizonte, José Afonso Rosa, 56 anos, está desde 1976 na profissão. Sua paixão é por ônibus, que pilota desde 1978 até hoje, mesmo depois de se aposentar. Gosto tanto que tem onze anos que me aposentei e continuo na estrada”, informou. Depois de conhecer 75% do Brasil trabalhando com turismo e de abrir mão de muitos momentos ao lado da família, José Afonso Rosa optou por trabalhar perto de casa. Ele faz a rota Belo Horizonte/Ipatinga há muitos anos. É bom que tenho escala programada e hora para chegar e sair”, justificou.
José Rosa atesta com as cerca de 26 viagens feitas ao mês entre Ipatinga e BH que, apesar de curto, o trecho é mais cansativo que outras viagens bem mais longas. É preciso perícia, habilidade e experiência. Tem que dirigir para você e para os outros”, enfatizou. Apesar dos pavorosos acidentes que já presenciou na BR-381, José Rosa acredita na duplicação da rodovia, porém não vê isso como solução para a violência na estrada. Estrada não mata ninguém, quem mata é motorista despreparado. Falta consciência ao volante. Por isso, o segredo da nossa profissão é olhar além”, opinou.
Entre as histórias inusitadas que já viveu na estrada, José Rosa destaca um parto feito dentro do ônibus que conduzia, em 1995, na cidade de Três Corações. A sorte é que tinha uma técnica em enfermagem no veículo e deu tudo certo”, relembrou. Sobre a relevância do motorista, José Rosa atesta: Acho que essa profissão é importante e nunca vai acabar”.
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